sexta-feira, março 16, 2007

MENINAS DO SERTÃO

Meninas do sertão


As mãos cansavam ladainhas em recorrentes febres, e a morte de todos os desejos calava o mundo anil das meninas enjauladas, e anseios e suspiros insistentes negavam tristezas nas peles eriçadas de sonhos, em um mundo de devaneios, desdenhando futuros em luas roucas, com seus medos a transitarem soltos nos dias negros do querer.
Elas postulavam silêncios em olhares atrevidos e palavras surdas reentravam desejos em corpos esquecidos.
Ao longe, romeiros praguejavam amores em suores covardes, e suas tristes músicas, eram ameaças à vida que teimava brotar em secos olhos. E ódios reativados, e impotências, desfilavam nos humores dos perdedores funestos e malditos, com suas sinfonias de mortos.
Pássaros caminhavam melancolias em passos úmidos e cheiros de amor e canções embriagavam encontros de outrora. Os seios cansavam odores e os olhares teciam esperanças nas raízes loucas e hemiplégicas e os corpos esquivos de imanentes eretísmos suavam negações nos cantos inelutáveis e constitutivos de todo sofrer. E sofrer, era a salvação e a vida, daquelas miragens eróticas de cantar salmos e preces, com seus loquazes medos a transpirarem sexo por toda terra fatigada de sangue e ferro e dor e fome.
Os dedos suspiravam descansos e entregas nos montes noites de estrelas cruéis e violetas, e as mães suspiravam desprezos e em recônditos pensamentos amores invadiam anomalias e ventres e as faziam sorrir terra e cores e rios e passados de violentas paisagens.
As meninas em clivagens serenas, cantavam medos desérticos e amores sonhados em úmidas palavras vãs, e escondiam gozos em seus rostos de prazeres invertidos e insulares, nos tempos soltos e movediços, a escurecer risos e tremerem sonos, nas noites sem esperas, de ausentes beijos a chorar lamas em camas frias, e sonharem céus e deuses numa desesperada peleja de peles e bocas, cantando esperanças, e roubando salvações de um sono concupiscente. Seus sonhos perdiam alegrias e as faziam expulsar homens e bichos e mortes, e para sempre silêncios. A reza, lugar comum: onde todos os sentidos eram adormecidos, e a vida perdia sorrisos e dores pululavam existências em canções de morrer.
Não haviam sorrisos soltos nas infâncias esculpidas em medos, só o esperar de noites e dias, calavam choros futuros e vomitavam alegrias em loucos transes.
Pesadelos difratados rompiam madrugadas e flores tristes buscavam jardins em cactos polimorfos e gentis.
As meninas dormiam cruzes.
E os meninos masturbavam salmos em correrias anêmicas.
Um silêncio quente resfriava sentidos no sertão brasileiro.

Ronaldo Braga

Um comentário:

chico da feira disse...

PARECE EXTRANHO MAS TEM SENTIDO MASTURBAR SALMOS, NA VERDADE É REALMENTE UMA MASTURBAÇÕA REZAR