segunda-feira, abril 09, 2007

O D U E L O

A sexta feira acordou pesada na cidade das sombras, as pessoas temerosas olhavam para todos os lados. Uma chuva intensa ameaçava desabar e os comerciantes apreensivos abriam suas casas sem esperanças. Os estudantes, nervosos com a chegada do fim de ano, corriam em direção ao colégio. Braga, um vaqueiro da Escola de agronomia, desceu do seu cavalo na porta da venda de seu Julinho, com seu costumeiro sorriso e, mesmo sendo sete horas de uma manhã escura, pediu uma cerveja e começou a tomá-la bem devagar.
- Qual o problema Braga?
- Seu Julinho, tome parte de sua vida! - respondeu educadamente Braga
- É, hoje você tá naqueles dias. - seu Julinho, depois do duro olhar de Braga, achou melhor lavar os copos acumulados do dia anterior e, pelo canto do olho, observou o vaqueiro e soube que algo estava pra acontecer.
- Olá seu Julinho!
- Olá Antonio! O que faz aqui tão cedo?
- Logo, logo o senhor irá saber. Me dê um copo e uma cerveja, por favor.
- O que? Você também? - e seu Julinho começou a entender, aqueles dois tinham se jurado de morte e eles não eram homens de brincadeiras. Eram homens raros, de fibra e com certeza alguma coisa iria acontecer. Seu Julinho olhou o céu, que com imensas nuvens a qualquer momento despejaria água à vontade, e notou que até mesmo o céu anunciava a tragédia.
Braga bebia e observava Antonio que em uma posição estratégica bebia e observava Braga: os dois sorriam um para o outro e bebiam com uma delicadeza tamanha que seus movimentos pareciam em câmara lenta.
- Vamos jogar sinuca? - Antonio convidou Braga.
- Claro, o dia está apenas começando.
- E o trabalho Braga? – Seu Julinho, tentando encontrar uma saída e recebendo um olhar diabólico do vaqueiro, calou e prometeu a si mesmo não se meter mais.
- Você primeiro. – Braga era todo amabilidades.
- Vamos apostar a conta e quando chegar a hora quem tiver perdendo paga.
- Exatamente, e será você a pagar essa conta! – os dois sorriam e falavam de forma calculada, como se não pretendessem ofender um ao outro.
O dia caminhava tenso e estudantes saiam das aulas da manhã e comentavam fracassos e sorriam vitórias. Braga e Antonio jogavam, bebiam e comiam tira gosto; o jogo estava empatado e os dois sorriam e nem ligavam para estudantes que pediam um tempo para jogarem. A partida continuava empate numa tarde lilás e os últimos estudantes do vespertino iam para suas casas apressados e a noite chegava mansamente ainda em pleno dia. Alguns estudantes noturnos já chegavam, quando Braga olhando sem sorrir para Antonio sugeriu:
- Acho que essa é a hora, dezoitos horas e dez minutos, mas você tem que estar de acordo.
- Estou completamente de acordo. O jogo foi empate, vamos dividir a conta.
Seu Julinho fez as contas e recebeu de cada um e tentou dizer alguma coisa, mas a mão de Antonio delicadamente colocada em sua boca o calou.
- Não diga nada seu Julinho - e foi para rua onde Braga, do outro lado rindo, o esperava.
Eram dezoito horas e trinta minutos de uma sexta feira tensa e Braga falou educadamente:
- Você hoje vai dar o maior prazer de minha vida, irei contar aos meus netos que você era um homem que eu respeitava muito.
- Acredito o mesmo e nem sei se terei netos, mas a cidade vai saber que você era um homem de palavra e dos bons. Como você só poucos.
- Não há mais espaços para falar.
- É, não há mais palavras.
Um estava fixo no outro e cada um, com um sorriso calmo, deu dois passos em direção ao outro e ficaram dois metros de distância, sorrindo. Estudantes, meninas, velhos e outras pessoas que passavam, correram amedrontadas em busca de abrigos que os permitissem assistir o que estava por acontecer, e alguns outros em uma tentativa desesperada buscavam parentes dos valentes homens, sonhando um desfecho diferente. Antonio puxou o revólver e disparou dois tiros no peito de Braga.
- Agora vou assistir a sua morte. – Braga passou a mão esquerda na boca e em um movimento rápido com a direita, puxou a peixeira e enfiou com vigor duas vezes no peito de Antonio, e então falou:
- Eu que vou esperar você morrer.
- Não.- disse Antonio - Você vai morrer primeiro- os dois ainda sorriam
- Eu só vou morrer depois de você. Morra você primeiro Antonio!
- Morra Braga, esse prazer eu vou ter. – Braga cai e dá o último suspiro.
- Ele era o maior amigo que eu tive, e o mais valente homem dessa cidade, e eu o matei. Agora posso morrer - com um leve sorriso, Antonio tomba ao lado do Braga e sua cabeça pende sobre o peito do amigo.


ronaldo braga

3 comentários:

VALTINHO disse...

EU ASSISTIR A ESSE DUELO FOI NA RUA DA ESTAÇÃO EM FRENTE AO BAR DE SEU jORGE, EXATAMENTE NO BAR DE SEU ANTÃO QUE NO CONTO RECEBE O NOME DE SEU JULIO, SEU ANTÃO ERA TUBERCULOSO E ERA UMA BOA PESSOA.SE NÃO ME ENGANO UM ESTUDANTE LEVOU UM TIRO NA PERNA.

luciano fraga disse...

Ronaldo,você registrou um episódio marcante em C.das Almas.Realmente um amigo nosso levou um tiro(bala perdida),na perna quando passava próximo ao local.O nome dele é Evangivaldo(LÉ),morava na baixinha da Vitória.

Braga e Poesia disse...

luciano o lé era o meu vizinho eu não sei porque não registrei no conto esse fato pois foi exatamente o lé que me contou a história, o braga era primo de minha mãe e eu preferi trocar o nome de seu antão e tambem não sei a razão, todos os nomes foram trocados só deixei o do braga por causa do parentesco comigo.