segunda-feira, março 26, 2007

PRELAZIA DE SÃO FELIX DO ARAGUAIA

Dedicado ao meu irmão Pedro Casaldáliga Plá

Corro os olhos no trecho,
a procura de santos,
profetas e peregrinos,
que me levem a romper,
esses tempos de desolamento.

Porém,
meus olhos encharcados de lágrimas,
só enxerga:
Dom Pedro Casaldáliga!

Então,
rememoro o seu anel de urucum,
o báculo borduna de um guerreiro do Xingu.

Beijo,
daqui da Bahia,
de "Todos os Santos e Inevitáveis Demonios",
as suas mãos limpas,
puras,
como um diamante cravejado em meu peito de menino velho.

E o seu verso
me surge na memória:
"Eu
e tu, Araguaia,
somos um tempo só."

Em Ribeirão Cascalheira,
junto ao Santuário dos Mártires da Caminhada,
há 30 anos jaz o Mártir,
Pe. João Bosco Penido Burnier...

Indo assim tangendo quadras,
de tuiuiús baleados no peito,
de garças brancas colorindo a paisagem...

Pedro Casaldáliga,
caminha,
meu Poeta Irmão,
pelos caminhos de São Félix...
Zanzando nos caminhos do mundo.

Meu Santo brada:
"Tudo é relativo
menos Deus e a fome."

Dando testa
a tantos grileiros, inúmeros madeireiros,
à essa infinidade de pistoleiros,
gente suja e covarde,
acostumada a manter seus latifúndios,
e as capitanias hereditárias,
com seus crimes e servidão.
Parasitando o suor do Bugre,
do Nordestino,
do Lascado,
nesse fim de mundo,
com suas fazendas enlameadas de escravidão.

Dom Pedro,
em sentinela,
abominando toda esta exploração.

As terras indígenas nunca demarcadas,
a burocracia emperrando,
e os seus guerreiros na mata em desolação.

"E os rios,
estes rios outrora preservados na inocência,
cruzados pela lua e os pássaros e o vento,
rios de paz, de peixes, de livre liberdade,
agora profanados...
Araguaia, punido Berocá!
Xavantino aramado!
Tapirapé enlameado de turismo..."

Pedro de Pé,
sem abaixar a cabeça jamais...
Proclamando o Evangelho da Libertação,
nesses tempos de pouca fé.
E esses corações brasileiros,
embrutecidos,
pela sanha do "l'argent".

Pedro Santo,
canonizado em meu coração.

Pedro Profeta,
no deserto de sua Pregação.

Pedro Peregrino,
com seu rebanho de boa lã.

Pedro Poeta,
meu irmão Catalão.

MIGUEL CARNEIRO

Verão de 2007, Bahia de Todos os Santos.

2 comentários:

Braga e Poesia disse...

o miguel e seus poemas epicos, verdadeira epopéia poetica, desfilando a história recente do Brasil em doces palavras versos, e o miguel com sua poesia chama atenção para a triste realidade de artistas e genios brasileiros que estão completamente enfeitiçados por uma realidade falsa imposta pela pseudo pós-modernidade, que nada é senão o discurso dos perdidos e dos que por impotencia ou burrice estão mordendo o proprio rabo.a poesia é tambem amor e amor é tambem crueldade.

Nelson Magalhães Filho disse...

Nestes tempos sombrios de desolação, nada como ler belos poemas para aplacar a nossa sede de querer morrer.