quarta-feira, março 14, 2007

SEM ELA A VIDA DOÍA TANTO

A prova de matemática descia pesada e nas entranhas da minha memória pássaros verdes cantavam em cores, e mangas - rosas desafiavam sabores, em tardes de solidão e sonhos. A prova anulava os meus sorrisos de menino e trazia a certeza da dor e, como em todas as provas anteriores, descartava realidades queridas e persistia pesadelos em mais um zero anunciado, e uma professora que calava sorrisos em impotências demonstradas de autoritários modelos, e nos meus lábios, lágrimas pretas desenhavam esquivas de mais um namoro perdido.
Na porta, cinicamente sorridente, Beto Biriba avisava o baba de todo dia e a mestra ainda chorava verdades em tábuas rasas e nojentas e de seus olhos vampiros, risadas e tormentos assassinavam todos os meus jardins.
Na minha frente, a garota mais linda ensaiava uma pesca e sorria desdém pra mim, em mãos tulipas e jasmim, e doía tanto ser assim, e eu sonhava seus beijos em venenos de noites claras, com anjos calados e suas nuas rosas loquazes, e imergia em eretísmos ausentes, e doía tanto ser assim. E fugazes folhas cheiravam recusas nos meus olhos apressados e a tristeza cantava minha alma em cântaros, sobre rochedos de mares esquecidos e desalmados.
A prova devastava meus humores e comprovava autoridades e cansava concupiscências silvestres em uma homeostase fecunda de plantas exóticas, mas só o desprezo dela doía em mim, e doía tanto ser assim. E bichos e raivas e mortes e brigas povoavam minhas inocências traídas e ela não sorria pra mim e a prova não sorria pra mim e sua recusa era mister e fazia densa a luz de todos os mundos e todo rosto, sombrio. E doía tanto em mim ser assim.
A sala, enfim vazia, teimava em ausências de imanentes fugas e a prova em branco alongava gládio ascético em interstícios solenes das minhas outras memórias, era ela e seu belo sorriso a povoar minha mente e aceder desejos agonísticos, mas sua voz azêda desnudava mundos e recitava passados inelutáveis e para sempre inexistentes, e os futuros perdidos brincavam, enquanto ela sorria desprezo e para mim só mandava distâncias, e eu sabia que sem ela a vida doía tanto.
Um zero sorria minha história e o baba perdido sorria minha dor e em beijos anêmicos meus passos tropeçavam manhãs.
Beto Birita insistia em uma porta quadrada e seu corpo molhava a bola e a prova esquecida trespassava agruras de ruas cantantes, onde bêbados poetas voavam amores em eternas redes alcoólicas. E sem ela a vida doía tanto.
Cesura marcava meus passos em fluxos cansados e flores dançavam estrelas pesadas no meu caminho. Sonhar quedas e sonhar amores ingratos: meu cérebro em constantes explosões recorrentes insistia em elidir belezas por toda uma eternidade, enquanto a professora gritava silêncios e afirmava importâncias e zelos em tristes dentes a soletrarem desgraças de infâncias gastas por solenes leis.
A turma reincidente postulava outros tempos. E tempos mágicos importavam sonhos e assustavam medos em salas de ferrão. E eu sabia que sem ela a vida doía tanto.

ronaldo braga

3 comentários:

luciano fraga disse...

Ronaldo,seu texto é altamente nostálgico para mim que sou de uma época em que os amores eram realmente impossíveis,secretos,platônicos por colegas e amigas que nos faziam sonhar acordados.Saudades.

luciano fraga disse...

Ronaldo,seu texto é altamente nostálgico para mim que sou de uma época em que os amores eram realmente impossíveis,secretos,platônicos por colegas e amigas que nos faziam sonhar acordados.Saudades.

cafundó disse...

Ronaldo, seu texto me colocou novamente na sala de aula quando desenhava balões nas provas de geometria e sonhava com nuvens coloridas. Maravilhoso!