segunda-feira, abril 09, 2007

E X P O S I Ç Ã O

EXPOSIÇÃO

Já é bem tarde e como sempre, inicio os meus devaneios. Momentos mágicos onde a imaginação pode fluir sem regras, sem limitações, sem um roteiro pré-definido.

Começo a montar os quadros da exposição, as suas imagens vêm e voltam e eu procuro manter a estrutura que pensei em minha mente... pensei em construir inicialmente por ordem cronológica, mas não ficaria bom... não seria honesto... nossas idas e vindas não obedeceram à lógica do tempo... percebo que você se achegou e partiu todas as vezes que lhe dei este espaço...

Não tenho idéia de quando você entrou na minha vida, aquela entrada triunfal de conquista em tempos de guerra... de posse... é claro que me lembro quando te conheci, lembro do que falamos, do seu sorriso e do seu descaso... acho mesmo que fotografei estes momentos na minha mente, na tentativa de eternizá-los...

Neste instante eu te escolhi, mas não sei se você já havia percebido esta escolha ...

Considero que você entrou na minha vida no momento em que a energia do encontro superou a soma dos nossos pensamentos... é coisa de luz e sombra, de silêncio e som, da ocupação plena de um lugar único e definido para você, definido para a sua ocupação,... projetado de maneira fiel, de acordo com a forma que eu te via naquele tempo...

Era então um lugar onde você pudesse crescer, dentro da sua capacidade, suprindo a minha necessidade de lhe abrigar... necessidade de ter você por perto, de saber que você leria os meus pensamentos e saberia processá-los com maestria, com calma e de forma serena... no rítmo da sua tolerância...

Não fugindo do criador e da criatura, você tomou forma muito rapidamente, você crescia e eu chorava... por não te acompanhar, por não te controlar, por pressentir que este crescimento o afastaria definitivamente de mim...

Você fugia, e eu chorava... chorava silenciosamente para não atrapalhar o seu crescimento, para não criar uma barreira invisível entre nós... para te ter sempre por perto....

Você sumia e eu chorava... chorava ruidosamente como uma mãe que não se preparou para a ausência das suas crias... mas eu insistia no seu desamor... já era uma obsessão, eu necessitava da manutenção deste sentimento... eu já acreditava que era o passaporte para a libertação...

Você chorava e eu sorria, no contratempo das emoções... você bebia e eu tinha sede, mas estávamos juntos e isto era o bastante para alimentar a minha insanidade declarada...

Você partia e eu ficava, não mais chorava, me fortalecia para não esperar o seu retorno... você retornava e minha alma voava, para bem longe da sua inevitável presença...

Eu partia e não mais voltava, era a libertação consolidada a custo de ouro, a peso da mais alta violência emocional que se pode pagar ... era a sua ausência petrificada em minha frente, a sua ausência ocupando o devido espaço físico que lhe cabia ... era o você que você merecia, que você construiu ... que você destruiu, que você abandonou à própria sorte....

Eu insisto em demonstrar que a minha lógica é descabida, que a razão não prevaleceu, que a somatória final não valeu o esforço das parcelas acumuladas, mas a matemática não se trai e o resultado é totalmente explícito.

Acredito que agora você possa perceber o quanto está difícil montar esta exposição com os quadros que você me solicitou na última quarta-feira... podemos adiar mais uns dias? Podemos adiar mais uns meses? Podemos adiar para toda a vida?

Sei que você percebe o quanto me desinteresso pelo tema, será que podíamos re-programar nossa exposição?

Maria Branco

28/03/2007

Um comentário:

ronaldo braga disse...

Maria uma exposição quando sincera é sempre dificil ser montada e por outro lado quando montada será impossivel o seu desmonte, uma vez que ela traduz não somente sentimentos mas antes ela penetra no passado e clarifica gestos, olhares, sorrisos e purifica atos.