segunda-feira, abril 02, 2007

ABSTINÊNCIA

Eu agora, com um copo de vinho na mão, caminhava livre e tentava refazer em minha mente os acontecimentos dos últimos três dias.
E era difícil.
Eu me lembrava perfeitamente que eu estava dentro de um casarão imenso, numa imensa sala, e que o piso era branco e brilhava ofuscando os meus olhos, portas para todos os lados, e além de mim nada, nem móveis e nem uma pessoa. Eu e a sala vazia. Tentei gritar e nada, eu não ouvia o som de minha voz.
Cansado de tanto gritar, andei de um lado para outro e falei baixinho e como num passe de mágica a sala ficou cheia de gente.
Operários e suas fardas e ferramentas.
Vigilantes e suas caras de vigilantes.
Funcionários administrativos e médicos e muita gente que se vestia de forma importante e mesas e cadeiras e atendentes com suas folhas de papel e canetas.
Um funcionário olhou sorridente para mim e então uma voz vindo de todo lado roucamente disse.
- O senhor R entrou. Agora, sair? Bem, talvez. Primeiro o senhor R terá que visitar todos os quatrocentos e quinze quartos, e depois veremos se o senhor R sai ou não sai.
Eu tentei gritar e de novo minha voz não existia.
O funcionário sorridente e amável falou.
- Baixinho senhor R.
- Baixinho? Como? - Eu disse bem baixinho.
O funcionário ainda sorridente-
- O senhor precisa se acalmar, comece a visitar os quartos e com um pouco de sorte o senhor pode receber alta. Confiança, senhor R, confiança.
- Alta? -
Pensei em quebrar aquela cara sorridente, mas olhando para os lados percebi que o melhor era manter aquele rosto sorridente sorrindo para mim. Todas as outras pessoas me censuravam com o olhar e eram olhares cruéis, canibais. Sorri de volta e empurrei a primeira porta e então tremi.
Quatro mulheres, ou o que parecia ser quatro mulheres, devoravam com ternura e em câmara lenta um senhor que aparentava mais de 80 anos e enquanto comiam os pedaços do velho, sorriam.
Voltei para a porta e já não havia porta. Melhor, havia agora uma outra porta; corri para ela e encontrei um imenso corredor cheio de portas por todos os lados. Uma tinha o numero dois, fui direto para ela, e quando abri a numero dois, nada encontrei além de neblinas.
Eu não conseguia saber se era um quarto, um corredor, ou uma sala, onde eu me encontrava. Neblinas e neblinas, nada mais que neblina existia por ali e era tudo o que eu via, mais uma vez olhei a porta, e ela continuava lá, olhei para o lado esquerdo e notei outra porta, fui direto até a porta e abri e em minha frente, vindo do nada, um imenso jardim cheio de homens estranhos e com roupas por demais esquisitas, eles surravam umas flores também estranhas para mim, e o pior, elas riam e pediam mais. Um pouco à frente do jardim, carros em altas velocidades sumiam e reapareciam, dando voltas em uma pista inexistente, como se estivessem indo pra lugar nenhum. Suspirei e tentei encontrar em minha mente uma referência para aquele local-
- Será que eu estava livre?
Já começava a desistir de entender o que acabara de acontecer quando milhares de pessoas com todo tipo de anomalia tomaram a minha frente e os meus lados e sussurraram:
- Senhor R, senhor R –
E continuaram falando o meu nome como se acariciassem o meu corpo.
Eram figuras totalmente depravadas:
Leprosos, cegos, esqueletos, pessoas sem cabeça, sem perna, sem pernas, sem um olho e sem os dois.
Eu recuava e eles avançavam, e a cada momento eles ficavam mais rápidos, como se não tivessem anomalia nenhuma, e foram me empurrando, empurrando até um outro quarto e eu só percebi quando já estava dentro do mesmo. Olhei em volta e de repente eles sumiram, o quarto era completamente branco: teto, parede, piso, porta, tudo branco neve. Não havia nada no quarto além dos óculos escuros, no canto esquerdo; peguei-o e coloquei em cima dos meus olhos e duas belas mulheres sorriram para mim.
- Pode tirar os óculos - disse a moça mais próxima de mim, então tirei.
- O senhor R é muito bonito - disse a segunda, que estava mais ao fundo do quarto, e o seu olho esquerdo caiu. Senti que ia desmaiar, e as duas mulheres agora eram quatro e envelheciam e rejuvenesciam em uma velocidade atordoante, até que uma bem jovem me olhou e disse –
- Faça a nossa nosografia - e cada vez mais baixo repetia:
- Nosografia, nosografia. Não desmaiei e então, certo que o fim estava próximo, caminhei duramente para a porta enquanto as quatro repetiam:
- Nosografia –
Abri a porta e encontrei o funcionário. Eu disse –
- Quero ir embora.
- Ir embora? Mas por quê?
- Porque se não eu vou enlouquecer.
O funcionário, como se nem tivesse me ouvido, perguntou –
- Tá com fome?
- Sim, estou.
- Vem, vamos almoçar, o senhor R tem dois dias que não come nada, e o senhor deve estar bem alimentado, pois o seu dia é amanhã.
- Amanhã? - Perguntei assustado.
- Sim. O senhor já visitou todos os quartos.
- Como? Todos os quartos? Eu só entrei em dois e em um jardim.
- O senhor me chamou de mentiroso?
- Não, não, tudo bem. Nesse momento surgiu em minha frente um imenso portão e pessoas entravam e saiam em um ritmo frenético, eu olhei para ele e ele sorridente falou.
- Ali é a saída e a entrada, agora é o turno da entrada, mas alguns podem sair para cumprirem missões externas - E eu via belas mulheres, rapazes vigorosos e vencedores, operários e todo tipo de graduação de funcionário, então perguntei –
- O que é isso aqui?
- Melhor não saber. Ganha mais pontos –
- Isso é uma fabrica de ilusões terríveis - Afirmei e ele me olhou profundamente e então eu estava com um prato de comida na mão e quando comecei a comer joguei longe o primeiro bocado, mas a fome aumentou e aumentou. Comi aquela maldita comida, ele sorria e também comia, vários comiam, ou melhor, todos comiam. Ao término do meu almoço, coloquei o prato em um balcão e o sorridente funcionário me perguntou -
- Gostou?
- Gostei.
- O senhor acabou de comer carne de leproso do milênio passado, guardado com sangue de rato e bosta de velha - Eu tentei vomitar. Mais nada consegui além de cuspir um dente fora.
O funcionário sorridente disse –
- O processo está começando - eu me desesperei.
- Que processo? – e todos sorriam e eu percebia que podia ser o meu fim o tal processo e então comecei a gritar –
- Eu quero sair. Sair, sair. Sair - Ele suavemente me pegou pela mão abriu o portão e falou com uma voz macia –
- Vai, ingrato, fora! – rapidamente ele se transformou e completamente transtornado dizia -
- Fora. Fora agora - ele gritava e sua cara parecia de um macaco zangado.
- Fora. Fora - eu corri muito, e depois de muito correr parei e verifiquei que eu estava a três ou quatro metros distantes da casa, e que ela era linda e de arquitetura barroca.
Eu precisava de um trago. Parar de beber, estava me enlouquecendo.

Ronaldo Braga

4 comentários:

red boy disse...

aqui no corta-jaca se eu parar de beber eu vou ver é muita gente feia, cuidado com a abstinencia

Chico "Red Boy" Vermelho disse...

Esse Red Boy é do Paraguai.

Reinaldo Sousa disse...

Muito a sua cara este texto Sr. Ronaldo Braga. rsrs... Até mais...

Alyne Costa disse...

Incendiário como Hesse em O lobo da Estepe!