quarta-feira, setembro 05, 2007

parte 3(final) da entrevista do poeta Miguel Carneiro

abxz – No entanto, escritores de diferentes matizes, escolas e gerações, mas principalmente os jovens, têm dedicado poemas a você, além de mostrarem bastante respeito pela sua obra...
MC – Generosidade dos amigos, só isso. Não sou flor que se cheire. Talvez para me acalentar, não me deixar tão enraivado com essa gente lustrada, de verniz, feito a barata de Kafka.
abxz - Em que campo da literatura você se sente mais confortável?
MC – Literatura é o pão que o “dianho” um dia amassou com o pé. Nada em literatura é prazeroso quando se leva ela a sério. João Cabral, cego no fim da vida, num apartamento no Rio, entre tiroteios e balas perdidas, com uma nevralgia crônica, cunhou essa pérola, na década de 70, numa entrevista ao Suplemento Literário do Diário de Noticias,:”quando não posso me renovar, eu me calo”.
abxz – Então qual a função que a literatura exerce na sua vida, uma vez que a sua face moderna é mesmo angustiante?
MC- Só me sinto humano porque escrevo. Isso é uma constatação minha, não um julgamento. Só encontro a minha missão como parte do rebanho de Jesus Cristo quando o povo emerge em minha obra e sai do limbo para ganhar voz. Literatura é o que me faz viver. Não a faço por deleite ou almejar fama. Faço como compromisso social e vislumbrando um mundo mais fraterno, mais justo, mais farto, mais irmão. Sou um homem angustiado, pois meu irmão do lado ainda passa fome, num país continental, farto e cheio de riquezas naturais. Sinto-me constrangido quando minha obra não toca o coração do meu irmão, seja ele brasileiro, francês, alemão ou americano. Pois em todos esses idiomas tenho trabalhos publicados e traduzidos.
abxz – Como vê a critica literária hoje?
MC – Alguém já disse antes que: “todo crítico literário é um escritor frustrado”. E quando ele ou ela entra na trupe de perseguição, ou de silenciar pelo que o outro escreve, ou fica em cima do muro, ou em silêncio, é que no fundo gostaria de levar aquele poeta, ou aquele escritor para a cama. Porém, eu os vislumbro como peça da engrenagem do sistema neoliberal a que este, ou aquele sujeito ou ator social é serviçal. Mas nem sempre peneiram. Essa gente está viciada no jogo do “cumpadismo”, do toma lá da cá, permitem que isso cresça, invada e viceje no pasto medíocre da literatura baiana, porque é uma forma de controle e manipulação. Na essência, somos todos um covil de chacais, rindo da desgraça alheia, enchendo a cara de graça nos coquetéis que os chapas brancas promovem e a gente vai, depois da cabeça zonza, dormir com boca fedendo após comer a amante. Até agora nada mudou, continua o mesmo ramerrão no quartel de Abrantes.
abxz – E os jovens escritores baianos? Há nomes que merecem mais atenção?
MC - Há uma coisa perigosa que Ceça, (Maria da Conceição Paranhos), minha poeta maior, me disse em certa feita: “um fato é a vida literária o outro é a literatura em si”. Quem fica? Os jovens precisam tomar cuidado, pois essa coisa desenfreada, feito Roberto Carlos, o cantor, de lançar todo ano um disco é semelhante a essa gente que todo ano quer lançar um livro na praça. Não trazem nada de novo. Eu me sinto envergonhado quando chego na LDM ou na Berinjela, ou nas livrarias EDUFBA e folheio um novo livro dessa gente.Aí na terra de Jorge Araujo, Adylson Machado, Agenor Gasparetto, terra de Fernando Ramos, de Altamirando Camacam, de Adelmo Oliveira, Maria Eleonora Cajahyba, Geraldo Maia, há gente produzindo coisas legais que eu sei. Mas em linhas gerais eu posso citar na prosa: Alex Leila, Maria do Carmo Salomão João Filho, Pablo Reis; na poesia: Henrique Wagner, João de Moraes Filho, Ronaldo Braga, Aline Costa, Carine Araújo, Nélson Magalhães Filho, Luciano Fraga, Maria Isabel Sampaio Lima, você próprio, Gustavo Felicíssimo, Fabricia Miranda, Bernardo Linhares, Wladimir Saldanha, Mauro Mendes, Bel Mascelani, Raimundo Bernardes...
abxz – Eu gostaria que, para terminar, você falasse um pouco sobre a sua obra, o CD com poemas que está para ser lançado, bem como o novo livro de contos que deve sair em breve também...
MC – Eu vou transformar uma novela que fiz o ano passado em um romance. Isso em junho, quando voltar da Itália. Vou para Gênova, para o Festival Internacional da Poesia, pois ganhei no ano passado uma passagem de ida e volta para me apresentar nesse Festival com um poema chamado a Lenda Nagô dos Afoxés, que já foi publicado neste abxz.O cd são dez faixas com poemas que os amigos recitam e três poemas que viraram música através de meus parceiros João Bá, Amenom Mascelani, Tomé Barreto e que o público grapiúna poderá conhecer em breve.

2 comentários:

anjobaldio disse...

Miguel, fiquei muito honrado com sua citação, e obrigado pelo ótimo CD Mabaços. Grande abraço.

Alyne Costa disse...

Miguel, fiquei radiante.
Sou sua fã!