quarta-feira, agosto 01, 2007

flor de qualquer menina

Sou caatingueira
Cerejeira forte
Mulher sem norte
Flor e assombração
Abacateiro, oração e morte
Sou idioma da nova paixão
Sou como cacto, flor de Umburana
Sabor de cana
Água e aguardente
Amor sacana, escovando os dentes
Sou a semente da nova manhã
Sou rapadura, doce flor do engenho
Flor seresteira, na ronda da noite
Sou preto velho, escravo sob açoite
Sou verso antigo
Com sabor amigo
Sou sombra fresca onde reinam as manhãs
São tantas setas, tantas descobertas
Quase ninguém sabendo a direção
Abismo certo, porta entreaberta
Uma esperança pela contramão
Copo de Leite, flor de Pimenteira
O Urucum dourando a pele inteira
Sou plenamente
O sol que a pele sente
Fruta, sement, flor do amanhã
Amor que abala a alma da gente
Saudade quente, sabor de Romã
Gata arisca na beira da porta
Verdade em horta, bala de hortelã
Caboclo, flexa, rima e cansansão
Semiótica, Orixá, canção
Amor aberto, rede na varanda
Minas, Luanda, Quito e Japão
Aventureira, flor de Arueira
Doce em compota, ponte e ribanceira
A Gameleira, o peixe e o arpão
Amor contido em plena primavera
Amor doído em qualquer estação
Risos, peneiras, desenhados em painel
Porto no céu, medo de furacão
Flor do sereno, estrela da noite
Comboio, missa, padre e procissão
Avesso de um cordel que rabiscava a cor da dança
Velho, criança, Alecrim e mel
Sou mesmo eu
A fruta derradeira
A sementeira
Seu corpo e o meu
Sou alicerse de um novo tempo
O firmamento sobre o verso ateu
Nossa Senhora, Rosa de Hiroshima
A velha rima e um poema feneceu
Água da bica
Sou pá de pedreiro
A construir a ponte sobre o mal
Flor de inocência
Desafio e irreverência
Eu sou imã pra qualquer clemência
A noite cobre e o dia me acolhe
Lua descobre o manto do nobre
A armadura olvidando o não
Acácia terna, sou flor de Algodão
Sou tantas dúvidas
Sou a Padroeira
Fruta do mato
Flor de cachoeira
Um medo santo
Minha proteção
Sou coisa rara
Sou água de pote
Forró, sou xote
Cancã e animação
Um conta-gotas
Flor pra vida inteira
Chuva, poeira
Oásis e irrigação
Que coisa livre
Nadar na Ribeira
Olhar o sol
E ser ave matutina
Que abraça a flor, envolve a menina
E depõe segredos sob a nuvem cristalina.

Alyne Costa
Ssa, maio de 2007

Um comentário:

Anônimo disse...

A Bahia plena de ternura diz a Deus que comovida se acha, quando uma poeta linda como Alyne Costa derrama em mel os seus versos, tão singular, tão dela... Alyne Costa é para mim uma das grandes revelações poéticas que surgiu na Bahia, Caetité agradece, e Brumado também,
meu abraço amigo minha Poeta!
Miguel Carneiro