quarta-feira, agosto 01, 2007

por acaso, o ocaso

A tarde que cai tem, assim, uma cor de incerteza. Uma chuva de dúvidas desaba e o coração da gente fica quietinho como se houvesse um espinho ou um caquinho de vidro moendo por dentro.
Dá vontade de ouvir canto de lavadeira voltando da bica. Trouxa alva na cabeça, no bolso um pedacinho de anil e na alma uma amendoeira frondosa que faz sombra sobre suas dores.
O menino sobe as escadas e acorda a mãe do devaneio num grito:
"- Mãe! Ô, mãe, vem ver Deus!"
"- Que Deus, menino?"
"- Deus, nosso Deus..."
Os olhos da mãe espreitam para ver melhor o sol a se deitar em róseos tons. O horizonte não tem mar. Ao longe um morro que não sabe o nome. Batiza de "Morro de Nosso Deus". E o morro, o sol, o horizonte, a cor do rosa que reveste o céu são inundados dos sonhos de mãe e filho. Na caatinga é assim. Cor-de-rosa é a cor do sol se pondo. Como se jatos de esperança varressem com anjos as dores que só se sabe de ouvir falar. A caatinga não sai no jornal da capital. A flor da caatinga não sai no jornal da capital. A dor da caatinga não sai no jornal. A fibra do povo da caatinga não sai em jornal. A caatinga não sai. E uma nuvem alva rasga o ocaso como se a miragem do menino desanuviasse a melancolia da mãe que cisma sobre sabedoria e imaginação, terreno fértil em terras de coração inocente. A mãe volta a seu novelo de poesia, querendo dar-se por conta do que perdeu. Entre cética e orgulhosa pensa na cria e julga ouvir aboios alados. Deus a livre de alma penada. O menino volta pra bola e pro jogo de botão. A meninada faz volta na sala, quase obediente. E a noite chega devorando as valas do abismo entre o que podia ter sido e o que será."
A noite galopa em açoites angustias e medos. A noite assombra o inaudito. Uma quase volúpia da madrugada, a noite palita os dentes. Exaustos do feito e do por fazer, mãe e filho adormecem... Dos sonhos, Deus, nosso Deus toma conta. E uma procissão de candeeiros invadem a lua.

Alyne Costa

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