sábado, março 17, 2007

SONO

Você dormindo de forma tão serena e eu com estes pensamentos vagos.... são tantos e tão intensos que temo que eles soltem da minha mente e agridam a sua imagem doce...

Não sei se é justo que você durma e eu fique te olhando como se você estivesse a parte de tudo isto, como se você não fosse o eixo destes meus devaneios... Como você pode dormir?

Será que este teu sono não é uma justificativa para não interagirmos? Não se preocupe, eu não vou te acordar, embora eu não entenda como você pode não estar ouvindo os gritos dos meus pensamentos...

Não se preocupe, pois embora eu tenha urgência de saber o que você pensa sobre tudo isto, não sei se estaria preparada para ouvir a sua opinião. Então, eu faço os dois lados da comunicação, com a vantagem de dominar as falas...

Este teu jeito sereno me causa espanto, pois não sei onde você registra a gravidades dos fatos que andam em curso... eu não entendo como você processa estas informações...

Vendo você dormindo nem parece que você sobreviverá... percebo a necessidade urgente de trabalhar as respostas e você nem se preocupa com isto, o tempo não espera e você parece ter todo o tempo do mundo.

Tudo bem, eu não te acordo, mas também não durmo, é como se eu velasse o seu sono egoísta, é como se eu tentasse apressar o seu estágio de plenitude... é como se eu reconhecesse a minha total impotência diante deste ato.

Eu vou cuidar de você para que o seu sono não me incomode... eu vou cuidar para que a sua vida não me incomode... eu vou cuidar para encontrar uma forma de dizer que eu não quero que você acorde antes de mim... preciso preparar a minha fuga, em silêncio, de forma continuada, cadenciada e na seqüência da sua respiração....

Eu preciso aceitar que nunca mais eu vou adivinhar os seus pensamentos, me sinto invadindo o seu íntimo e não sei como processar estas informações, você é culpado por ser tão previsível... tão objetivo, tão simétrico, tão linear....

Tento misturar os seus traços, inovando no desenho, ângulos agudos, obtusos, tangentes, retas difusas e você, num passe de mágica, coloca tudo em ordem com o seu descaso... por isto digo que você é culpado, eu bem que tento e não obtenho resultados...
Se você é culpado, como pode dormir tão tranquilo? Ainda acabo acordando, você ou eu...

O importante é ter a certeza de que os sonhos serão interrompidos, de forma punitiva pelo seu descaso com a minha insônia.


MARIA BRANCO

Um comentário:

ronaldo braga disse...

eu ainda farei um livro com a obra publicada em meu blog, pois cada vez que eu leio fico admirado pela qualidade. obrigado poeta