terça-feira, julho 17, 2007

tiro de misericórdia

Um sonho cálido
dependurado
num candelabro
avança prodigioso
contaminando
minha vida
adentro.
Bárbaros perfumes
grávidos de orvalho
anestesiam meu sonho
urbano
antes, por ser pedante
pelo odor que exala
após, repugnante
pelo ambiente
em que preparo
as balas
para a roleta
em que arrisco
na cabeça
um blues
tão tenso
quanto os punhos
de um caudilho
tão eterno
quanto o instante
de ferro
quando ponho as luvas
e aperto o gatilho...

Luciano Fraga

alforriado de mim

Passei minha vida
Aprendiz de Loja Maçônica
que sequer cheguei a freqüentar
esqueci de mim,
sem saber onde me encontrar.

Marcas de sofrimento pelo rosto
testemunhos das auroras que cruzei...
O cabelo prateado nas frontes
besteiras que eu próprio pratiquei...
Os pés embrutecidos de calos
caminhos que um dia alcancei...
A corcunda de que me apresento
porradas que da vida levei...
Pela retaguarda sempre fiquei
sem saber ao certo meu nome:
Basco, mouro,
cristão-novo, mulato
não questiono minha etnia,
sou como sou, de fato.
Fui apenas escravo de meu destino
que eu próprio tracei de compasso.
em Anoldo de Sacrifício me disfarço
para segurar com denodo
tudo aquilo que faço.

Não promovo querela de sapos
coaxando numa algazarra de amargura.
Vivo nessa eterna busca de ternura...

Meus inimigos a espreita
querendo sem custo a jugular
mas o carcás ainda trago a mão.
Sem jamais me importar
com tantos canalhas
e seus discursos de comiseração.

Miguel Carneiro

segunda-feira, julho 09, 2007

sobre o livro Borges e os Orangotangos

Escribe, y recordarás. Assim Vogelstein inicia o romance. Professor universitário e tradutor de inglês, Vogelstein, um jovem solitário cujas únicas companhias constantes são seus livros e seu gato Alef, é levado (força do destino?) a vivenciar um crime envolto por mistérios e teorias fantasiosas. As duas mortes que permeiam a história se mostram, através do discurso do narrador, como fios condutores, elementos que permitem o desenrolar do enredo. Nada mais apropriado, para a cena de um crime, do que um seminário internacional sobre Edgar Allan Poe, precursor do romance policial. Mais apropriado ainda, que o seminário acontecesse em Buenos Aires, abrigo de Jorge Luis Borges, escritor latino-americano de literatura fantástica. A fim de reconstruir a memória do episódio, e assim poder compartilhá-la com Borges, interlocutor direto de Vogelstein no enredo, este escreve a história, que começa como uma pretensa carta e que resulta num romance inacabado. Escrever é justamente a possibilidade de reviver o acontecimento. Mas o curioso é que o narrador, no ápice da história, no momento em que o mistério está para ser desvendado, sai de cena e cede seu lugar a outro personagem que, através do recurso da carta, elabora uma teoria que, de certa forma, deixa em aberto o desfecho da história. É no limite entre fantasia, ficção e real que Veríssimo escreve Borges e os Orangotangos Eternos.

Ruth Trindade Braga Santana

* Trecho de um ensaio escrito por Ruth Trindade sobre o livro Borges e os Orangotangos Eternos de Luís Fernando Verissimo
O LIVRO

Eu hoje queria escrever sobre um livro que eu não li e tenho certeza absoluta que ele nem mesmo chegou a ser publicado. E isso me inquieta, não o fato de eu não ter lido e sim de ele não ter sido publicado, por que, por que ele não foi publicado? Será que ele não foi nem sequer escrito? Ou se algum autor maluco o escreveu ele não foi aceito pelo mercado literário? O mercado determina a minha não-leitura desse livro ainda não publicado e provavelmente ainda não escrito.
Mas esse livro vem me fazendo pensar, primeiro na principal característica desse livro que é ser um não-livro e existir na sua não-existência, segundo o fato desse livro tratar de assuntos importantes para a minha vida e ainda o fato de ser de autoria, pelo menos para mim, desconhecida.
E assim hoje, eu resolvi que esse livro será amplamente discutido e para mim pouco importa o fato que ninguém leu ou mesmo viu o tal não-livro, mas eu já sei com certeza que ele não foi publicado.
Aí será o começo. Por que ele não foi publicado?

ronaldo braga

a todos os autores ainda inéditos, principalmente devido a escolha do mercado literário, que ninguém viu, ninguém conhece mais sabe demais o que ele quer:
vender verdades prontas.
Na primeira noite eles se aproximam
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Poesia de Maiakovski