domingo, setembro 09, 2007

“Bendito sejam todas as prostitutas que, como santas, entregam seus corpos aos profanos” Zuzu Botina Cortada, poeta popular jacuipense

Eu ando com alma em frangalhos, trafegando nessa terra avessa. A avenida povoada de clandestinos, tipos cretinos, emplumados de grife, a boca repleta de pivôs de aço e o bafo azedo do champanhe que regurgitam em soluços. Determinados tipos balançam sorridentes os apetrechos. Dentro da bolsa comprada em Paris os cartões de créditos acomodados na carteira molduram uma montanha e ostentam esbanjamento consumista. Os cartões parecem ter alma própria e eles, pelo que me parece, estão sufocados nesse ninho de ratos, nessa confusão de babilaques, e aguardam ansiosos para debutarem no estrago da farra da puta. A avenida fica feita passarela de moda. Transitam toda sorte de animais, desde os mais dóceis até os selvagens, malhados, alguns, porém forjados na homossexualidade das academias de ginástica. Nesses ambientes se erigem gorgotas e vedorianos. A futilidade transborda em tipos esguios e estampas de papel-reclame. Se se revira à cabeça para baixo, chaqualha-se em redemoinho, faz pose, joga o cabelo esvoaçante para o lado, morde a boca em sedução, mas não há uma lógica no discurso datado dessa figura. Há sim,muita gabação, enredos de telenovelas, repletos de traições, bundas de fora, bobagem e pieguice. O nome do galã da atualidade momentânea que vende cola para dentadura ela não titubeia em pronunciar como se isso fosse algo mais importante para a humanidade. A boceta ela mantém raspada igual há um porco pelado num balcão de mármore ensebado de um açougue. A calcinha teima em adentrar o rego do cu, e ela discretamente a conserta, livrando-se do incômodo. Os cosméticos ela faz questão de adquirir somente de procedência nacional, ela também se acha politizada, suas palavras de ordem nessa quadra quando avisto são cidadania, ecologia, auto-estima e o Shiraz que ela usa me embebeda em nevralgia. Eu os acho um tipo furreco, senhora de si, feminista e burra. Muda de corte de cabelo a cada quinze dias, dá escova, se mete nos salões de beleza desse Shopping e ali se gaba novamente ao celular para quem está em volta participe de seu círculo de amizades. Há sim um pouco de cafonice no olhar, marcas de expressão no rosto ameaça aparecer e ela de consulta marcada com o cirurgião plástico para lhe enfiar pela cara, cutaneamente no rosto o Butox, para deixá-la esticada e depois de oito anos refazer os estragos. Semelhante como os seios que no ano passado mandou suspender e diminuir para ficarem durinhos. E que seu amante, empresário, de bigode enferrujado com a estampa do cão lhe chupa sem piedade a ponto das tetas ficarem arroxeadas de tanta fúria e tesão. Mas ela gosta, homem mole e requintado ela não leva para a cama. Quanto maior a vara maior será o desejo de que a meta por trás feito uma cachorrinha em pleno cio com direito à boceta ficar encharcada de galo e orgasmo que mais pareça uma lagoa com uma pica boiando dentro da gruta aveludada e esponjosa. Fuma, fuma e nem se importa que o enfarte se avizinhe, ou que esse hábito esteja démodé, ela dá aquelas tragadas como se estivesse fumando o último cigarro. Ao seu lado, se comenta em bochicho, que esse vício a levará para uma mesa de cirurgia. Ela não se importa com o que os amigos comentam. Um dia, talvez, quando a caipora estiver afastado ela decerto abandonará o vício. Leva as mãos para trás da orelha e com a ajuda do polegar e o indicador espreme a massa sebácea que se acumula na cartilagem da orelha. Fede e ela então discretamente delicia cheirando a porcaria que sai de dentro dela. O verão pipoca lá fora toda sorte de promoções se instaura na cidade, ela bombardeada de apelos publicitários, trafega com desenvoltura na passarela.
O timbre da voz tem aquela rouquidão. E isso lhe dá um certo charme misturado com a canalhice pessoal que qualquer um que bata o olho vê nela o desperdício das tardes quentes na cidade mais conservadora e cafona que alguém escolheu para habitar. Uma ela se contenta: sua cidade é a única no país que recebe a suntuosa visita do navio Queen Mary 2, o maior do mundo. E ela a bordo, jogando conversa a fora com a tripulação, servindo de cicerone ao capitão enquanto caminham a pé pelas ladeiras do Maciel de Baixo e Maciel de Cima onde outrora reinava os bregas. Esses detalhes ela omite ao capitão, somente mostra a fachada do casarão do folhetinesco escritor dominando de azul a paisagem. Ali há um projeto em pauta de engarrafar bufas em frascos de vidros feitos pela antiga fábrica da Fratelli Vitta onde as personagens do citado escritor deram seus peidos na província entre glutões,lambanceiros, comedores de feijoadas. Onde no futuro se venderá essas garrafas de bufas com a inscrição: “Lembrança da Bahia”. Então, turistas amarelos levarão de volta a seu país, e em suas salas de visitas ao desafivelar as bagagens, mostrarão orgulhosos a seus filhos ou a mulher pálida de lembranças, a raridade garimpada na terra abaixo da Linha doEquador. E os familiares boquiabertos, introduzem solenemente a colorida garrafinha para fazer parte de mais um biscuit do novo mundo. Ela é do tipo que faz parte do coro da falsidade e uníssona entoa o falsete da sacanagem. Eu moro no Rio Vermelho e e ela de vez em quando dá o ar de sua graça e me visita com uma garrafa de vinho e alguns papelotes de cocaína pois ela mesmo sobe o Morro do Águia e de lá trás o pó para nos iludirmos e acordarmos de língua seca e aquela sede terrível. De meu apartamento a paisagem do mar azul da Bahia se descortina majestoso. E ela sempre surge trazendo novidades. Trabalho numa agência de publicidades. A puta não é puta assim, tem coração e a semana passada queimei em febre e ela largou seus negócios escusos para vir cuidar de mim. A meu lado, aqui nesse shopping, vejo passar a elite. E um velho aposentado espera a chegada de um parente. Quando meus olhos estão marejados de saudades e pelo peito um frio arfante invade minha alma, deixando-me fleumático e cáustico a ponto de me deixar tão sensível e de chorar em inauguração de supermercado. Telefono, então para a ela, rendo-me aos seus caprichos. A puta não tem nada na cabeça. Apenas o desejo de se tornar famosa de uma noite para o dia. Mulher e diabo se conhecem pelo rabo. Foi numa tardezinha de inverno em que a cidade mergulhada em aguaceiros que resolvi telefonar para um anúncio de uma casa de massagem solicitando a presença de uma dessas moças. E eis que em menos de uma hora surge a puta para qual tive também de pagar a corrida de táxi. Aos poucos,desses breves encontros em minha casa onde eu pagava para transar, fui me envolvendo nesse romance barato e noir. Diante dessa gente que trafega nesse corredor, avisto ao longe a puta a conversar com um sujeito que julgo ser seu próximo cliente. Tiro os olhos da cena, levanto-me do banco onde estou e sigo para casa feito um desvalido, puto da vida com esta nobre dama, de quem ainda posso dizer que em verdade eu a amo.

Miguel carneiro

3 comentários:

luciano fraga disse...

Ronaldo,verdadeiramente,benditas são as prostitutas,as putas que são belas e quem já aproximou-se delas sabe o quanto são doces...O mundo é assim.

anjobaldio disse...

Um puta-texto, Miguel. De "marejar" os olhos. Um abração.

cafundó disse...

Ah, Miguel, vc é luz.
Que texto lindo, fede igual ao sebo que a puta tira da orelha, mas é na verdade um puta texto.
Vc é luz, Miguel.
Te amo, beijos!