quinta-feira, agosto 30, 2007

AUSÊNCIAS

Ausências. Desde criança.
Ao olhar para qualquer lado,
tudo o que eu via e sentia? Ausências.
Como a voz de um sonho, eu sempre ouvia
alguém falar: - Catorze hora e quinze minutos.
Eu nem mesmo sabia o que era aquilo:
= Catorze horas e quinze minutos.
Eu não sei o que essa moça dizia.
Era como um sonho, era um
sonho mesmo e eu fiquei
sabendo e, eu fiquei
sabendo que se
podia
dizer:
- Catorze horas e quinze minutos.
Repeti isso muitas vezes.
Eu tenho certeza que repeti
- Catorze horas e quinze minutos,
por umas catorze horas e quinze minutos,
não sei porque. Só acertei parar de repetir quando
alguém gritou para outro que eu não conheço, nem alguém
e nem o outro. Mas gritou: Catorze horas e quinze minutos.Nessa hora
eu ouvi o grito. Olhei direto para o lado esquerdo. Uma mulher,
acredite, sem um olho e nenhum dente na boca me disse às gargalhadas
- Você tá fudi... Ela não disse a ultima silaba e eu fiquei feliz,
como se fosse a possibilidade de uma mundança em
meu destino. Essa mulher, ainda aos sorrisos
profundos, agora me pede um real,
e eu via de e na sua boca
sem dentes:
Sapos,
homens velhos em miniaturas
muito zangados, e que cantavam
"metamorfose ambulante' de Raul Seixas e
muito mais saía e entrava por sua boca:
grilos e formigas e baratas. Muitas
baratas saiam daquela imunda
boca. O meu mundo agora
é essa boca sem dentes.
Hoje aqui fixei
residência.
Nessa imunda e imensa boca eu moro:
Injúrias, blasfêmias, ofensas, palavrões. Esses
sãos os meus vizinhos constantes. A mulher sem um
olho e nenhum dente, traz na boca eu e mais outras criaturas.
Os dias aqui são normais como em qualquer boca sem
dentes. Quando eu não estou na boca sem dentes,
eu sou só ausencias,
ausências antes e
ausências depois de
ausências.
Aqui na boca a primeira tarefa é a procura dos dentes.
E eu sempre trago essas fantasias em minha mente.
E aí eu lembro o meu pai.

ronaldo braga

Um comentário:

anjobaldio disse...

Que inocência hein Ronaldo? Essa boca sem dentes mas repleta de sangue, essa esperança perdida entre balas e punhais banhados na ferrugem da dor. Grande abraço.