quarta-feira, setembro 05, 2007

entrevista: POETA MIGUEL CARNEIRO

O poeta Miguel carneiro foi entrevistado pelo tambem poeta Gustavo Felissímo e essa conversa você pode ler agora, ela foi originalmente publicada no jornal literário ABXZ Caminhos das letras. Da cidade de Itabuna- Ba.
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Miguel Carneiro na peleja dos caminhos

abxz – Em fevereiro deste ano perdemos um amigo, os jovens (principalmente os alunos do CRIA) um mestre e a literatura um poeta singular. Como você via Zeca de Magalhães e de que forma o vê hoje?
Miguel Carneiro – Meu compadre Narciso era um ser antagônico, chegado a um embate e confrontações. Gostava de ser “gauche”, embora, de índole, fosse “carlista”. Jamais recuou ou abaixou as calças para as putinhas que hoje dominam na mídia a literatura que se pratica nessa província de todos os santos e inevitáveis demônios. Lembro, muito bem, de nosso primeiro encontro, nas tardes ensolaradas do verão de 1983, eu levado pelas mãos do poeta Ronaldo Braga, das terras de Cruz das Almas, porto de Luciano Fraga, Nélson de Magalhães Filho, poetas no sentido da palavra. Eu estava ensaiando “O Homem e o Cavalo”, uma peça de Oswald de Andrade, que é uma cópia barata de “Mistério Bufo” de Maiakovisk, e Narciso se engajou no projeto para fazer a personagem do poeta. Ensaiávamos no TCA. A peça não rolou, mas a amizade com Narciso se estabeleceu. Daí para cá, sempre estive ao seu lado, e ele ao meu. Por confiança, deu-me seu filho mais novo, Raoni Magalhães para que eu batizasse. Narciso é ave rara, de penugem nobre, de vôo belo... Os que foram para a cerimônia de cremação lá no Jardim da Saudade, muitos dali, enquanto Narciso viveu, sacanearam o tempo todo com o nosso bardo das Laranjeiras, limando, torcendo a cara, engavetando os seus projetos. Na Bahia, Narciso mostrou que a poesia “dèjà vu”, sem uma ênfase na quebra de paradigmas e no social, sem estar antenada com o mundo, bolora, cria mofo e se exaure. E Narciso tinha algo de diferencial em relação à fauna literária proviciana. Narciso tinha farinha no saco. E a coisa mais abominável para mim é lidar, no dia a dia, com poeta “ingnorante” e disso a Bahia está plena.
abxz – Você é chegado a embates e por isso tem alguns desafetos no meio literário...
Miguel Carneiro – O poeta paulista José Paulo Paes, em seu poema “Poética”, traduz a minha peleja nessa seara de homens sem ética, pois só sei viver sem estar atado a peias. Ele diz: “Não sei palavras dúbias. Meu sermão/ chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. / Com duas mãos fraternas, cumplicio / A ilha prometida à proa do navio. / A posse é-me aventura sem sentido. / Só compreendo o pão se dividido. / Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. / Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.”Sempre se soube que no meio literário baiano viceja a “mauvaise herbe”, que não inova nada, não contribuiu com algo novo, é o mesmo ramerrão de versos plagiados. Ser poeta todo mundo quer ser, mas poucos são. E contista é uma coisa meio difícil, você não pode enganar. Ou é ou não é. Na poesia, com a semana de 22, todo mundo virou poeta e a merda se alastrou. É tanta porcaria que se publica na Bahia que eu tenho é vergonha. Eno Teodoro Wanke, poeta paranaense, disse certa feita que “é fácil distinguir entre o verdadeiro e o falso poema. O falso permanece escrito ou impresso na página. O verdadeiro salta, palpitante de vida e de alma, e fica para sempre inscrito em nós, morando na gente, lembrado na memória, sentido no coração.”
abxz – Você já contou seus mortos?
Miguel Carneiro – Essa história é gozação do poeta baiano Henrique Wagner que num poema “Miguel Carneiro, Meio-Dia”, me homenageia. A verdade é que sou um homem marcado por tragédias que me deixaram para que eu andasse por essas avenidas dessa cidade que nomeiam de “Jesus”, com a cabeça baixa e ombros arqueados. Sou de peleja, de caminhos tiranos e sofrer não escolhe o lugar. Carrego, sim, almas de vaqueiros desconhecidos que com a espora e a chibata construíram cidades. O livro de Deus tem páginas infinitas e quando Ele, do alto, o abre, chama o seu escolhido. E como disse o encantado de Codisburgo; “Viver é um negócio perigoso”.
abxz - Como eles emergem em seu labor literário?
MC – Eu sempre vivi de lembranças. O poeta Antonio Carlos de Britto, Cacaso, disse num verso telegráfico: “Minha pátria é minha infância,/ por isso vivo no exílio”. Quem escreve não é o homem, caminhando para barbas grisalhas e cabelos brancos, estou com duzentos anos no lombo, mas minha criança que testemunhou tantos esquifes no passado os traz do limbo. Minha literatura é feita para dar voz à gente que eu vi e vejo, para a geração de minha filha Laura, àqueles que morreram em covas rasas, e que batem na minha porta em busca de um pão, que catam latinhas de cervejas para sobreviver, e que passaram e passam por essa vida sem deixar riquezas. Escrevo a história daqueles que tiveram caráter, bondade e lirismo.
abxz – Escrevemos cada vez mais para um público cada vez menos(1)?
MC – A questão aí não é culpa dos escritores, mas do poder público. Há uma taxa de analfabetismo alarmante em nosso Estado. Aliado a isso, os autores baianos sequer são indicados nas escolas, quer de segundo grau ou nas universidades. Nós fazemos nossa parte, escrevemos, testemunhamos o tempo que nos é permitido na face da terra. Cabe ao poder público incentivar, publicar, distribuir e fazer com que os autores baianos sejam conhecidos. Nas universidades, no campo das Letras, estudar um autor baiano torna-se heresia. Só se faz mestrado ou doutorado sobre morto. É uma burrice sem limites.

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