segunda-feira, agosto 20, 2007

o sexo negado

O amontoado de dores espantava as moscas e seduzia os horrores numa fria madrugada de um inverno longo e cruel, eu, taciturno, observava o desfilar das horas e bebericava minha solidão em um copo sujo e amarelo e olhava aquelas mulheres e seus falsos sorrisos e pensava na minha vida covarde a ouvir súplicas e desejar olhares. A noite morria e ao longe uma luz prateada enfeitava a janela de uma eternidade sombria e irritante. Eu ali, sem nem mesmo saber o por quê e o pra que, era isso mesmo a minha vida? Só o tédio a acalentar esperanças em um vazio que insistente dinamitava a minha existência.
Ali, naquela casa, mais uma vez eu sentia o peso da inutilidade e eu podia ver, ouvir e sentir o ambiente torto, triste e covarde, e naquela noite, entediado, eu ouvia indiferente por toda a sala: suspiros, gritos, brigas e rápidas trepadas. Ali as pessoas queriam vencer o tédio, derrotar o medo.

Homens velhos e moços despejavam suas míseras existências naquela casa de tolerância, onde meninas brincavam de sexo e agarravam os jogos eletrônicos num desesperado ato de resignação e fuga, suas mentes entorpecidas faziam perguntas para sempre infantis. Eu apenas olhava e bebia e não me decidia por nenhuma delas, meu triste olhar percorria o salão em busca da vida nem que por um segundo, mas, nas mesas vizinhas, somente terríveis sorrisos sustentavam aquele comércio nauseabundo, e tudo era apenas trepar e pagar, sorrir e fingir, e era tanta carcaça perfumada, tantas vidas perdidas que eu, zangado, sabia da dor de estar ali e impotente escolhia a mais menina de todas e, em suas coxas, minhas sedentas carícias expunham as crueldades impostas numa latente e cadavérica trepada. Minutos depois nem moscas e nem sorrisos, mas uma dura derrota a soletrar amparos e chorar surras inesquecíveis e inimagináveis.

A noite morria na madrugada fria e os casais bebiam suas urinas e riam suas dores em medidas padronizadas e eram todos iguais em um tempo dinheiro e eu me sabia morto, me sabia entregue nos desprezos de um amor moralista.

Das ruas, apenas silêncio e medo e poucos transeuntes a olhar para todos os lados com seus passos apressados. Eu voltava o meu olhar vago das ruas até o salão e olhava aquelas meninas, ainda crianças, perdidas em brincadeiras insolentes e sem fim, meninas ainda a chorarem as ausências dos pais e ali naquele salão eu podia reexaminar a vida como uma punição e me senti como um cristão pronto para o meu abate, e nesse examinar a vida meu olhar chorava uma tristeza ontológica e intrincado observava os insetos e eles pareciam que se envergonhavam nas aborrecidas entre pernas sem abc. Eu sabia das histórias de violência, sabia das bonecas espancadas, sabia que as dores eram, no cotidiano das meninas, mais que um acontecimento e também sabia que os carinhos corriam das mãos pequeninas e choravam o esquecimento dos bebês, e eu, entediado e irritado, cantava a canção da morte nos abraços e beijos, numa tentativa senil de povoar ausências e vazios com ocos sorrisos e brigas de herói.

Um pálido sol ainda não preenchia as faltas e uma luz vermelha igualava as caras de sorrisos roubados, e o comum brilhava e sumia entre as folhas do passado, onde uma esperança mantinha as almas vibrantes nas dores que como remédios traduziam perdição nos beijos truncados dos pesados e sujos corpos, onde amores passados transitavam as alegrias compradas, e eram malditos os suspiros e falsas as promessas, sempre esquecidas e lembradas nas caçadas salvadoras de uma solidão medrosa.

Ao fundo do salão um olhar vigilante contabilizava as paixões em entradas e saídas, atentos às perdas e então eu sorria, estava ali um fluxo amoroso verdadeiro e borbulhava direto nos bolsos da cafetina.

Com o aproximar do dia, um desfilar de cortes inundava os olhares atarraxando os sabores e desabrochando do fundo de cada um os seus esquecidos abortos e toda uma gama de revolta e um sentimento que suas vidas não passava de pastos desérticos e lamurientos, impotência emanava por toda as caras e as almas tristes sorriam bílis e rins e praguejavam passados, pais, e mães e falavam mudas transformações de suas mortas existências catalogadas nas esperanças arrogantes. Ali naquele salão, todos nós estávamos presos em armadilhas e florestas de dores. E eu, cansado e derrotado, cantava a canção da morte em goles frios nos amontoados de ausências, e a noite era a salvação de mortos, e trepar as putas meninas era a saída dos caras sem caras.

A luz vermelha distorcia o chegar do dia, e nos olhos escuros brincava sofrimentos e desejava o nada, enquanto as moscas sorriam esquecimentos e roubavam copos e corpos numa longa e fria espera, as mesas vazias cantavam o amanhecer e as meninas cansadas dormiam sonhos e eu na rua encontrava luzes em uma Cachoeira fervilhante, com seu rio manso e morto e suas folhas espalhadas em um por vir agonizante, meu azedo sorriso apagava esperanças e a rua era um teatro vazio a insistir aromas, bichos, gentes e beijos sonolentos a disputarem um lugar lúgubre e sorrir ausências.
E naquele momento eu sabia que aquele mundo era tudo o que eu tinha.

O dia raiava nos passos medrosos dos pobres trabalhadores e sons e cores e dentes dançavam na solidão das mesas tristes e das paredes frias e seus sorrisos cautelosos brigavam canções sem poesia numa interminável fila de suicidas felizes com suas tristezas desencontradas e para sempre companheiras.

A felicidade sofria na luz do amanhecer e morria nas luzes mentirosas e cruéis dos braços suspirantes dos insetos.
E em todos os momentos eu sempre soube que aquele mundo era tudo o que eu tinha.

RONALDO BRAGA

4 comentários:

anjobaldio disse...

Muito bom. Belo e cruel.

lucianofraga disse...

Ronaldo,já estava em tempo o retorno do escritor e seus belos textos.Aguardo outros,é sempre um prazer saborear seus escritos.

Anônimo disse...

SURGE NO CENÁRIO MEDÍOCRE DA PROVÍNCIA DA BAHIA UMA REVISTA IMPRESSA, NOVA, FORA DOS MOLDES DA CURRIOLA E IGREJINHAS:
A QUEM INTERESSAR POSSA:
http://www.poesiaeafins.com

Obrigado Nélson,
por divulgar a verdadeira arte poética, não a do engôdo!
abraços,
Miguel Carneiro.

Anônimo disse...

Olá Ronaldo

"E em todos os momentos eu sempre soube que aquele mundo era tudo o que eu tinha." (?)

Aquele mundo era tudo que conhecia... Vc tinha mais e não sabia!!!

Nunca conhecemos o que temos de fato!

Beijão

Verônica