quinta-feira, março 29, 2007

1969 O ANO QUE EU ME APAIXONEI

Era dez de janeiro do ano de 1969, eu a caminho de mais um baba e de uma tarde repleta de atividades, e com minhas férias que para minha felicidade estavam só começando; pensava na minha vida enquanto caminhava, ou melhor, corria em direção ao campo, e naquele momento, a toda velocidade, não sei por que aqueles pensamentos invadiam e dividiam o meu cérebro com a vontade de chegar ao meu destino e assim, mesmo em um momento inoportuno, eu estava fazendo o que, como em todo ano, no mês de janeiro, desde os meus sete anos, sempre fizera, uma avaliação da minha existência; e acreditava, como sempre acreditei, que nesse ano tudo seria realmente diferente e como antes, eu sabia que naquele ano tudo prometia mudar. Primeiro eu faria dez anos no mês de junho e já participava do campeonato de punhetas embaixo da ponte na chapadinha, e isso era também uma das razões que me fazia crer que aquele janeiro seria bastante diferente de todos os outros janeiros, uma diferença que só eu percebia, ela estava dentro de mim, e eu sentia no ar, nas coisas, e até nas pessoas, eu sentia. Eu começava a me sentir também diferente e olhar pra tudo e pra todos de frente, olhos nos olhos, sem medo, e os meus irmão menores, todos, queriam crescer e ser como eu, o homem da casa, depois de meu pai, é claro. Eu morava na Baixinha da Vitória, uma rua de gente pobre e ruidosa e a minha casa era grande; eu tinha um pai, uma mãe e nove irmãos, e eu tinha uma árvore, uma mangueira, era uma imensa árvore bem no meio do meu quintal, bela, e dava lindos e deliciosos frutos: manga rosa: o mesmo nome da minha mãe, e isso era sublime, e me fazia sentir escolhido por Deus.
Todos os dias pela manhã eu abraçava aquela árvore e me sentia abraçando a minha mãe, abraçando Deus, então eu era bom e amava os mais velhos e esquecia as surras que toda noite meu pai me dava, depois eu ia pra escola, Colégio Estadual Alberto Torres, conhecido por todos nós por C.E.A.T. O colégio pra mim era o pior lugar do mundo, era discriminado e tirava péssimas notas, estava sempre zangado, e não conseguia entender nada que as professoras falavam ou colocavam no quadro negro. Mas agora eu tinha certeza, tudo isso ia mudar. 1969 era o meu ano, muito diferente de 1968 que foi de dias longos, terríveis, mas agora eu esperava tudo mudar, eu tinha passado de ano e não queria que nesse ano de 1969, durante as aulas, eu tivesse que ficar lembrando da minha querida árvore e ter o gosto da manga rosa em minha boca e mente, como uma saída para fugir do terror das aulas. Só o recreio, eu sabia, não precisava mudar nada, estava ótimo e ainda seria a melhor parte da escola, pois sempre, mesmo nos piores momentos, ele era o meu melhor, na verdade eu sempre estivera em estado letárgico durante as aulas, e a voz do professor ou professora soava pra mim como algo de outro mundo e aterrorizador e ali na sala, eu esperava agoniado o recreio e então com ele a felicidade, milagrosamente, era o meu estado natural e lembro do Godofredo, o gordo, boçal, mas meu amigo, nós sempre chegávamos mais cedo e ficávamos batendo bola, ele chutava pra mim e eu chutava pra ele, o objetivo era manter a bola colada ao chão e devolver com um único toque na bola e cada chute tinha que ser com um pé diferente. O Godofredo era rico e dono da bola, e tinha também o canhoteiro bom de bola, tinha vindo do sertão e falava destacando o T e estava sempre merendando na cantina do colégio, e eu ficava olhando e pra mim aquilo era como ir pra lua, pois dinheiro eu não tinha, eles estariam lá e seriam meus colegas de novo, tudo de bom seria repetido e somente as coisas ruins iriam desaparecer.
Era dez de janeiro de 1969, as férias estavam ainda no começo, mas eu já pensava no ano novo na escola, não como promessa de uma mudança, mas com uma certeza, pois eu sabia que agora tudo seria diferente. Eu lembrava das meninas e na minha memória elas estavam sempre em grupos e separadas dos meninos e nós, meninos, separados delas, sempre em grupos, falando delas, de babas, de festas, e mais delas, muitas e muitas vezes e quase sempre falando delas. Os garotos ricos, ainda ficavam um pouco com elas, a maioria, pobres como eu; de longe as desejavam e resolviam tudo no banheiro.
Outra coisa que eu esperava que mudasse era o tempo, a duração das atividades, eu não entendia porque nas manhãs as aulas eram sempre longas por demais e o recreio curto, tão curto que quando havia divergência na escolha dos times não havia baba, o recreio acabava e nós ainda discutíamos que esse não podia jogar com aquele, eu não entendia isso senão como uma punição: eu temia as punições, meu pai me punia sempre e todos os adultos me lembravam o meu pai, um carrasco, pior, meu carrasco particular, meu torturador doméstico, e o professor pra mim era como o meu pai, o vizinho era como o meu pai, e eu estava sempre achando que eles iam fazer coisas em mim como o meu pai: bater em mim, me chamar de inútil, me colocar de castigo e dizer que eu era a desgraça da vida dele, e toda vez que o professor me chamava, eu estava esperando sempre o pior, e então eu já estava derrotado antes, e não acertava nada, e nem mesmo sabia o que ele queria de mim, era simples: eu ficava petrificado.
E ali naquele dez de janeiro de 1969, eu lembrava da hora do almoço, o almoço era uma hora de alegria e guerra, como eu disse, em minha casa, tinha além de mim mais nove irmãos e mais dois de criação, e a minha relação com eles era bastante estranha, eu os odiava e os amava, dependia dos meus interesses. Depois do almoço um abraço na querida árvore e fugir para o campo de futebol que ficava em direção do Ipeal, chamado por todos da cidade como a leste: era um instituto federal de pesquisa agrícola, ainda naquele ano e até alguns anos depois, o meu estado, Bahia, ficava na região leste, hoje está situado na região nordeste, os sábios determinaram, mas na época eu não consegui entender como foi que eles fizeram essa mudança, e eu corria para o campo a toda pressa, era a hora do baba, e eu não queria perder a oportunidade de escolher o meu time, e naquele dia dez de janeiro, correndo para mais um baba, com tristeza lembrei dos deveres de casa, eu sempre chegava cedo às aulas e às pressas copiava alguma coisa dos cadernos dos outros e fazia o meu malfeitodeverdecasa, pois nunca fiz um dever em casa, achava inútil e descabido, mas era mentira, na verdade eu achava era difícil, além de sentir muito medo na sala de aula e não perguntar nada nem mesmo quando nada entendia, e também não tinha nenhum livro didático: meu pai não comprava.
E a tarde começava e eu era um rei, afinal, como disse o poeta, todo menino é um rei; ali no campo, vários babas eram disputados e depois já tardinha sempre íamos às roças roubar jaca, laranjas e outras frutas e tomar banho de rio, onde mais uma vez o pavor tomava conta de mim, eu sempre tinha medo de morrer afogado, a imagem de meu pai me sufocava, no final da tarde de volta das roças e das fugas heróicas de cachorros e dos donos das plantações, outro baba no beco, esquina da casa de Pernambuco, e já noite em casa depois de um banho no quintal, um café noturno de pão com manteiga e café com leite, e mais baba, agora na rua.
À noitinha, o terror chegava com o meu pai, bêbado e maldoso, sempre me chamava e dizia:
- Hoje ninguém fez queixa de você, mas você deve ter aprontado das suas e por isso vai tomar só a metade dos bolos de ontem, vá pegar a palmatória.
Eu ia e pegava uma palmatória pesada e tomava uma dúzia de bolo em cada mão e quando havia reclamação o mínimo eram duas dúzias. Todos os meus irmãos apanhavam, mas eu e meu irmão J apanhávamos mais, nós sempre jogávamos fora a palmatória e aí a surra era de couro, um rebenque usado para bater em animais; depois dessas surras, minha mãe preparava uma bacia com água e sal e todos nós éramos obrigados a ficar ali para sentir mais dores, eu acho, depois meu pai dormia e aí eu ia pra rua, pra mais um baba e conversa entre os amigos e ser feliz. Falávamos dos ricos, das mulheres, de Deus, dos pecados e do inferno, todos tinham medo do inferno, mais todos aprontavam e viviam felizes, as surras não nos deixavam tristes mais que o tempo da duração das próprias, sonhávamos com um futuro longe dali e brilhante, eu queria ser um ator e escritor famoso e casar com RC, uma linda mulher, e já bem tarde, eu pulava o muro do terreno ao lado da minha casa e empurrava a janela do meu quarto e ia dormir feliz e famoso e rico, e sonhava com imensas casas, carros e sorrisos e mulheres e colegas e brigas e mangas.
Naquele dez de janeiro, indo para mais um baba e com pressa para escolher os melhores jogadores, eu lembrava que em minha casa só minha mãe e o pé de manga rosa tinham o meu amor, as outras pessoas e coisas eu suportava e não as compreendia, elas sempre estavam vendo defeitos em mim e eu em troca criava, inventava defeitos pra elas, acho que também elas inventavam os meus defeitos, até dormindo tudo isso vinha, mas de uma forma mágica.
Correndo pro campo, de longe vi uma menina saindo de sua casa e me lembrei de RC, uma menina que no ano passado viera para a minha turma, a única coisa boa, além dos babas e da disputa de masturbação embaixo da ponte, que aconteceu comigo naquele ano de 1968, eu me apaixonei e o problema era que ela era rica e me detestava, loura, magra, nunca olhou pra mim, mas marcou para sempre as minha futuras escolhas femininas. Sempre louras e magras, eu estive a procura dela por toda a minha juventude em todas as mulheres, e depois que ela chegou, durante todo aquele resto de ano as aulas foram desejadas e esperadas com uma imensa ansiedade, não pela aula e sim por ela. Eu me lembro o seu nome, como algo que ficou, mas a sua imagem nunca mais me abandonou, eu tinha nove anos e tinha também um objetivo na vida: casar com ela. Meus sonhos, todos ou quase todos, eram com ela, e seu sorriso era pra mim a coisa mais bela, mesmo sendo para outros. Nós nunca nos falamos, mas até o fim do ano ela era a minha flor e ao lado da minha mãe e minha árvore e meus babas e meus amigos e minhas conversas com eles eu podia suportar até mesmo o meu pai e mesmo chegar a pensar em amá-lo.
As férias significavam babas e rio e roubo de frutas durante todo o dia e somente à noite a tortura chegava, mas quem se importava, apanhar era parte do viver e viver era bom demais, então que ele me batesse a vontade, depois era só esperar o bêbado torturador dormir e então tudo era festa.
Fui chegando ao campo preocupado com a presença ou não de RC na minha turma, será que ela iria continuar sendo minha colega? Eu esperava que sim, isso não precisava mudar, e avistei de longe Lau de Cozin e Davi de Ametério, dividindo o baba e gritei e Lau também gritou:
- Você é do meu time - E então eu fiquei aliviado, com Lau eu nunca perdia um baba, e eu sabia que aquilo era um bom sinal, RC iria ser minha namorada, eu ia ser um bom estudante e iria ensinar a ela, meu pai iria se cansar de me bater. A vida estava do meu lado e 1969 seria o meu ano, pois eu faria dez anos em junho e seria um homem.


ronaldo braga

4 comentários:

Manoel do abacate disse...

LEMBRANÇAS DA INFANCIA E DA JUVENTUDE, ONDE OS SONHOS SUPERAVAM AS TRISTES REALIDADES, MAS TAMBEM OUTRAS REALIDADES COEXISTIAM E NOS FAZIAM FELIZES E SOLTOS

cafundó disse...

Ronaldo... Eu tb já apanhei, minha palmatória era uma escovona, daquelas de lavar as costas...
Seu texto é lindo. Me levou até os quintais de minha infância, os furtos inocentes e mais me lembrou meu filho que já foi até rotulado como autista nas aulas porque opta pelos sonhos...
Arriba, poeta!
Que essa vida é feita pra ser cantada e contada. Meu carinho eterno!

Miguel disse...

Braga,
Tua narrativa é pedronavaiana, como testamentos passados no cartório do tempo, tem cor, sabor e pulsa verdade,
Tua narrativa é moldada pelo limbo da memória que emerge em teu texto como testemunho de um tempo vivido,
meu abraço. Miguel Carneiro

luciano fraga disse...

Ronaldo,sua narrativa me fez sonhar acordado,lembrando claramente de todas as passagens naquele tempo do cruzeiro,américa,união,jacas e mangas roubadas,banhos em tanques,picolé cardeal,chutes nos troncos da jaqueira nos campos do CEAT e do soldado"Coleguinha",que nunca prendeu ninguém.Tempos duros,lembro com carinho.