segunda-feira, abril 30, 2007

EU HOJE ACORDEI E...

Eu hoje acordei
com o mundo em meus olhos,
e você me dizia
madrugadas verdes em palavras espanholas,
Violeta Parras
sorria musicas em meus lábios
e sem você
tristezas
cantavam flores em uma canção de ninar.

O mar
insistia porradas em minhas pedras
e acordar era morrer em meias luas.

E você tão longe ainda
sorria em poemas,
e
recorrentes palavras
cansavam meu jardim.

ronaldo braga


Hoy desperté
con un mundo en mis ojos
y tu susurrabas
madrugadas verdes en español,
Violeta Parras
sonreía música en mis labios
y sin ella
tristezas
cantaban flores en una canción de cuna.

El mar
insistía oleadas en mis piedras
y despertar era morir en medias lunas.

Y tu tan lejos aún
sonreías en poemas,
y
recurrentes palabras
hastiaban mi jardín.

Poema de RONALDO BRAGA
Tradução do português para o espanhol de GRACIELA MALAGRIDA
Graciela Malagrida
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=2353
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terça-feira, abril 24, 2007

VITAL

Necessariamente
devo voar
para fecundar todas as flores
hoje me esperam famintos
os jardins infinitos
e o planeta

Necessariamente
vou me despedir
ainda que sangre
como a um dente de leite
tudo o que quero

Preciso
mais espaços
em cada coração
por isso estou
buscando nadas
em terras perfumadas
por isso vou
deixando pistas

Preciso
uma essência inascível
um extranho perfume
doce, como um beijo de Deus
Não te apegues
eu irei soltar-me

Necessariamente
me espreguiço
em um exercito de formigas
para fazer tremer a terra.
Estendo os braços
e me abandono segura.
Meu coração estar em você
porque este amor
não tem igual

Preciso
tomar-lhe o pulso agora
e respirar
a pureza do milagre
o vigor do filho e do poema
que acabam de nascer

Necessariamente
te pertubo
para evitar
o momento difuso
pois nada é, nem se ver
exceto
a generosidade da luz
quero dizer
sou tão frágil
como uma sombra

Preciso voar
dia e noite
em todo momento e lugar
sem esquecer
os tempos das transformações.
Não te apegues
em minha fragilidade.

Graciela Malagrida

http://uni-versovirtual.blogspot.com/
http://www.poetasdelmundo.com/

tradução do Espanhol para o português de ronaldo braga

VITAL

Necesariamente
debo volar
para polinizar todas las flores
hoy me esperan hambrientos
los jardines circulares
y el planeta

Necesariamenteme
voy a desprender
aunque sangre
como el diente de leche
de la encía
y de todo lo que quiero

Necesito
más espacio
en cada corazón
por eso estoy
buscando pizcas
en zonas perfumadas
por eso voy
dejando pistas

Necesito
una esencia inasible
de entrañable almizcle
dulce, como un beso de Dios
No te aferres
me vas a desgarrar

Necesariamente
me desperezo
entre un ejército de hormigas
para hacer temblar la tierra.
Extiendo los brazos
y me abandono confiada.
Mi corazón está a sus anchas
porque este amor
no tiene igual

Necesito
tomarle el pulso al minuto
y respirar
la pureza del milagro
el aliento del hijo y del poema
que acaban de nacer

Necesariamente
te sacudo
para evitar
el momento claroscuro
pues nada es ni se ve
excepto
por la generosidad
de la luz
quiero decir
que soy tan endeble
como una sombra

Necesito
volar
día y noche
en todo momento y lugar
sin olvidar
los tiempos de crisálida
No te aferres
a mi fragilIdad

GRACIELA MALAGRIDA
(poetisa Argentina)

uni-verso virtual el 4/21/2007 07:00:00 PM
O blog Bragas e Poesia tem a felicidade de comunicar o nascimento do blog versoseperversos do poeta Luciano Fraga, sei que não será mais um, mas antes um abrigo da boa literatura e de informações importantes para o mundo das artes. Cruz das Almas, terra de puxa- sacos, onde isolados, alguns artistas buscam a todo custo e contra tudo e quase todos, manter uma cidade viva, e para conhecer essa cidade das sombras é preciso ir até às suas entranhas, sair da mediocre beleza da praça e então conhecer os anjos baldios e ter o privilégioa de ler poetas como:
Luciano Fraga
Nelson Magalhães Filho(tambem ator, diretor de teatro e cinema e premiado artista plástico)
Patricia Mendes
Giordano
ZInaldo Vellame
Luciano Passos (falecido)
lita Passos.
Obrigado Luciano Fraga, por mais esse espaço que único marcará por certo um novo tempo na literatura e purificar o mediocre ar de cruz das almas.
O blog: http://www.versoseperversos.blogspot.com/
esse é o endereço. venha aumentar seu 'HABITUS'.
ronaldo braga

BABA DE CHUVA

Naquela tarde de março, o tempo instável previa chuvas fortes e o baba ameaçava não começar e Tapia xingava todos os sorridentes diabos e gritava a chegada das águas; os pássaros observavam a rigidez profunda de Tapia e melancólicos sabiam a satisfação de serem pássaros. Só após alguns gritos, o baba enfim começou e os chutes animados arrancavam suspiros de todas as gramas ausentes e a chuva, melodia dos pernas de pau e desespero dos goleiros, açoitava os anjos para todos os infernos, enquanto Beto Biriba perdia mais uma jogada e insistia na marcação. No fundo do gol, Zé de Dona Zefa batia a sua punheta de toda tarde e sombrio chorava espermas para mais uma culpa agonizante e surras nos moleques das flores.
A chuva insistia e era um desafio a mais para os jogadores viajantes de mundos e desconhecedores das certezas de pais e mestres. Nanau, adversário de Tapia, perdia mais um gol e o baba chegava ao seu clímax e algumas brigas beijavam faces rosadas e sadias e os gols eram sucessivamente alegrias e tristezas.
E a chuva continuava a martelar os cansados sorrisos e as conversas e discussões e em um grito desesperado Tapia dava por encerrado a peleja e era o fim, para todos nós, de uma jornada e a felicidade agora descansava nos pés sujos e poéticos dos meninos comedores de sonhos e perdidos nos caminhos de dores futuras.
O baba dos adultos começava e éramos platéia de nossos ídolos e Nanau sabia que ali era a guerra das guerras que estava sendo travada e que o dia escuro reservava o inferno dos anjos, e na mente de Nanau, menino triste e vizinho de fantasmas, o baba agora era uma infelicidade por vir, em um vir a ser anunciando nos ódios dos jogadores, e de suas raivas lacinantes, pois na solidão doentia dos adultos a chuva interligava os homens e cansava a poesia dos zoófitos atentos.
Dia escuro, em tempestade de ausências, chuva, chuva torrencial atormentando os dias obscureciam as almas envelhecidas aos doze anos e fazia a garotada sorrir tristezas agudas e cantar o canto do saber. Nanau acreditava estar no seu melhor dia: o dia chuvoso que desmascarava o dia radiante falso e brilhante dos olhares irritados e esquecidos nas dores covardes das manhãs que nada traduziam e era apenas o funeral das esperanças. Nanau olhava o céu e feliz sentia o vigor da tempestade; ao seu lado, Benel de Merú arriscava um placar e ensaiava uma briga com Nê de Cozim, o clima estava ficando bom. E o aguaceiro insistente intermediava ódios e fabricava encontros nas surdas tentativas de diálogos. Nanau, persistente em sua solidão, respondia passados a todas as indagações e observava o baba e para ele os outros eram caveiras esotéricas que pululavam nas águas passantes e então ele se sabia louco e podia sorrir por entre faces e saber o passado de todas as esperanças e esperar a chuva e o baba como uma ilusão necessária para os insistentes mortos falarem da vida.
A agua cantava sua canção de desprezo e todos corriam pra suas casas e fechavam na cara das poças uma porta de ferro e de indiferença. As surras e brigas agora eram a realidade dos meninos sem sonhos; eles, brancos e pretos, perderam as multicores nas ameaças dos pais e de irmãos maiores.
O choro do céu tornava a baixinha da vitória uma rua de anjos baldios e uma realidade mística encantava toda nudez azul e fazia a infância cantar e chorar e soletrar palavras mágicas que dançavam na rua com meninos de outros mundos que jogavam bola em noites magoadas e embriagadas.
A trovoada parava pensamentos e travava amores e ameaçava tremores. Os adultos espancavam a poesia e rezavam agruras e sofrimentos e de suas horrendas bocas medonhos culpados desfilavam a morte em pedaços agonizantes.
E o mundo de Nanau era um mundo particular e invadido por todos esses seres mágicos e aterrorizantes, e só a noite trazia a calma sombria de uma felicidade única e de um pós - construir certezas na calmaria das correntezas nos lagos futuros.

ronaldo braga
(conto oferecido ao poeta Luciano Fraga, companheiro de varios babas na infância)

quinta-feira, abril 19, 2007

FORA DE FOCO

E se eu te parecer estranha
Não se irrite
Se aparecer tristonha...
Só assiste
E se faltar paciência
Dê limite
Se franzir a testa
Um palpite
Posso estar fora de foco
Posso ter perdido a rota
Pode ter mudado a lua
Pode ter chamado a rua
E se eu esquecer a chave
Pouse a carícia
Se eu sequer acordar
Pura delícia
E se der de dar a louca
Busque malícia
E se de vez sumir
Chama a polícia
Posso estar à beira mar
Posso estar num cativeiro
Ou num banho de chuveiro
Procura pelo céu inteiro.

Brumado, 13 de abril 2007-

ALYNE COSTA

terça-feira, abril 17, 2007

PORTA RETRATO

Meu pai foi soldado da Cavalaria
e herdamos de suas bravatas
apenas aquela fotografia fardado,
de quepe, coturno e sabre,
num porta-retrato
que minha irmã Angélica
conserva com grande alegria.
Meu tio Lazinho quis ser profeta
e pelo mundo vagou
de Bìblia na mão.
No seu sermão
misturou tarot
e a sua própria dispersão.
Morreu em busca de um porto,
pobre e esquecido,
num rancho em Riachão.
Minha avó Judite louca,
então,
blasfemava, blasfemava,
chamando o Cão.
Me tornei poeta
por força da ocasião,
faço versos, não minto,
fico feito uma bestade dedo em riste,
no meio de tanta esculhambação.

MIGUEL CARNEIRO
Que acaba de lançar na Bienal do Livro um novo trabalho de Poesia, um livro junto com um CD, breve esse CD vai estar postado aqui para os leitores do blog possam desfrutar da maravilha desse novo trabalho de Miguel.

segunda-feira, abril 16, 2007

HÁ OUTRO EU

(GRACIELA MALAGRIDA, POSADA, MISIONES, ARGENTINA,
http://uni-versovirtual.blogspot.com/ )




Há outro eu,
e que se ver
interpondo
entre o sol e eu
uma lamina qualquer
que percorre
as veias minhas.

As correntes minuciosas da energia
que de perto segue
a conexão intima
da lamina com a folha
da folha com a arvore
e da arvore
com a arvore no bosque de mim, tão vazio.

Agua, saber, sol
caminho e vida.

Nada dói tanto
quando se tenta
por inteira
atravessar a luz....

Há outro eu
que é ao mesmo tempo
Teseo e Minotauro,
ambos seguem
o fio de Ariadna
ambos a abraçam
na saida,
ambos chegam a reis
neste mundo,
enquanto ela
pessoa dividida,
como uma aranha
tece pura brisa
e poderosos sinais resplandecentes.

Nada incomoda,
nada mortifica,
nada acusa,
mais que eu.

Poesia de GRACIELA MALAGRIDA
Tradução de ronaldo braga

O BEIJO NOS REDIME

Pintura do artista plástico Nelson Magalhães Filho
Da série MULHERES - 2004 mista s/ papel, 70x50 cm



Quero ir ao encontro
e com muito vinho
esperar-te à beira de um lago.

Porque sei, nessa viagem alucinada
estarei perto do céu.

Quero estar nua na ilha do meu espelho
nesse instante
quando teus olhos percorram meu corpo.

Há uma ameaça no enigma
que liquida aquela morte insondavel.

O eco é um canto de erotismo.

O beijo se transforma em aleluia.

( para Gustavo Klimt)

Poesia de MARIA CRISTINA PIZARRO
Tradução ronaldo braga

sábado, abril 14, 2007

EM MEU CORAÇÃO

Em meu coração
sangue,
em meu coração
luas bebadas tropeçam
e cactos loucos em fugas
cantam jardins distantes.


Em meu coração,
a flor
chora em pedaços
e lagrimas pretas
desfloram virgens.

Em meu coração teima
a escuridão
dos olhos teus
e
o amor arde
em eternas labaredas.

ronaldo braga

Em Meu Coração já foi publicado neste blog eu o estou re-publicando, por que ele foi traduzido por Pedro Vianna e publicado no site francês:
http://poesiepourtous.free.fr
e
Clique em POEMES DU MOIS
Daqui quero registrar o meu agradecimento ao Pedro Vianna que vai traduzir outros poemas meus.
E agora tambem traduzido para o Espanhol pela poeta Argentina Graciela Malagrida e publicado em:
http://uni-versovirtual.blogspot.com/
é só clicar em GRACIELA MALAGRIDA.

sexta-feira, abril 13, 2007

A NOSSA PRIMEIRA VEZ

(óleo, "pareja en azul " ANGELO GALVEZ)



Venço a barreira
e o medo
e me deixo
na luz dos olhos teus,
belas perolas pardas
a me olhar,
o mesmo desejo
dos olhos meus.
Suas mãos,
ligeiras mariposas,
me desfolham
plena de temores,
e me entrego sem vergonha
enquanto beijas meus lábios,
e meu corpo se deixa
e é musica,
tua mão e minha pele.
Te perdi na planicie de meu peito
e
te descobri feliz
em minha entranhas.
E te deixo ser eu
e me transformo
e inventos instantes para mim.
Voamos juntos
rumo ao firmamento
que tua saliva
e
meu suor
desenham em
mim.
E me deixo ir
e te levo longe
e ainda te amo
e o teu ser
e o meu corpo
unindo-se
em um universo inteiro,
em nosso pequeno leito.
CAROLINA GONZÁLEZ VELÁSQUES
Poeta de Iquique - Chile, é amante do sol, do mar e do deserto, é tambem apaixonada pela literatura e "FOLKLORE", ama a justiça e busca a verdade.
Tradução - Odlanor A. A.

quinta-feira, abril 12, 2007

PIERA PALLAVICINI

Piera Pallavicini, www.pierapallavicini.cl poeta chilena autora do poema "EM MINHA CABEÇA", publicado neste blog, gosta de tocar violão e cantar musicas brasileiras, estará sempre sendo publicada no BRAGAS e POESIA. Simplesmente uma gata.

POETAS DEL MUNDO

VISITE O SITE : http://www.poetasdelmundo.com
Poetas Del Mundo realiza este terceiro encontro de poesia internacional, mantendo a poesia na linha de frente e acabando com esta história que a poesia tá pra morrer, a poesia estará sempre viva enquanto houver o que chamamos de 'HUMANO'.

DIA DA POESIA

Indefinida a poesia, que pode ser amiga da profunda serenidade da alma como da sublime superficie poetica dos passaros, com uma generosidade que escapa ao humano. Companheira da palavra AMOR, a poesia, é como o ar, como a luz e como a sombra, razão pela qual a UNESCO, considerando que o mundo tem necessidades estéticas e que essas necessidades são essenciais, e que a poesia está capacitada para trabalhar essas necessidades, lhe assegurou um dia: O dia da poesia. Então, abrindo iquais possibilidades para todos os humanos de confrontar-se e reconhecer-se e de encontrar e ou reencontrar-se com giagantes pensadores literatos, que conseguem sintetizar o coração da vida em versos, o dia 21 de março, foi escolhido para semelhantes encontros, ainda que desde o principio se saiba que, sendo imanente, a poesia, tem pra si todo dia e toda noite como seu dia, e mais ainda, porque a musicalidade de seus infinitos habitús, vieram de entre as visceras, que se transformam em ajuda quando menos se espera.
A poesia uma necessidade que alguns não conhecem, mas que como o ar que não se define mas se respira, te deseja e se deseja.
A poesia pois, é o mesmo definitivo bom dia sempre, sempre.


MABEL BELLANTE

http://ebelina.blogspot.com
Uma bela Poeta da Argentina
que tambem faz parte do BRAGAS E POESIA

EM MINHA CABEÇA

Te escrevo para informar-te
que basta
o que me tens enfraquecido.

Não te extranhe pois
quando a policia avançar a tua porta
e te prender
com tuas gravatas
destemidas.
E digam
que te prendem
" POR INVASÃO DE PROPRIEDAE PRIVADA"
Não te extranhe,
te digo,
que me tens dado tempo demais
que tens meus segredos invadidos e
nem tanta sair.
Te escrevo para informar-te
que basta
o que me tens enfraquecido,
cometeste o pior delito:
Viver em minha cabeça
é um
Pecado.

autora- PIERA PALLAVICINI
poeta Chilena, que adora tocar guitarra e cantar musicas brasileiras
e que uma vez por semana terá um poema seu publicado neste blog.
TRADUÇAO - ronaldo braga

MARIA CRISTINA PIZARRO

Esta beleza de mulher é a poeta Maria Cristina Pizarro, da Argentina e que estará sempre no bragas e poesia tanto com suas fotos, como com seus poemas, esta foto inaugura a participação de Maria neste blog, em breve aqui, poemas seus tanto traduzidos como no original.
Seja bem vinda MARIA CRISTINA PIZARRO ( CRIS ) .
(ronaldo braga)

terça-feira, abril 10, 2007

SEGREDOS DE MINHA ALMA

Porque viver assim?
Ás pressas,
Sem sentir o mistério e sua musica alquimista?
Porque não penetrar os labirintos?
Onde o Minotauro perdeu a vida,
E construir céus, interpretar pedras,
Atravessar portas de outras dimensões e expandir-se
na paz do sagrado.
Porque? pergunto,
não aprimorar a leveza do tempo
ser diamante, pulsar em outros ritmos.
Porque viver assim às pressas?
sem coroar manhãs eternamente
com aroma de frutas,
retendo o orvalho no rosto?
Porque não embriagar-se de magia?
E na presença única do silêncio
ser Don Quixote e perpassar moinhos de ventos.
Porque não admirar o pôr do sol
com a luminosidade da consciência?
E ocupar o universo
por inteiro.

CRISTINA DEL VALLE

segunda-feira, abril 09, 2007

O D U E L O

A sexta feira acordou pesada na cidade das sombras, as pessoas temerosas olhavam para todos os lados. Uma chuva intensa ameaçava desabar e os comerciantes apreensivos abriam suas casas sem esperanças. Os estudantes, nervosos com a chegada do fim de ano, corriam em direção ao colégio. Braga, um vaqueiro da Escola de agronomia, desceu do seu cavalo na porta da venda de seu Julinho, com seu costumeiro sorriso e, mesmo sendo sete horas de uma manhã escura, pediu uma cerveja e começou a tomá-la bem devagar.
- Qual o problema Braga?
- Seu Julinho, tome parte de sua vida! - respondeu educadamente Braga
- É, hoje você tá naqueles dias. - seu Julinho, depois do duro olhar de Braga, achou melhor lavar os copos acumulados do dia anterior e, pelo canto do olho, observou o vaqueiro e soube que algo estava pra acontecer.
- Olá seu Julinho!
- Olá Antonio! O que faz aqui tão cedo?
- Logo, logo o senhor irá saber. Me dê um copo e uma cerveja, por favor.
- O que? Você também? - e seu Julinho começou a entender, aqueles dois tinham se jurado de morte e eles não eram homens de brincadeiras. Eram homens raros, de fibra e com certeza alguma coisa iria acontecer. Seu Julinho olhou o céu, que com imensas nuvens a qualquer momento despejaria água à vontade, e notou que até mesmo o céu anunciava a tragédia.
Braga bebia e observava Antonio que em uma posição estratégica bebia e observava Braga: os dois sorriam um para o outro e bebiam com uma delicadeza tamanha que seus movimentos pareciam em câmara lenta.
- Vamos jogar sinuca? - Antonio convidou Braga.
- Claro, o dia está apenas começando.
- E o trabalho Braga? – Seu Julinho, tentando encontrar uma saída e recebendo um olhar diabólico do vaqueiro, calou e prometeu a si mesmo não se meter mais.
- Você primeiro. – Braga era todo amabilidades.
- Vamos apostar a conta e quando chegar a hora quem tiver perdendo paga.
- Exatamente, e será você a pagar essa conta! – os dois sorriam e falavam de forma calculada, como se não pretendessem ofender um ao outro.
O dia caminhava tenso e estudantes saiam das aulas da manhã e comentavam fracassos e sorriam vitórias. Braga e Antonio jogavam, bebiam e comiam tira gosto; o jogo estava empatado e os dois sorriam e nem ligavam para estudantes que pediam um tempo para jogarem. A partida continuava empate numa tarde lilás e os últimos estudantes do vespertino iam para suas casas apressados e a noite chegava mansamente ainda em pleno dia. Alguns estudantes noturnos já chegavam, quando Braga olhando sem sorrir para Antonio sugeriu:
- Acho que essa é a hora, dezoitos horas e dez minutos, mas você tem que estar de acordo.
- Estou completamente de acordo. O jogo foi empate, vamos dividir a conta.
Seu Julinho fez as contas e recebeu de cada um e tentou dizer alguma coisa, mas a mão de Antonio delicadamente colocada em sua boca o calou.
- Não diga nada seu Julinho - e foi para rua onde Braga, do outro lado rindo, o esperava.
Eram dezoito horas e trinta minutos de uma sexta feira tensa e Braga falou educadamente:
- Você hoje vai dar o maior prazer de minha vida, irei contar aos meus netos que você era um homem que eu respeitava muito.
- Acredito o mesmo e nem sei se terei netos, mas a cidade vai saber que você era um homem de palavra e dos bons. Como você só poucos.
- Não há mais espaços para falar.
- É, não há mais palavras.
Um estava fixo no outro e cada um, com um sorriso calmo, deu dois passos em direção ao outro e ficaram dois metros de distância, sorrindo. Estudantes, meninas, velhos e outras pessoas que passavam, correram amedrontadas em busca de abrigos que os permitissem assistir o que estava por acontecer, e alguns outros em uma tentativa desesperada buscavam parentes dos valentes homens, sonhando um desfecho diferente. Antonio puxou o revólver e disparou dois tiros no peito de Braga.
- Agora vou assistir a sua morte. – Braga passou a mão esquerda na boca e em um movimento rápido com a direita, puxou a peixeira e enfiou com vigor duas vezes no peito de Antonio, e então falou:
- Eu que vou esperar você morrer.
- Não.- disse Antonio - Você vai morrer primeiro- os dois ainda sorriam
- Eu só vou morrer depois de você. Morra você primeiro Antonio!
- Morra Braga, esse prazer eu vou ter. – Braga cai e dá o último suspiro.
- Ele era o maior amigo que eu tive, e o mais valente homem dessa cidade, e eu o matei. Agora posso morrer - com um leve sorriso, Antonio tomba ao lado do Braga e sua cabeça pende sobre o peito do amigo.


ronaldo braga

E X P O S I Ç Ã O

EXPOSIÇÃO

Já é bem tarde e como sempre, inicio os meus devaneios. Momentos mágicos onde a imaginação pode fluir sem regras, sem limitações, sem um roteiro pré-definido.

Começo a montar os quadros da exposição, as suas imagens vêm e voltam e eu procuro manter a estrutura que pensei em minha mente... pensei em construir inicialmente por ordem cronológica, mas não ficaria bom... não seria honesto... nossas idas e vindas não obedeceram à lógica do tempo... percebo que você se achegou e partiu todas as vezes que lhe dei este espaço...

Não tenho idéia de quando você entrou na minha vida, aquela entrada triunfal de conquista em tempos de guerra... de posse... é claro que me lembro quando te conheci, lembro do que falamos, do seu sorriso e do seu descaso... acho mesmo que fotografei estes momentos na minha mente, na tentativa de eternizá-los...

Neste instante eu te escolhi, mas não sei se você já havia percebido esta escolha ...

Considero que você entrou na minha vida no momento em que a energia do encontro superou a soma dos nossos pensamentos... é coisa de luz e sombra, de silêncio e som, da ocupação plena de um lugar único e definido para você, definido para a sua ocupação,... projetado de maneira fiel, de acordo com a forma que eu te via naquele tempo...

Era então um lugar onde você pudesse crescer, dentro da sua capacidade, suprindo a minha necessidade de lhe abrigar... necessidade de ter você por perto, de saber que você leria os meus pensamentos e saberia processá-los com maestria, com calma e de forma serena... no rítmo da sua tolerância...

Não fugindo do criador e da criatura, você tomou forma muito rapidamente, você crescia e eu chorava... por não te acompanhar, por não te controlar, por pressentir que este crescimento o afastaria definitivamente de mim...

Você fugia, e eu chorava... chorava silenciosamente para não atrapalhar o seu crescimento, para não criar uma barreira invisível entre nós... para te ter sempre por perto....

Você sumia e eu chorava... chorava ruidosamente como uma mãe que não se preparou para a ausência das suas crias... mas eu insistia no seu desamor... já era uma obsessão, eu necessitava da manutenção deste sentimento... eu já acreditava que era o passaporte para a libertação...

Você chorava e eu sorria, no contratempo das emoções... você bebia e eu tinha sede, mas estávamos juntos e isto era o bastante para alimentar a minha insanidade declarada...

Você partia e eu ficava, não mais chorava, me fortalecia para não esperar o seu retorno... você retornava e minha alma voava, para bem longe da sua inevitável presença...

Eu partia e não mais voltava, era a libertação consolidada a custo de ouro, a peso da mais alta violência emocional que se pode pagar ... era a sua ausência petrificada em minha frente, a sua ausência ocupando o devido espaço físico que lhe cabia ... era o você que você merecia, que você construiu ... que você destruiu, que você abandonou à própria sorte....

Eu insisto em demonstrar que a minha lógica é descabida, que a razão não prevaleceu, que a somatória final não valeu o esforço das parcelas acumuladas, mas a matemática não se trai e o resultado é totalmente explícito.

Acredito que agora você possa perceber o quanto está difícil montar esta exposição com os quadros que você me solicitou na última quarta-feira... podemos adiar mais uns dias? Podemos adiar mais uns meses? Podemos adiar para toda a vida?

Sei que você percebe o quanto me desinteresso pelo tema, será que podíamos re-programar nossa exposição?

Maria Branco

28/03/2007

O CACHO PERDIDO DE TEU CORPO

VARIAÇÃO SOBRE UM TEMA DE PABLO NERUDA:
SONETO XCIII – UMA PARÁFRASE MINHA.
à minha sempre, Lucifrance Castro,
por não ter outra razão para amá-la senão amá-la.
Así establecidas mis razones de amor te entrego esta centuria:
sonetos de madera que sólo se levantaron porque tú les diste vida.
PABLO NERUDA

(Tema)

Si alguna vez tu pecho se detiene, si algo deja de andar ardiendo por tus venas, si tu voz en tu boca se va sin ser palabra, si tus manos se olvidan de volar y se duermen,
Matilde, amor, deja tus labios entreabiertos porque ese último beso debe durar conmigo, debe quedar inmóvil para siempre en tu boca para que así también me acompañe en mi muerte.
Me moriré besando tu loca boca fría, abrazando el racimo perdido de tu cuerpo, y buscando la luz de tus ojos cerrados.
Y así cuando la tierra reciba nuestro abrazo iremos confundidos en una sola muerte a vivir para siempre la eternidad de un beso.


(Sonetos gêmeos – variação em tom memor)

Se alguma vez teu peito se detém,
se algo deixa de arder em tuas veias, se a tua voz se esvai sem ser palavra, se tuas mãos, no delírio, adormecem, Amor, deixa teus lábios entreabertos,
porque este beijo durará comigo... ficará para sempre em tua boca,
e me acompanhará também na morte.

Morrerei nesta louca boca fria,
abraçado à lembrança de teu corpo,
buscando a luz de teus serenos olhos.

Assim, receba a terra o nosso abraço,
e, confundidos numa mesma morte,
viver, num beijo, a Eternidade, mas...

(Em tom maior)

...antes que esse torpor de nós se encante
busquemos, Minha Amada, a cor ausente
de nossa vida em chamas, a roubar da dor
seu território... quantas coisas puras

se farão tão longínquas e sombrias, qual teus olhos fechados a esta luz
a eles consagrada, Alma Minha,
beija-me, antes que te desabitemos

a humana parte desta terra fria,
para sermos um só entre os silêncios
do barro, dos insetos... das raízes.

Permita-me dizer-te: “Eu te amo”,
para que a treva que roubou teu sonho
não arranque de mim a tua essência.

Candeias, 18 de março de 2007.

SILVÉRIO DUQUE

terça-feira, abril 03, 2007

OLHOS DE M A R I P O S A

“...o homem que nunca muda de opinião é como a água parada, & cria répteis na mente.” W. Blake


Fico assim lambendo,
remendando
as seqüelas,os buracos
na procissão dos fracassos
que deploro em mim...
Não refletem no espelho
em nenhum aparelho
ou qualquer coisa afim
que repare
o mau hálito da prudência
na fraqueza que emula
pensamentos que aleijam
idéias que apedrejam
os racistas que bajulam...
Dores não confortam
mortes que abarrotam
o sexo que não cabe
na loucura que invade
o tempo que atormenta
a avareza que atenta
o medo que simulo
o amor que não esmurro
no grito que não dou...
Este animal absorto
que adestro com mazelas
na balbúrdia do albergue
deveria está morto
reconheço abismado
que sou eu;
vivo...

Autor: LUCIANO FRAGA

segunda-feira, abril 02, 2007

ABSTINÊNCIA

Eu agora, com um copo de vinho na mão, caminhava livre e tentava refazer em minha mente os acontecimentos dos últimos três dias.
E era difícil.
Eu me lembrava perfeitamente que eu estava dentro de um casarão imenso, numa imensa sala, e que o piso era branco e brilhava ofuscando os meus olhos, portas para todos os lados, e além de mim nada, nem móveis e nem uma pessoa. Eu e a sala vazia. Tentei gritar e nada, eu não ouvia o som de minha voz.
Cansado de tanto gritar, andei de um lado para outro e falei baixinho e como num passe de mágica a sala ficou cheia de gente.
Operários e suas fardas e ferramentas.
Vigilantes e suas caras de vigilantes.
Funcionários administrativos e médicos e muita gente que se vestia de forma importante e mesas e cadeiras e atendentes com suas folhas de papel e canetas.
Um funcionário olhou sorridente para mim e então uma voz vindo de todo lado roucamente disse.
- O senhor R entrou. Agora, sair? Bem, talvez. Primeiro o senhor R terá que visitar todos os quatrocentos e quinze quartos, e depois veremos se o senhor R sai ou não sai.
Eu tentei gritar e de novo minha voz não existia.
O funcionário sorridente e amável falou.
- Baixinho senhor R.
- Baixinho? Como? - Eu disse bem baixinho.
O funcionário ainda sorridente-
- O senhor precisa se acalmar, comece a visitar os quartos e com um pouco de sorte o senhor pode receber alta. Confiança, senhor R, confiança.
- Alta? -
Pensei em quebrar aquela cara sorridente, mas olhando para os lados percebi que o melhor era manter aquele rosto sorridente sorrindo para mim. Todas as outras pessoas me censuravam com o olhar e eram olhares cruéis, canibais. Sorri de volta e empurrei a primeira porta e então tremi.
Quatro mulheres, ou o que parecia ser quatro mulheres, devoravam com ternura e em câmara lenta um senhor que aparentava mais de 80 anos e enquanto comiam os pedaços do velho, sorriam.
Voltei para a porta e já não havia porta. Melhor, havia agora uma outra porta; corri para ela e encontrei um imenso corredor cheio de portas por todos os lados. Uma tinha o numero dois, fui direto para ela, e quando abri a numero dois, nada encontrei além de neblinas.
Eu não conseguia saber se era um quarto, um corredor, ou uma sala, onde eu me encontrava. Neblinas e neblinas, nada mais que neblina existia por ali e era tudo o que eu via, mais uma vez olhei a porta, e ela continuava lá, olhei para o lado esquerdo e notei outra porta, fui direto até a porta e abri e em minha frente, vindo do nada, um imenso jardim cheio de homens estranhos e com roupas por demais esquisitas, eles surravam umas flores também estranhas para mim, e o pior, elas riam e pediam mais. Um pouco à frente do jardim, carros em altas velocidades sumiam e reapareciam, dando voltas em uma pista inexistente, como se estivessem indo pra lugar nenhum. Suspirei e tentei encontrar em minha mente uma referência para aquele local-
- Será que eu estava livre?
Já começava a desistir de entender o que acabara de acontecer quando milhares de pessoas com todo tipo de anomalia tomaram a minha frente e os meus lados e sussurraram:
- Senhor R, senhor R –
E continuaram falando o meu nome como se acariciassem o meu corpo.
Eram figuras totalmente depravadas:
Leprosos, cegos, esqueletos, pessoas sem cabeça, sem perna, sem pernas, sem um olho e sem os dois.
Eu recuava e eles avançavam, e a cada momento eles ficavam mais rápidos, como se não tivessem anomalia nenhuma, e foram me empurrando, empurrando até um outro quarto e eu só percebi quando já estava dentro do mesmo. Olhei em volta e de repente eles sumiram, o quarto era completamente branco: teto, parede, piso, porta, tudo branco neve. Não havia nada no quarto além dos óculos escuros, no canto esquerdo; peguei-o e coloquei em cima dos meus olhos e duas belas mulheres sorriram para mim.
- Pode tirar os óculos - disse a moça mais próxima de mim, então tirei.
- O senhor R é muito bonito - disse a segunda, que estava mais ao fundo do quarto, e o seu olho esquerdo caiu. Senti que ia desmaiar, e as duas mulheres agora eram quatro e envelheciam e rejuvenesciam em uma velocidade atordoante, até que uma bem jovem me olhou e disse –
- Faça a nossa nosografia - e cada vez mais baixo repetia:
- Nosografia, nosografia. Não desmaiei e então, certo que o fim estava próximo, caminhei duramente para a porta enquanto as quatro repetiam:
- Nosografia –
Abri a porta e encontrei o funcionário. Eu disse –
- Quero ir embora.
- Ir embora? Mas por quê?
- Porque se não eu vou enlouquecer.
O funcionário, como se nem tivesse me ouvido, perguntou –
- Tá com fome?
- Sim, estou.
- Vem, vamos almoçar, o senhor R tem dois dias que não come nada, e o senhor deve estar bem alimentado, pois o seu dia é amanhã.
- Amanhã? - Perguntei assustado.
- Sim. O senhor já visitou todos os quartos.
- Como? Todos os quartos? Eu só entrei em dois e em um jardim.
- O senhor me chamou de mentiroso?
- Não, não, tudo bem. Nesse momento surgiu em minha frente um imenso portão e pessoas entravam e saiam em um ritmo frenético, eu olhei para ele e ele sorridente falou.
- Ali é a saída e a entrada, agora é o turno da entrada, mas alguns podem sair para cumprirem missões externas - E eu via belas mulheres, rapazes vigorosos e vencedores, operários e todo tipo de graduação de funcionário, então perguntei –
- O que é isso aqui?
- Melhor não saber. Ganha mais pontos –
- Isso é uma fabrica de ilusões terríveis - Afirmei e ele me olhou profundamente e então eu estava com um prato de comida na mão e quando comecei a comer joguei longe o primeiro bocado, mas a fome aumentou e aumentou. Comi aquela maldita comida, ele sorria e também comia, vários comiam, ou melhor, todos comiam. Ao término do meu almoço, coloquei o prato em um balcão e o sorridente funcionário me perguntou -
- Gostou?
- Gostei.
- O senhor acabou de comer carne de leproso do milênio passado, guardado com sangue de rato e bosta de velha - Eu tentei vomitar. Mais nada consegui além de cuspir um dente fora.
O funcionário sorridente disse –
- O processo está começando - eu me desesperei.
- Que processo? – e todos sorriam e eu percebia que podia ser o meu fim o tal processo e então comecei a gritar –
- Eu quero sair. Sair, sair. Sair - Ele suavemente me pegou pela mão abriu o portão e falou com uma voz macia –
- Vai, ingrato, fora! – rapidamente ele se transformou e completamente transtornado dizia -
- Fora. Fora agora - ele gritava e sua cara parecia de um macaco zangado.
- Fora. Fora - eu corri muito, e depois de muito correr parei e verifiquei que eu estava a três ou quatro metros distantes da casa, e que ela era linda e de arquitetura barroca.
Eu precisava de um trago. Parar de beber, estava me enlouquecendo.

Ronaldo Braga