quinta-feira, junho 14, 2007

VERÃO DE 1966

VERÃO DE 1966


1966 era o ano dos meninos em Cruz das Almas, dos domingos sol ouro a invadir pulmões e desejos clareando sentidos e risos em babas corridos à povoar os tempos e nos intervalos a imaginação sexo a exigir punhetas. Nestor cansado cantava aos deuses e Agripino contava as novidades de meninas em nuas palavras.
Todos sorriam diabólicas transas imaginadas e em 1966 éramos belos e desejados em nossos sete anos de uma vida sonhadora de jardins eternos e flores galantes, tudo era permitido e até estimulado, catecismos circulavam e meninas jogavam saias aos ventos e era delícia olhar o tempo. Frestas e muros baixos e moças nuas embalavam nossas tardes de verão. Mas Julieta, a menina dos olhos azuis, e do sexo faminto, era a temeridade do grupo, com a realidade exposta e nua que nos amedrontava e pedia distâncias. Queríamos sonhos, e a menina a exigir corpos e um saber tudo, isso irritava nossos suspiros perfeitos, e postulavam segredos loquazes a fragmentar certezas e denunciar crianças. Corríamos e então de longe olhávamos a menina a cantar prazeres em homens barbudos no canavial. E de longe sorríamos felicidades e podíamos sonhar desejos e segredos de futuros. E a menina soltava uivos de dor e prazer e nos fazia tremer até os pés. E à tardinha dourada iluminava seios ausentes em uma menina precoce, bela e bruxa. A tarde ganhava cores da noite e pouco a pouco só nós e a menina nua a chorar alegrias e dormir cansada na noite de estrelas e pássaros verdes, e nós assustados e felizes olhávamos aquele corpo feminino e nos imaginávamos dentro dele e éramos reis numa terra distante e sabíamos a hora de casa e o caminho de volta era lamentações e silêncios.

Na casa da menina gritos e correria, a menina sumira. Nestor medroso e apressado contava tudo.

O erotismo da menina era visível a todos os cruéis sorrisos, e imanentes maldades desenhavam agruras florais, e odiavam a menina que sorria sempre, e de suas pernas, tremores acalentavam esperanças, enquanto nas camas, meninos imaginavam bundas, e lá fora a chuva amainava impulsos e a menina, com seus olhos azuis, era metodicamente cuidada. A mãe em infinitesimais passos implorava aos céus e permitia o exame em um desesperado alento: imergir devaneios e salvá-la do fogo carnal precoce. A menina sem entender, ouvia canções de dor e de limpeza.
Tudo nela era difração e sexo em seu olhar azul. O médico sorria desejos e anunciava receitas e recomendações.
Vizinhos em todas as frestas disputavam fofocas e falavam verdades, na rua, um corre-corre de sentenças, zumbiam rancores: a menina era o diabo de saia nas bocas de sapos.
A noite inelutável resguardava segredos de lençóis, e em tristes namoros, moças garantiam normalidades decoradas, em um repetir de tolas negativas constitutivas de vazios, e em tédios insistentes o povo festejava o corpo da menina em estranhos desejos perdidos em suspiros, que agigantavam pensamentos eróticos e irritavam seios e mãos numa cidade de cores mortas.

A covardia ensaiava a não-vida e saltava horrores nas mentes obscenas, e a menina, calada e distante, da janela, a olhar vazio um mundo abandonado de seus olhos, que outrora azuis, agora opacos fitavam o nada, enquanto excrementos escorriam de sua boca aberta, e puniam desejos infantis, numa tristeza que engendrava vidas e obliterava canções.
A menina era a noite perdida.
E as rezas agradeciam o calmo sorriso doente.

Ronaldo Braga

8 comentários:

Anônimo disse...

E o que a menina dizia dizer e dizia sobre?

Beeeeeeeeeeeeeeeeeijos

Verônica

PS.: O que dizia dizer e dizia cada diz o seu e o mais acertado enredo não é o meu nem o seu!!!


hahahahaha - só uma brincadeira!!!

Miguel disse...

Des baisers farouches ressassent des moments martelés dans des

|regards sourds,

Et des cortèges immémoriaux réitèrent des désirs, avant si secrets,

|si inconnus.

Et un venir têtu nous appelle. Vers où ?

Des monstres farouches persistent dans la chair tremblotante,

Et d'arrogantes algues bouclent des sourires dans des baisers

|dolents.

Toi passé passé dans des secrets absents funestes et secrets,

Et toi présent dans des dispositifs légaux.

Et les peurs occultes affleurent les inflexions aigües dans

|d' immanentes rémanences automnales,

Et toi futur dont le sourire sont les rejets d'une fuite fatale

|des fleurs,

Avec ses nuits irréfragables, et ses sueurs noyant des peaux et

|agitant des rêves,

Et réveillant mes cauchemars aux eaux fatiguées,

Criant et criant la présence de l'absence des noyés.

Et toi - toi là tel un néant - tout matériel et scission de mondes.

Scission de chairs et de dents jadis sourires et libres.

Maintenant temps Farouche tempo caution de tout.

Et cruel, dans les nuages lourds de mes nuits souvenirs,

Dans une intense et dissimulée diminution asymptotique du

|vivre condamnable,

Et le sourire condamnable et être condamnable.

Ballet dans une danse des morts.

Réalité imposée aux cœurs auparavant diffractés dans des baisers

|indiscrets.

Et toi qui fragmente des calmes à jamais oubliés

Et toi absent dans des interrogations périlleuses,

Invoquant des amours interdites passées - présentes et perdues

|dans les sentiments frivoles,

Tandis que des vides incessants et des culpabilités produisent

|des entailles dans les intrépides horreurs matrimoniales.

Et dans les nuits préconçues,

De subtiles perversions se délectent

Et peuplent les peurs et traduisent de malheureuses certitudes

|de transgressions.

Et la stratégie est une fuite dans l'homogénéité formelle d'une vie.

Principe et instance :

Des lunes ;

Et des pluies ;

Et des rêves ;

Et des baisers cherchés dans le désespoir des rencontres

|par inadvertance et non censurables.

Toi eau, qui dilue le temps et chante des géraniums dans des

|rayons chaulés.

Toi musique qui rythme un monde de couleurs brutales

|dans des précipices oscillants.

Toi ponts de générations muettes.

Toi, rien que toi.





ronaldo braga

inédit

traduit du portugais (Brésil)

par pedro vianna

© Ronaldo Braga

et Pedro Vianna pour la traduction en français



si vous souhaitez mieux connaître le travail de l'auteur
vous pouvez visiter son blog
http://www.ronaldobragas.blogspot.com/

Miguel disse...

Esquivos beijos reincidem momentos martelados em olhares surdos,

E cortejos imemoriais insistem desejos, antes tão secretos,

|tão desconhecidos.

E um vir teimoso nos chama. Pra onde?

Esquivos monstros persistem na carne tremula,

E arrogantes algas trancam sorrisos em beijos sofridos.

Você passado em ausentes segredos funestos e secretos,

E você presente em dispositivos legais.

E medos ocultos afloram inflexões agudas em imanentes

|remanências outonais,

E você futuro sorrindo rejeições de uma fatal fuga das flores,

Com suas noites irrefragáveis, e seus suores afogando peles e

|agitando sonhos,

E acordando meus pesadelos de águas cansadas,

Gritando e gritando saudades de afogados.

E você - você ali como um nada - tudo material e cisão de mundos.

Cisão de carne e dentes dantes sorrisos e livres.

Agora Esquivo tempo caução de tudo.

E cruel, nas nuvens pesadas de minhas noites lembranças,

Numa intensa dissimulada diminuição assintótica do

|condenável viver,

E sorrir condenável e ser condenável.

Bailado numa dança de mortos.

Realidade imposta nos corações outrora difratados em

|indiscretos beijos.

E você fragmentando calmas para sempre esquecidas

E você ausente em perigosas interrogações,

Jurando interditos amores passados - presentes e perdidos nos

|sentidos frívolos,

Enquanto incessantes vazios e culpabilidades produzem cortes nos

|destemidos horrores matrimoniais.

E nas noites preconcebidas,

Deleitam sutis perversões

E povoam medos e traduzem certezas infelizes de transgressões.

E estratégia é fuga na homogeneidade formal de uma vida.

Princípio e instancia:

Das luas;

E chuvas;

E sonhos;

E beijos buscados nos desesperos dos encontros inadvertidos e

|não censuráveis.

Você água, diluindo tempos e cantando gerânios em raios caiados.

Você musica ritmando um mundo de cores brutais em oscilantes

|precipícios.

Você pontes de caladas gerações.

Você, apenas, você.





ronaldo braga

inédit

© Ronaldo Braga



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luciano fraga disse...

Ronaldo,este seu texto é realmente um tiro de misericórdia à queima roupa na cara da moral. Você mandou para mim, inédito e sairá com toda plenitude e satisfação no versoseperversos...E o poema acima é simplesmente maravilha para corações e mentes, sãs e psicodélicas.

Anônimo disse...

E o que a menina dizia dizer e dizia sobre?

Beeeeeeeeeeeeeeeeeijos

Verônica

PS.: O que dizia dizer e dizia sobre cada um diz o seu e o mais acertado enredo não é o meu nem o seu!!!


hahahahaha - só uma brincadeira!!!

PS.: Apaga o outro! hehe

Neuzamaria Kerner disse...

Olá,
Quando entramos num espaço onde imperam o verbo e o não-verbo, parece que entramos no céu. Sim, o céu existe mesmo... existe fragmentadamente para ficar aqui e acolá... existe para que possamos entrar no refúgio da palavra, da imagem para que fiquemos protegidos do desamor que quer fincar pé no nosso peito.
Gostei do que vi, do que li, do que senti no seu blog.
Abraços

Anônimo disse...

é um texto revelador da maldade dos bons, ou melhor dos tidos por bons, os piores seres humanos se revestem de uma capa de bom ser humano

Anônimo disse...

toda vez que eu volto a esse blog sou surpreendido com um texto profundo e sempre desmascarador da hiprocrisia humana