quarta-feira, setembro 26, 2007

O acontecido

Era bem cedo quando eu soube da existência do acontecido. Imediatamente duas coisas cresceram na minha mente: primeiro, a inevitável necessidade de te contar, segundo, a de conhecer o pré-acontecido, porque, e você concordará comigo, o acontecido, talvez, nem mesmo seja importante, antes o pré-acontecido, preencha, na sua totalidade, as aberturas presumidas no acontecido, e que, portanto, a partir do pré-acontecido, seja finalmente conhecida a decisão e os atos dos envolvidos no acontecido.
Amiga, a conjuntura dada, do pré-acontecido fatalmente estabeleceu o devir, e esse vir a ser, por sua vez, por uma imanente imposição, nos revela um dilema, dilema esse solucionável unicamente com a analise do acontecido. Solucionável? Unicamente?
Minha querida amiga, ai está a questão: eu só estou enviando esta carta pra você, por saber da sua competência em assuntos delicados e, tenha certeza o assunto ora tratado é não só delicado como perigoso e por outro lado é também degenerativo. Amiga entre o acontecido e o pré-acontecido, vácuo e vácuo, mas também uma inversão, a aparição do pré-acontecido como condição primeira da solução do enigma, razão principal: primeiro era o acontecido e agora é o pré-acontecido mas podendo ser o seu oposto e digo não o seu duplo, mas,afirmo sim, podendo ser o seu oposto, e essa possível mudança de ordem entre o pré e o acontecido quando o primeiro é o segundo e o segundo pode ser o primeiro é ou não é um enigma? Pois então, a partir da aparição do pré-acontecido deu inicio a produção de enigmas, senão vejamos: primeiro a produção do enigma do acontecido, agora a produção do enigma do enigma da importância ou não do acontecido frente ao pré-acontecido, podendo este ser mais importante e até mesmo fundamental para desvendar o enigma do acontecido.
Enigmas a parte, eu só vejo uma saída, você e eu pensarmos juntos.
É, portanto pacifico conhecer os atos e desejos do acontecido, e principalmente o objetivo, mas por outro lado, é por demais importante saber primeiro, como se deu a aparição do pré-acontecido. Concretamente temos dois caminhos, (eu sei a sua fixação por três), primeiro a analise do acontecido, apesar de haver boatos da sua não existência, pois se sabe que certos advogados soltaram o verbo, afirmando não acreditarem nem mesmo na importância do acontecido e que na verdade antes importante mesmo seria o pré-acontecido; segundo caminho, não esquecer que o primeiro é o segundo e que o segundo é o primeiro.
Amiga diante dos fatos apresentados espero que entenda a minha inteira dificuldade e a qual a minha razão, para eu ocupar o seu precioso tempo pois este acontecido e seu pré-acontecido pode ser a produção da produção de aparições de acontecidos outros e diante dessa preocupação por temor e respeito a humanidade achei por melhor tentar resolver essa questão e assim daqui espero uma resposta para passarmos para a solução desse problema que se faz primário.
Atenciosamente seu amigo,

Ronaldo braga

vendaval

Cores estranhas num telefonema.
O sabor amargo na alma que chora.
O sabor do medo que no sonho queima...
Cores da vida em amarelo gema.
O sonho que chega a cada nova aurora.
O sonho da seção da tarde ser cinema...
A doçura de um filme de Carlitos.
O aroma de versos soltos num varal.
A dor abortada em infinitos gritos.
A infância renascida em fruta de quintal.
A solidão que aprende novos ritos.
A esperança dança em voltas num pombal.
A resignada obediência a mitos.
A sábia serenidade abranda o vendaval.

alyne costa

quinta-feira, setembro 20, 2007

crucial viagem de onibus
o gesto
enlouquecido do mago

ser excesso,
voltejar-bizarro

as aves sem nome
nas ervas

vaguear só
sem pétalas

sua presença fugaz, e
deslizo nas almas

dos passageiros
como um feiticeiro.

Nelson Magalhães Filho

Pedra

Pedra

Como num silêncio profundo a poesia sumiu dos meus olhos.
Apareceu em meu sonho como estandarte.
Penso em ti, poeta, quando os seus versos sumiam e cochilavam em sua alma.
E, assim, essa poesia muda grita em mim.
Debruçada no infinito, ela é soberana.
Sua vigília entoa ladainhas, mas não me traz a alegria dos salmos.
Essa poesia, Carlos, é a voz dos anjos sussurrando a inquietude de todos os poetas.
Quando ela corrói as entranhas, envolve o poeta e este não a consegue traduzir no papel.
Resta essa tristeza imensa em não traduzir.
Florbela, Adélia, Cecília, Clarice, Cora Coralina, Ana C.Umas, assim.
Outras assado:
Rosa, Olga, Pagu, Simone, Zuzu Angel.
Quando a poesia se faz fêmea e num mesmo peito se acasalam a condição de poeta e a de mulher.
Peço-te licença... Não consegui ser gauche.
Só vejo uma pedra.

Alyne Costa

segunda-feira, setembro 17, 2007

DÉDALOS AUSPICIOSOS

“...Ó gérberas malditas! Nessa solitária caravana,suor,poeira,calos rumo ao infinito...”
Antonio Luis M. Eloy (Luizinho)



O Samsara
é sim
uma balbúrdia
de enterro
um coágulo gorduroso
sobre o telhado
da humanidade...
Protuberância de saliva
invade
a privacidade
de um mundo pequeno
que desejo tê-lo e
derretê-lo:
quer seja na rua
num canto do quarto
na leveza da tela
na dores do parto
no quadrado da cela
comendo o pão do diabo;
mas que seja meu,
simples-mente-meu.
Mundo sujo
com rabugem de cão
que sou
na terra
preciso uivar
minhas vibrações
de carma ruim...
Quero expelir um poema
que soe assim,
trágico,
faminto...
Agora,
permita-me chorar!
Mas você não...
Deixa....

Luciano Fraga

quarta-feira, setembro 12, 2007

Recital poético interativo
POR QUE VOCÊ NÃO VEM?
CÔ IBI JAGUARECÓ IARA
Essa terra tem dono!
Diz a língua tupi
Ecoando a voz de todas as nações
CÔ IBI JAGUARECÓ IARA
Essa terra tem dono!
Assim falam os Tapuias
Os Tupinambás, os Botocudos
Os Tamoios, os tupiniquins
Os Pataxós,
Tupi terra Guarani
Vem a bandeira Lusa
Que a tudo seqüestra
E leva a terra
E a terra é o homem
E o homem é o sangue da terra...
e de repente, o
Nordeste


Postado por Zeca de Magalhães

domingo, setembro 09, 2007

“Bendito sejam todas as prostitutas que, como santas, entregam seus corpos aos profanos” Zuzu Botina Cortada, poeta popular jacuipense

Eu ando com alma em frangalhos, trafegando nessa terra avessa. A avenida povoada de clandestinos, tipos cretinos, emplumados de grife, a boca repleta de pivôs de aço e o bafo azedo do champanhe que regurgitam em soluços. Determinados tipos balançam sorridentes os apetrechos. Dentro da bolsa comprada em Paris os cartões de créditos acomodados na carteira molduram uma montanha e ostentam esbanjamento consumista. Os cartões parecem ter alma própria e eles, pelo que me parece, estão sufocados nesse ninho de ratos, nessa confusão de babilaques, e aguardam ansiosos para debutarem no estrago da farra da puta. A avenida fica feita passarela de moda. Transitam toda sorte de animais, desde os mais dóceis até os selvagens, malhados, alguns, porém forjados na homossexualidade das academias de ginástica. Nesses ambientes se erigem gorgotas e vedorianos. A futilidade transborda em tipos esguios e estampas de papel-reclame. Se se revira à cabeça para baixo, chaqualha-se em redemoinho, faz pose, joga o cabelo esvoaçante para o lado, morde a boca em sedução, mas não há uma lógica no discurso datado dessa figura. Há sim,muita gabação, enredos de telenovelas, repletos de traições, bundas de fora, bobagem e pieguice. O nome do galã da atualidade momentânea que vende cola para dentadura ela não titubeia em pronunciar como se isso fosse algo mais importante para a humanidade. A boceta ela mantém raspada igual há um porco pelado num balcão de mármore ensebado de um açougue. A calcinha teima em adentrar o rego do cu, e ela discretamente a conserta, livrando-se do incômodo. Os cosméticos ela faz questão de adquirir somente de procedência nacional, ela também se acha politizada, suas palavras de ordem nessa quadra quando avisto são cidadania, ecologia, auto-estima e o Shiraz que ela usa me embebeda em nevralgia. Eu os acho um tipo furreco, senhora de si, feminista e burra. Muda de corte de cabelo a cada quinze dias, dá escova, se mete nos salões de beleza desse Shopping e ali se gaba novamente ao celular para quem está em volta participe de seu círculo de amizades. Há sim um pouco de cafonice no olhar, marcas de expressão no rosto ameaça aparecer e ela de consulta marcada com o cirurgião plástico para lhe enfiar pela cara, cutaneamente no rosto o Butox, para deixá-la esticada e depois de oito anos refazer os estragos. Semelhante como os seios que no ano passado mandou suspender e diminuir para ficarem durinhos. E que seu amante, empresário, de bigode enferrujado com a estampa do cão lhe chupa sem piedade a ponto das tetas ficarem arroxeadas de tanta fúria e tesão. Mas ela gosta, homem mole e requintado ela não leva para a cama. Quanto maior a vara maior será o desejo de que a meta por trás feito uma cachorrinha em pleno cio com direito à boceta ficar encharcada de galo e orgasmo que mais pareça uma lagoa com uma pica boiando dentro da gruta aveludada e esponjosa. Fuma, fuma e nem se importa que o enfarte se avizinhe, ou que esse hábito esteja démodé, ela dá aquelas tragadas como se estivesse fumando o último cigarro. Ao seu lado, se comenta em bochicho, que esse vício a levará para uma mesa de cirurgia. Ela não se importa com o que os amigos comentam. Um dia, talvez, quando a caipora estiver afastado ela decerto abandonará o vício. Leva as mãos para trás da orelha e com a ajuda do polegar e o indicador espreme a massa sebácea que se acumula na cartilagem da orelha. Fede e ela então discretamente delicia cheirando a porcaria que sai de dentro dela. O verão pipoca lá fora toda sorte de promoções se instaura na cidade, ela bombardeada de apelos publicitários, trafega com desenvoltura na passarela.
O timbre da voz tem aquela rouquidão. E isso lhe dá um certo charme misturado com a canalhice pessoal que qualquer um que bata o olho vê nela o desperdício das tardes quentes na cidade mais conservadora e cafona que alguém escolheu para habitar. Uma ela se contenta: sua cidade é a única no país que recebe a suntuosa visita do navio Queen Mary 2, o maior do mundo. E ela a bordo, jogando conversa a fora com a tripulação, servindo de cicerone ao capitão enquanto caminham a pé pelas ladeiras do Maciel de Baixo e Maciel de Cima onde outrora reinava os bregas. Esses detalhes ela omite ao capitão, somente mostra a fachada do casarão do folhetinesco escritor dominando de azul a paisagem. Ali há um projeto em pauta de engarrafar bufas em frascos de vidros feitos pela antiga fábrica da Fratelli Vitta onde as personagens do citado escritor deram seus peidos na província entre glutões,lambanceiros, comedores de feijoadas. Onde no futuro se venderá essas garrafas de bufas com a inscrição: “Lembrança da Bahia”. Então, turistas amarelos levarão de volta a seu país, e em suas salas de visitas ao desafivelar as bagagens, mostrarão orgulhosos a seus filhos ou a mulher pálida de lembranças, a raridade garimpada na terra abaixo da Linha doEquador. E os familiares boquiabertos, introduzem solenemente a colorida garrafinha para fazer parte de mais um biscuit do novo mundo. Ela é do tipo que faz parte do coro da falsidade e uníssona entoa o falsete da sacanagem. Eu moro no Rio Vermelho e e ela de vez em quando dá o ar de sua graça e me visita com uma garrafa de vinho e alguns papelotes de cocaína pois ela mesmo sobe o Morro do Águia e de lá trás o pó para nos iludirmos e acordarmos de língua seca e aquela sede terrível. De meu apartamento a paisagem do mar azul da Bahia se descortina majestoso. E ela sempre surge trazendo novidades. Trabalho numa agência de publicidades. A puta não é puta assim, tem coração e a semana passada queimei em febre e ela largou seus negócios escusos para vir cuidar de mim. A meu lado, aqui nesse shopping, vejo passar a elite. E um velho aposentado espera a chegada de um parente. Quando meus olhos estão marejados de saudades e pelo peito um frio arfante invade minha alma, deixando-me fleumático e cáustico a ponto de me deixar tão sensível e de chorar em inauguração de supermercado. Telefono, então para a ela, rendo-me aos seus caprichos. A puta não tem nada na cabeça. Apenas o desejo de se tornar famosa de uma noite para o dia. Mulher e diabo se conhecem pelo rabo. Foi numa tardezinha de inverno em que a cidade mergulhada em aguaceiros que resolvi telefonar para um anúncio de uma casa de massagem solicitando a presença de uma dessas moças. E eis que em menos de uma hora surge a puta para qual tive também de pagar a corrida de táxi. Aos poucos,desses breves encontros em minha casa onde eu pagava para transar, fui me envolvendo nesse romance barato e noir. Diante dessa gente que trafega nesse corredor, avisto ao longe a puta a conversar com um sujeito que julgo ser seu próximo cliente. Tiro os olhos da cena, levanto-me do banco onde estou e sigo para casa feito um desvalido, puto da vida com esta nobre dama, de quem ainda posso dizer que em verdade eu a amo.

Miguel carneiro

quarta-feira, setembro 05, 2007

numa noite dessa, eu me abandono em um bar qualquer

Há muito tempo e numa constância diária um sentimento de desamparo vem tomando conta de mim e eu sempre penso:
Numa noite dessa eu abandono a mim mesmo em um bar qualquer.
Mas o negócio tava tão mal, que até mesmo a realização desse desejo começava a ficar difícil, já fazia três dias que eu não ia a nenhum bar, e além das dores por todo o corpo, e uma total falta de desejo, eu ainda me sentia completamente sufocado.E naquela noite eu não parava de vômitar. Mas os meus vômitos eram e são como trunfos, significam que eu ainda tenho algo pra jogar pra fora, pois além, nada mais me resta.
A única mulher pela qual, eu ainda tinha algum sentimento, saiu daqui, poucos minutos atrás, dizendo que eu era um cadáver em estado de putrefação, saiu dizendo que não voltaria mais e bateu a porta com tanta força que ela simplesmente não fecha mais, e eu então a escorei com uma cadeira velha e quebrada.
Mas por outro lado é um alivio deixar a Antonia zangada, já tinha tentado de tudo, para ela me abandonar, e nada, ela, simplesmente, resolveu que era a minha mulher pra sempre, e eu sabia que eu não era homem pra mulher nenhuma e Antonia era além de bonita, merecedora de algum cara em condições de fazê-la feliz.
Bebi o ultimo trago de álcool desdobrado por mim mesmo e me senti um herói de quadrinhos, eu era então o homem de ferro, poderoso, forte e rico e ninguém sabia a minha identidade.
A zoada no corredor era infernal e a porta não fechava direito. Eu morava em um cortiço, cada quarto custando para nós, dez reais por semana, e ali muita gente se juntava e dividia esses dez no meio. Dois travestis, meus vizinhos e que dividiam os dez reias por semana, nesse momento, exatamente às 18 horas e 15 minutos se esbofeteavam entre palavras educadas de travesti e acusações de atravessamentos:
O negocio deles era muito lucrativo, mas, sempre, um achava que o outro pegara o seu cliente.
E enquanto as moças trocavam tapinhas e acusações, a velha, moradora em frente do meu quarto, do lado esquerdo começava a jogar os seus dejetos sobre a porta dos travestis e gritar e gritar. A menina, que também morava em frente, do lado direito e que dizia ser maior de idade, mais todo mundo sabia que ela tinha no máximo 15 anos, naquele momento trabalhava um velho e dava seus berros fingindo um gozo para ganhar algum a mais, e eram exatamente 18 horas e 45 minutos quando o velho cliente da menina saiu sorridente e sendo o Batmam com sua capa protetora protegendo a sua identidade secreta.
Um pouco mais tarde, às 20horas e dez minutos, os travecos, que moravam em frente à minha porta, e que agora eram completamente amigáveis um com o outro e ambos agora para o outro, tinham os melhores sorrisos, brincavam um com o corpo do outro.
E a menina depois do banho, às 20 horas e 59 minutos, me visitou e me deu um litro cheio de conhaque e um prato de comida e me deixou observa-la completamente nua e saiu às 21 horas e 22 minutos afirmando que ainda dormiria comigo.
Ataquei o conhaque e joguei a comida para o lado, acendi um cigarro e pensei:
ela não terá tempo, primeiro só transo com mulheres com mais de 18 anos e eu tinha certeza que três anos era por certo muito tempo para mim.
Bebi, fumei, dormi e já à meia-noite recebi a visita dos travecos, eles sempre me traziam cigarros e conversas e bebidas e mais conversas. Fumamos, bebemos e duas horas mais tarde, eles foram embora e eu dormi de novo.
Agora em cima do meu feliz e renovado vomito.
A Antônia precisa ser feliz..

RONALDO BRAGA

entrevista: POETA MIGUEL CARNEIRO

O poeta Miguel carneiro foi entrevistado pelo tambem poeta Gustavo Felissímo e essa conversa você pode ler agora, ela foi originalmente publicada no jornal literário ABXZ Caminhos das letras. Da cidade de Itabuna- Ba.
Leia agora
Miguel Carneiro na peleja dos caminhos

abxz – Em fevereiro deste ano perdemos um amigo, os jovens (principalmente os alunos do CRIA) um mestre e a literatura um poeta singular. Como você via Zeca de Magalhães e de que forma o vê hoje?
Miguel Carneiro – Meu compadre Narciso era um ser antagônico, chegado a um embate e confrontações. Gostava de ser “gauche”, embora, de índole, fosse “carlista”. Jamais recuou ou abaixou as calças para as putinhas que hoje dominam na mídia a literatura que se pratica nessa província de todos os santos e inevitáveis demônios. Lembro, muito bem, de nosso primeiro encontro, nas tardes ensolaradas do verão de 1983, eu levado pelas mãos do poeta Ronaldo Braga, das terras de Cruz das Almas, porto de Luciano Fraga, Nélson de Magalhães Filho, poetas no sentido da palavra. Eu estava ensaiando “O Homem e o Cavalo”, uma peça de Oswald de Andrade, que é uma cópia barata de “Mistério Bufo” de Maiakovisk, e Narciso se engajou no projeto para fazer a personagem do poeta. Ensaiávamos no TCA. A peça não rolou, mas a amizade com Narciso se estabeleceu. Daí para cá, sempre estive ao seu lado, e ele ao meu. Por confiança, deu-me seu filho mais novo, Raoni Magalhães para que eu batizasse. Narciso é ave rara, de penugem nobre, de vôo belo... Os que foram para a cerimônia de cremação lá no Jardim da Saudade, muitos dali, enquanto Narciso viveu, sacanearam o tempo todo com o nosso bardo das Laranjeiras, limando, torcendo a cara, engavetando os seus projetos. Na Bahia, Narciso mostrou que a poesia “dèjà vu”, sem uma ênfase na quebra de paradigmas e no social, sem estar antenada com o mundo, bolora, cria mofo e se exaure. E Narciso tinha algo de diferencial em relação à fauna literária proviciana. Narciso tinha farinha no saco. E a coisa mais abominável para mim é lidar, no dia a dia, com poeta “ingnorante” e disso a Bahia está plena.
abxz – Você é chegado a embates e por isso tem alguns desafetos no meio literário...
Miguel Carneiro – O poeta paulista José Paulo Paes, em seu poema “Poética”, traduz a minha peleja nessa seara de homens sem ética, pois só sei viver sem estar atado a peias. Ele diz: “Não sei palavras dúbias. Meu sermão/ chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. / Com duas mãos fraternas, cumplicio / A ilha prometida à proa do navio. / A posse é-me aventura sem sentido. / Só compreendo o pão se dividido. / Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. / Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.”Sempre se soube que no meio literário baiano viceja a “mauvaise herbe”, que não inova nada, não contribuiu com algo novo, é o mesmo ramerrão de versos plagiados. Ser poeta todo mundo quer ser, mas poucos são. E contista é uma coisa meio difícil, você não pode enganar. Ou é ou não é. Na poesia, com a semana de 22, todo mundo virou poeta e a merda se alastrou. É tanta porcaria que se publica na Bahia que eu tenho é vergonha. Eno Teodoro Wanke, poeta paranaense, disse certa feita que “é fácil distinguir entre o verdadeiro e o falso poema. O falso permanece escrito ou impresso na página. O verdadeiro salta, palpitante de vida e de alma, e fica para sempre inscrito em nós, morando na gente, lembrado na memória, sentido no coração.”
abxz – Você já contou seus mortos?
Miguel Carneiro – Essa história é gozação do poeta baiano Henrique Wagner que num poema “Miguel Carneiro, Meio-Dia”, me homenageia. A verdade é que sou um homem marcado por tragédias que me deixaram para que eu andasse por essas avenidas dessa cidade que nomeiam de “Jesus”, com a cabeça baixa e ombros arqueados. Sou de peleja, de caminhos tiranos e sofrer não escolhe o lugar. Carrego, sim, almas de vaqueiros desconhecidos que com a espora e a chibata construíram cidades. O livro de Deus tem páginas infinitas e quando Ele, do alto, o abre, chama o seu escolhido. E como disse o encantado de Codisburgo; “Viver é um negócio perigoso”.
abxz - Como eles emergem em seu labor literário?
MC – Eu sempre vivi de lembranças. O poeta Antonio Carlos de Britto, Cacaso, disse num verso telegráfico: “Minha pátria é minha infância,/ por isso vivo no exílio”. Quem escreve não é o homem, caminhando para barbas grisalhas e cabelos brancos, estou com duzentos anos no lombo, mas minha criança que testemunhou tantos esquifes no passado os traz do limbo. Minha literatura é feita para dar voz à gente que eu vi e vejo, para a geração de minha filha Laura, àqueles que morreram em covas rasas, e que batem na minha porta em busca de um pão, que catam latinhas de cervejas para sobreviver, e que passaram e passam por essa vida sem deixar riquezas. Escrevo a história daqueles que tiveram caráter, bondade e lirismo.
abxz – Escrevemos cada vez mais para um público cada vez menos(1)?
MC – A questão aí não é culpa dos escritores, mas do poder público. Há uma taxa de analfabetismo alarmante em nosso Estado. Aliado a isso, os autores baianos sequer são indicados nas escolas, quer de segundo grau ou nas universidades. Nós fazemos nossa parte, escrevemos, testemunhamos o tempo que nos é permitido na face da terra. Cabe ao poder público incentivar, publicar, distribuir e fazer com que os autores baianos sejam conhecidos. Nas universidades, no campo das Letras, estudar um autor baiano torna-se heresia. Só se faz mestrado ou doutorado sobre morto. É uma burrice sem limites.

parte dois da entrevista do poeta Miguel Carneiro

abxz – Você não acha que ao publicar livros de pouco ou nenhum valor literário, conseqüentemente sem interesse maior algum, com o dinheiro público, o Estado, através do Selo Letras da Bahia, não está desvirtuando sua real função apenas para ficar na boa com um meio tão importante para a sociedade?
Miguel Carneiro - O problema da Coleção Selo Letras da Bahia é que, no governo Paulo Souto, havia gente como membro da comissão julgadora que não tinha nada a ver com a área literária. Eram estranhos no ninho. Tinha um que era filho de um influente jornalista baiano, já falecido, foi convidado para membro e ganhava o jeton. De literatura ele não entende nada. Outra coisa é que a comissão parecia um jogo de cumpadre. Só aprovava os livros se o sujeito fosse da curriola. Como eu briguei com um medíocre que fazia parte da comissão, resultado: dois livros que coloquei lá, foram rejeitados. Não havia um critério de qualidade, havia, sim, o jogo que é moda no meio literário baiano. Outra coisa é que se sua obra for menor, mas você ostenta um sobrenome de relevo, sua porcaria é aprovada em detrimento de inúmeras obras de autores baianos que lá voltam com aqueles pareceres vazios, sem nexo. Teve um amigo aqui na Bahia que aplicou um golpe nessa comissão do Selo Bahia. O poeta Zeca de Magalhães zanzava pela Academia de Letras e lá, através de Cunha, se aproximou do Prof. Waldir de Freitas Oliveira e disse ao mesmo que determinada obra que estava para ele analisar era de um poeta, parente de um famoso senador baiano do passado. A obra era de um iniciante, sem a menor qualidade. O professor, para homenagear a família do Senador, aprovou a porcaria do livrinho de poesia. Resultado, o cara tinha o sobrenome de um senador, mas jamais fora seu parente, pois tinha nascido num interior, numa cidadezinha perdida nos cafundós do Amazonas, nem ele sequer sabia da existência desse senador baiano. Zeca de Magalhães tinha essa faceta, de ser generoso, e entregar o próprio coração mesmo que a obra não prestasse. Agora eu só espero que no novo governo o critério e os membros sejam realmente imparciais e sérios. Obra de chapisco faz o leitor se afastar e pega mal para a Coleção, para o próprio Estado. Espero, e reitero novamente a minha preocupação, que esse governo atual não caia no mesmo rema-rema da gestão anterior. Nesse jogo escuso de protecionismo.
abxz – Houve um projeto de dissertação de mestrado sobre a sua obra, rejeitado pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), não foi?
MC – É, rolou essa história. Em outubro de 2003, a professora Edinage Silva, que é formada pelo próprio Departamento de Letras e Artes, apresentou um anteprojeto “O texto de Miguel Carneiro: um mediador entre o real e o imaginário”, mas foi rejeitado por parte da banca. Na UEFS, só se estuda Jorge Amado, José de Alencar, Machado de Assis, SÓ MORTO, é uma vergonha o que fazem com o dinheiro público.

parte 3(final) da entrevista do poeta Miguel Carneiro

abxz – No entanto, escritores de diferentes matizes, escolas e gerações, mas principalmente os jovens, têm dedicado poemas a você, além de mostrarem bastante respeito pela sua obra...
MC – Generosidade dos amigos, só isso. Não sou flor que se cheire. Talvez para me acalentar, não me deixar tão enraivado com essa gente lustrada, de verniz, feito a barata de Kafka.
abxz - Em que campo da literatura você se sente mais confortável?
MC – Literatura é o pão que o “dianho” um dia amassou com o pé. Nada em literatura é prazeroso quando se leva ela a sério. João Cabral, cego no fim da vida, num apartamento no Rio, entre tiroteios e balas perdidas, com uma nevralgia crônica, cunhou essa pérola, na década de 70, numa entrevista ao Suplemento Literário do Diário de Noticias,:”quando não posso me renovar, eu me calo”.
abxz – Então qual a função que a literatura exerce na sua vida, uma vez que a sua face moderna é mesmo angustiante?
MC- Só me sinto humano porque escrevo. Isso é uma constatação minha, não um julgamento. Só encontro a minha missão como parte do rebanho de Jesus Cristo quando o povo emerge em minha obra e sai do limbo para ganhar voz. Literatura é o que me faz viver. Não a faço por deleite ou almejar fama. Faço como compromisso social e vislumbrando um mundo mais fraterno, mais justo, mais farto, mais irmão. Sou um homem angustiado, pois meu irmão do lado ainda passa fome, num país continental, farto e cheio de riquezas naturais. Sinto-me constrangido quando minha obra não toca o coração do meu irmão, seja ele brasileiro, francês, alemão ou americano. Pois em todos esses idiomas tenho trabalhos publicados e traduzidos.
abxz – Como vê a critica literária hoje?
MC – Alguém já disse antes que: “todo crítico literário é um escritor frustrado”. E quando ele ou ela entra na trupe de perseguição, ou de silenciar pelo que o outro escreve, ou fica em cima do muro, ou em silêncio, é que no fundo gostaria de levar aquele poeta, ou aquele escritor para a cama. Porém, eu os vislumbro como peça da engrenagem do sistema neoliberal a que este, ou aquele sujeito ou ator social é serviçal. Mas nem sempre peneiram. Essa gente está viciada no jogo do “cumpadismo”, do toma lá da cá, permitem que isso cresça, invada e viceje no pasto medíocre da literatura baiana, porque é uma forma de controle e manipulação. Na essência, somos todos um covil de chacais, rindo da desgraça alheia, enchendo a cara de graça nos coquetéis que os chapas brancas promovem e a gente vai, depois da cabeça zonza, dormir com boca fedendo após comer a amante. Até agora nada mudou, continua o mesmo ramerrão no quartel de Abrantes.
abxz – E os jovens escritores baianos? Há nomes que merecem mais atenção?
MC - Há uma coisa perigosa que Ceça, (Maria da Conceição Paranhos), minha poeta maior, me disse em certa feita: “um fato é a vida literária o outro é a literatura em si”. Quem fica? Os jovens precisam tomar cuidado, pois essa coisa desenfreada, feito Roberto Carlos, o cantor, de lançar todo ano um disco é semelhante a essa gente que todo ano quer lançar um livro na praça. Não trazem nada de novo. Eu me sinto envergonhado quando chego na LDM ou na Berinjela, ou nas livrarias EDUFBA e folheio um novo livro dessa gente.Aí na terra de Jorge Araujo, Adylson Machado, Agenor Gasparetto, terra de Fernando Ramos, de Altamirando Camacam, de Adelmo Oliveira, Maria Eleonora Cajahyba, Geraldo Maia, há gente produzindo coisas legais que eu sei. Mas em linhas gerais eu posso citar na prosa: Alex Leila, Maria do Carmo Salomão João Filho, Pablo Reis; na poesia: Henrique Wagner, João de Moraes Filho, Ronaldo Braga, Aline Costa, Carine Araújo, Nélson Magalhães Filho, Luciano Fraga, Maria Isabel Sampaio Lima, você próprio, Gustavo Felicíssimo, Fabricia Miranda, Bernardo Linhares, Wladimir Saldanha, Mauro Mendes, Bel Mascelani, Raimundo Bernardes...
abxz – Eu gostaria que, para terminar, você falasse um pouco sobre a sua obra, o CD com poemas que está para ser lançado, bem como o novo livro de contos que deve sair em breve também...
MC – Eu vou transformar uma novela que fiz o ano passado em um romance. Isso em junho, quando voltar da Itália. Vou para Gênova, para o Festival Internacional da Poesia, pois ganhei no ano passado uma passagem de ida e volta para me apresentar nesse Festival com um poema chamado a Lenda Nagô dos Afoxés, que já foi publicado neste abxz.O cd são dez faixas com poemas que os amigos recitam e três poemas que viraram música através de meus parceiros João Bá, Amenom Mascelani, Tomé Barreto e que o público grapiúna poderá conhecer em breve.