sábado, março 31, 2007

CANÇÃO DAS NOITES DE A B R I L

A minha amada
tem olhos de madrugada
como fachos acesos de tição.
A minha amada é inquilina
bem menina
de meu velho coração.

Chama-me pro canto
Fascina-me
faz-se de traquina
em meu templo de celebração.

A minha amada tem a boca de mel
semelhante ao manjar do céu.
De travo tão bom,
espairecida no Jardim das Delícias
E nessa preguiça
permaneço a lhe enamorar.

Minha amada tem um cheirinho
que de longe eu posso identificar
Aquece-me e me cobre
e dorme sempre depois que eu estou a cochilar

MIGUEL CARNEIRO

CADERNETA DE CAMPO

Vivo passando uma quadra miserável,
sem dinheiro, sem futuro, sem poesia.
Vivo zonzo pelo mundo
vendo tantos fantasmas
em plena luz do dia.
Vivo passando uma quadra difícil
semelhante como a quadra
que passa o Cão.
O avenir embrulhado ao medo,
o dinheiro raro,
e a poesia exaurida,
arriada ao chão.
Vivo numa quadra tirana
nessa peleja sem fim
A cabeça num turbilhão
A malta de medíocres se exibindo
eu lascado e sem pão
tangendo muitos
nesse enorme batalhão.

MIGUEL CARNEIRO.

quinta-feira, março 29, 2007

R I T O S

Teço tranças e rasgo fios
Vejo luas e rabisco navios
Febres
Odores
calafrios
E se me calo, verbos flutuam
No parapeito do que hei de ser
Pertenço a qualquer lugar que me comporte
Minh`alma é crespa
Cultuo vendavais de toda sorte
Tensa
Suturo incertezas de um destino que rompe tardes
Arde
Atritos sobre o magma adormecido de um vulcão
Vertente
Poesia é o meu espelho oculto em erupção.

Alyne Costa

1969 O ANO QUE EU ME APAIXONEI

Era dez de janeiro do ano de 1969, eu a caminho de mais um baba e de uma tarde repleta de atividades, e com minhas férias que para minha felicidade estavam só começando; pensava na minha vida enquanto caminhava, ou melhor, corria em direção ao campo, e naquele momento, a toda velocidade, não sei por que aqueles pensamentos invadiam e dividiam o meu cérebro com a vontade de chegar ao meu destino e assim, mesmo em um momento inoportuno, eu estava fazendo o que, como em todo ano, no mês de janeiro, desde os meus sete anos, sempre fizera, uma avaliação da minha existência; e acreditava, como sempre acreditei, que nesse ano tudo seria realmente diferente e como antes, eu sabia que naquele ano tudo prometia mudar. Primeiro eu faria dez anos no mês de junho e já participava do campeonato de punhetas embaixo da ponte na chapadinha, e isso era também uma das razões que me fazia crer que aquele janeiro seria bastante diferente de todos os outros janeiros, uma diferença que só eu percebia, ela estava dentro de mim, e eu sentia no ar, nas coisas, e até nas pessoas, eu sentia. Eu começava a me sentir também diferente e olhar pra tudo e pra todos de frente, olhos nos olhos, sem medo, e os meus irmão menores, todos, queriam crescer e ser como eu, o homem da casa, depois de meu pai, é claro. Eu morava na Baixinha da Vitória, uma rua de gente pobre e ruidosa e a minha casa era grande; eu tinha um pai, uma mãe e nove irmãos, e eu tinha uma árvore, uma mangueira, era uma imensa árvore bem no meio do meu quintal, bela, e dava lindos e deliciosos frutos: manga rosa: o mesmo nome da minha mãe, e isso era sublime, e me fazia sentir escolhido por Deus.
Todos os dias pela manhã eu abraçava aquela árvore e me sentia abraçando a minha mãe, abraçando Deus, então eu era bom e amava os mais velhos e esquecia as surras que toda noite meu pai me dava, depois eu ia pra escola, Colégio Estadual Alberto Torres, conhecido por todos nós por C.E.A.T. O colégio pra mim era o pior lugar do mundo, era discriminado e tirava péssimas notas, estava sempre zangado, e não conseguia entender nada que as professoras falavam ou colocavam no quadro negro. Mas agora eu tinha certeza, tudo isso ia mudar. 1969 era o meu ano, muito diferente de 1968 que foi de dias longos, terríveis, mas agora eu esperava tudo mudar, eu tinha passado de ano e não queria que nesse ano de 1969, durante as aulas, eu tivesse que ficar lembrando da minha querida árvore e ter o gosto da manga rosa em minha boca e mente, como uma saída para fugir do terror das aulas. Só o recreio, eu sabia, não precisava mudar nada, estava ótimo e ainda seria a melhor parte da escola, pois sempre, mesmo nos piores momentos, ele era o meu melhor, na verdade eu sempre estivera em estado letárgico durante as aulas, e a voz do professor ou professora soava pra mim como algo de outro mundo e aterrorizador e ali na sala, eu esperava agoniado o recreio e então com ele a felicidade, milagrosamente, era o meu estado natural e lembro do Godofredo, o gordo, boçal, mas meu amigo, nós sempre chegávamos mais cedo e ficávamos batendo bola, ele chutava pra mim e eu chutava pra ele, o objetivo era manter a bola colada ao chão e devolver com um único toque na bola e cada chute tinha que ser com um pé diferente. O Godofredo era rico e dono da bola, e tinha também o canhoteiro bom de bola, tinha vindo do sertão e falava destacando o T e estava sempre merendando na cantina do colégio, e eu ficava olhando e pra mim aquilo era como ir pra lua, pois dinheiro eu não tinha, eles estariam lá e seriam meus colegas de novo, tudo de bom seria repetido e somente as coisas ruins iriam desaparecer.
Era dez de janeiro de 1969, as férias estavam ainda no começo, mas eu já pensava no ano novo na escola, não como promessa de uma mudança, mas com uma certeza, pois eu sabia que agora tudo seria diferente. Eu lembrava das meninas e na minha memória elas estavam sempre em grupos e separadas dos meninos e nós, meninos, separados delas, sempre em grupos, falando delas, de babas, de festas, e mais delas, muitas e muitas vezes e quase sempre falando delas. Os garotos ricos, ainda ficavam um pouco com elas, a maioria, pobres como eu; de longe as desejavam e resolviam tudo no banheiro.
Outra coisa que eu esperava que mudasse era o tempo, a duração das atividades, eu não entendia porque nas manhãs as aulas eram sempre longas por demais e o recreio curto, tão curto que quando havia divergência na escolha dos times não havia baba, o recreio acabava e nós ainda discutíamos que esse não podia jogar com aquele, eu não entendia isso senão como uma punição: eu temia as punições, meu pai me punia sempre e todos os adultos me lembravam o meu pai, um carrasco, pior, meu carrasco particular, meu torturador doméstico, e o professor pra mim era como o meu pai, o vizinho era como o meu pai, e eu estava sempre achando que eles iam fazer coisas em mim como o meu pai: bater em mim, me chamar de inútil, me colocar de castigo e dizer que eu era a desgraça da vida dele, e toda vez que o professor me chamava, eu estava esperando sempre o pior, e então eu já estava derrotado antes, e não acertava nada, e nem mesmo sabia o que ele queria de mim, era simples: eu ficava petrificado.
E ali naquele dez de janeiro de 1969, eu lembrava da hora do almoço, o almoço era uma hora de alegria e guerra, como eu disse, em minha casa, tinha além de mim mais nove irmãos e mais dois de criação, e a minha relação com eles era bastante estranha, eu os odiava e os amava, dependia dos meus interesses. Depois do almoço um abraço na querida árvore e fugir para o campo de futebol que ficava em direção do Ipeal, chamado por todos da cidade como a leste: era um instituto federal de pesquisa agrícola, ainda naquele ano e até alguns anos depois, o meu estado, Bahia, ficava na região leste, hoje está situado na região nordeste, os sábios determinaram, mas na época eu não consegui entender como foi que eles fizeram essa mudança, e eu corria para o campo a toda pressa, era a hora do baba, e eu não queria perder a oportunidade de escolher o meu time, e naquele dia dez de janeiro, correndo para mais um baba, com tristeza lembrei dos deveres de casa, eu sempre chegava cedo às aulas e às pressas copiava alguma coisa dos cadernos dos outros e fazia o meu malfeitodeverdecasa, pois nunca fiz um dever em casa, achava inútil e descabido, mas era mentira, na verdade eu achava era difícil, além de sentir muito medo na sala de aula e não perguntar nada nem mesmo quando nada entendia, e também não tinha nenhum livro didático: meu pai não comprava.
E a tarde começava e eu era um rei, afinal, como disse o poeta, todo menino é um rei; ali no campo, vários babas eram disputados e depois já tardinha sempre íamos às roças roubar jaca, laranjas e outras frutas e tomar banho de rio, onde mais uma vez o pavor tomava conta de mim, eu sempre tinha medo de morrer afogado, a imagem de meu pai me sufocava, no final da tarde de volta das roças e das fugas heróicas de cachorros e dos donos das plantações, outro baba no beco, esquina da casa de Pernambuco, e já noite em casa depois de um banho no quintal, um café noturno de pão com manteiga e café com leite, e mais baba, agora na rua.
À noitinha, o terror chegava com o meu pai, bêbado e maldoso, sempre me chamava e dizia:
- Hoje ninguém fez queixa de você, mas você deve ter aprontado das suas e por isso vai tomar só a metade dos bolos de ontem, vá pegar a palmatória.
Eu ia e pegava uma palmatória pesada e tomava uma dúzia de bolo em cada mão e quando havia reclamação o mínimo eram duas dúzias. Todos os meus irmãos apanhavam, mas eu e meu irmão J apanhávamos mais, nós sempre jogávamos fora a palmatória e aí a surra era de couro, um rebenque usado para bater em animais; depois dessas surras, minha mãe preparava uma bacia com água e sal e todos nós éramos obrigados a ficar ali para sentir mais dores, eu acho, depois meu pai dormia e aí eu ia pra rua, pra mais um baba e conversa entre os amigos e ser feliz. Falávamos dos ricos, das mulheres, de Deus, dos pecados e do inferno, todos tinham medo do inferno, mais todos aprontavam e viviam felizes, as surras não nos deixavam tristes mais que o tempo da duração das próprias, sonhávamos com um futuro longe dali e brilhante, eu queria ser um ator e escritor famoso e casar com RC, uma linda mulher, e já bem tarde, eu pulava o muro do terreno ao lado da minha casa e empurrava a janela do meu quarto e ia dormir feliz e famoso e rico, e sonhava com imensas casas, carros e sorrisos e mulheres e colegas e brigas e mangas.
Naquele dez de janeiro, indo para mais um baba e com pressa para escolher os melhores jogadores, eu lembrava que em minha casa só minha mãe e o pé de manga rosa tinham o meu amor, as outras pessoas e coisas eu suportava e não as compreendia, elas sempre estavam vendo defeitos em mim e eu em troca criava, inventava defeitos pra elas, acho que também elas inventavam os meus defeitos, até dormindo tudo isso vinha, mas de uma forma mágica.
Correndo pro campo, de longe vi uma menina saindo de sua casa e me lembrei de RC, uma menina que no ano passado viera para a minha turma, a única coisa boa, além dos babas e da disputa de masturbação embaixo da ponte, que aconteceu comigo naquele ano de 1968, eu me apaixonei e o problema era que ela era rica e me detestava, loura, magra, nunca olhou pra mim, mas marcou para sempre as minha futuras escolhas femininas. Sempre louras e magras, eu estive a procura dela por toda a minha juventude em todas as mulheres, e depois que ela chegou, durante todo aquele resto de ano as aulas foram desejadas e esperadas com uma imensa ansiedade, não pela aula e sim por ela. Eu me lembro o seu nome, como algo que ficou, mas a sua imagem nunca mais me abandonou, eu tinha nove anos e tinha também um objetivo na vida: casar com ela. Meus sonhos, todos ou quase todos, eram com ela, e seu sorriso era pra mim a coisa mais bela, mesmo sendo para outros. Nós nunca nos falamos, mas até o fim do ano ela era a minha flor e ao lado da minha mãe e minha árvore e meus babas e meus amigos e minhas conversas com eles eu podia suportar até mesmo o meu pai e mesmo chegar a pensar em amá-lo.
As férias significavam babas e rio e roubo de frutas durante todo o dia e somente à noite a tortura chegava, mas quem se importava, apanhar era parte do viver e viver era bom demais, então que ele me batesse a vontade, depois era só esperar o bêbado torturador dormir e então tudo era festa.
Fui chegando ao campo preocupado com a presença ou não de RC na minha turma, será que ela iria continuar sendo minha colega? Eu esperava que sim, isso não precisava mudar, e avistei de longe Lau de Cozin e Davi de Ametério, dividindo o baba e gritei e Lau também gritou:
- Você é do meu time - E então eu fiquei aliviado, com Lau eu nunca perdia um baba, e eu sabia que aquilo era um bom sinal, RC iria ser minha namorada, eu ia ser um bom estudante e iria ensinar a ela, meu pai iria se cansar de me bater. A vida estava do meu lado e 1969 seria o meu ano, pois eu faria dez anos em junho e seria um homem.


ronaldo braga

quarta-feira, março 28, 2007

CARA DE ESCORPIÃO



Pintura de NELSON MAGALHÃES FILHO:
Cara de Escorpião, 2004 mista s/ papel 70X50 cm, que será a capa do livro de contos e cronicas CARA DE ESCORPIÃO de Ronaldo braga, a ser lançado ainda este ano de 2007.

segunda-feira, março 26, 2007

O CASULO

O CASULO um jornal literario com uma equipe de primeira incluindo a autora de um dos melhores livros de poesia dos ultimos tempos, o " RASGADA" a Ana Rusche,terá lançamento com toda pompa merecida e com uma tiragem de trinta mil exemplares, infelismente isso não é um acontecimento baiano e sim paulista, mas é Brasil. Quem tiver afim de conhecer de perto e não fôr a São Paulo é só conferir o http://peixedeaguario.zip.net/ e para isso basta clicar ai ao lado , pois é um dos blog indicados por Bragas e Poesia, o peixe é um daqueles blogs que vc entra e não deixa mais de visitar, o blog é da poeta Ana Rusche e ai não precisa dizer mais nada, no proximo mês( abril)irei publicar quatro poemas do rasgada com comentarios de dois poetas baianos.
Fica aqui o desejo de felicidade para os sortudos em poderem desfrutarem dessa rica publicação e aos editores e envolvidaos um muito obrigado porque é o leitor quem realmente sai ganhando e diga-se de passagem vai ser distribuido nas escolas municipais de São Paulo.Ana bjs e felicidades.

ronaldo braga

PRELAZIA DE SÃO FELIX DO ARAGUAIA

Dedicado ao meu irmão Pedro Casaldáliga Plá

Corro os olhos no trecho,
a procura de santos,
profetas e peregrinos,
que me levem a romper,
esses tempos de desolamento.

Porém,
meus olhos encharcados de lágrimas,
só enxerga:
Dom Pedro Casaldáliga!

Então,
rememoro o seu anel de urucum,
o báculo borduna de um guerreiro do Xingu.

Beijo,
daqui da Bahia,
de "Todos os Santos e Inevitáveis Demonios",
as suas mãos limpas,
puras,
como um diamante cravejado em meu peito de menino velho.

E o seu verso
me surge na memória:
"Eu
e tu, Araguaia,
somos um tempo só."

Em Ribeirão Cascalheira,
junto ao Santuário dos Mártires da Caminhada,
há 30 anos jaz o Mártir,
Pe. João Bosco Penido Burnier...

Indo assim tangendo quadras,
de tuiuiús baleados no peito,
de garças brancas colorindo a paisagem...

Pedro Casaldáliga,
caminha,
meu Poeta Irmão,
pelos caminhos de São Félix...
Zanzando nos caminhos do mundo.

Meu Santo brada:
"Tudo é relativo
menos Deus e a fome."

Dando testa
a tantos grileiros, inúmeros madeireiros,
à essa infinidade de pistoleiros,
gente suja e covarde,
acostumada a manter seus latifúndios,
e as capitanias hereditárias,
com seus crimes e servidão.
Parasitando o suor do Bugre,
do Nordestino,
do Lascado,
nesse fim de mundo,
com suas fazendas enlameadas de escravidão.

Dom Pedro,
em sentinela,
abominando toda esta exploração.

As terras indígenas nunca demarcadas,
a burocracia emperrando,
e os seus guerreiros na mata em desolação.

"E os rios,
estes rios outrora preservados na inocência,
cruzados pela lua e os pássaros e o vento,
rios de paz, de peixes, de livre liberdade,
agora profanados...
Araguaia, punido Berocá!
Xavantino aramado!
Tapirapé enlameado de turismo..."

Pedro de Pé,
sem abaixar a cabeça jamais...
Proclamando o Evangelho da Libertação,
nesses tempos de pouca fé.
E esses corações brasileiros,
embrutecidos,
pela sanha do "l'argent".

Pedro Santo,
canonizado em meu coração.

Pedro Profeta,
no deserto de sua Pregação.

Pedro Peregrino,
com seu rebanho de boa lã.

Pedro Poeta,
meu irmão Catalão.

MIGUEL CARNEIRO

Verão de 2007, Bahia de Todos os Santos.

domingo, março 25, 2007

TEZ

Quisera eu ter encontrado tua certeza.
A estrada da realeza em teu amor.
Que horror, meu Deus, é nua tua beleza.
Crua e louca, um estupor.
Quisera eu inventar um sinônimo pra mucosa.
Pôr no poema a transcendência de quem goza.
Mas a proeza de tua tez morena.
Não cabe na brevidade do mais belo poema.

ALYNE COSTA

sexta-feira, março 23, 2007

ZONA ESCARLATE

Qual a natureza
da tinta
que pinta
o absoluto
gesto brusco
que nos mantém
sóbrio
larva de inseto
astuto
dentro da fome
no cardume abissal...(??)
Busquei na descrença,
nos pés do arco-íris
no rabo do cometa
na saúde,na doença
no holocausto do planeta
no excremento fascista
no bafejo da morte
na loucura
na sorte (??)
da puta Madalena
que disseca o dilema
entre o bem
e o imoral
desta vida choldra
aninhada
no abscesso
de um invulgar
lodaçal...

Autor: LUCIANO FRAGA

PERNAMBUCANAMENTE

Eu quero me pernambucar
andar por Olinda
para ver o Homem da Meia-Noite desfilar
caminhar pela Rua da Aurora
onde aquela morena ficou a me esperar
ir no sebo do Brandão
correr tudo que é estação
e procurar a primeira edição
de Bandeira, Carlos Pena e Jomar

Eu quero me pernambucar
cair na bagaceira
até o Galo da Madrugada passar
procurar pelos meus parentes
os Carneiros Leão que vivem por lá

Pedir a Lia
que me cante uma ciranda de Baracho
e uma outra da Ilha de Itamaracá
vou conhecer o filho de Samico
dá um pulo em Bezerros
para ver J. Borges me desenhar

Eu quero é me pernambucar
quero revisitar Miguel Arraes de Alencar
que governou à contragosto dos militar
vou passear por Cabrobó, Tacaratu, Orocó,
Carnaubeira, Penha, Itacuruba,
Afogados de Ingazeira, Exu, Inajá
vou até Limoeiro, Lagoa do Ouro,
Santa Maria do Cambucá

Vou pedir a Luiz
para me cantar um baião,
aquele de José Dantas
e visitar Tamandaré, Cacimba do Padre,
Morro do Pico, Coroa do Avião,
vou zanzar pela Zona da Mata,
pelo o Agreste e pelo Sertão

Quero reler Avalovara,
vou mudar a minha cara
quero dançar com os índios Kapinawá,
Pankararu, Xucuru, Truxá
Quero viver em Pernambuco
Quero me pernambucar
Recordar Gregório Bezerra
rumar pra Serrita
e beijar Dom Hélder
para eu poder me humanizar
Quero viver em Pernambuco
Quero, quero me pernambucar

MIGUEL CARNEIRO

quarta-feira, março 21, 2007

CHEGA DE LEMBRANÇAS, DE FOTOS, DE MÁGOAS,DE DORES, DE CHEIROS, DE CACHAÇAS OU FOGOS DE ARTIFÍCIOS...

Não voltarei a falar sobre este assunto, portanto, é de bom tom que você esteja atento. Se bem que, não sei se o melhor seria você estar atento, ou a tempo, uma vez que o nosso bom e generoso tempo não anda mais ao nosso lado. Tenho a nítida sensação que o tempo acelerou os passos, nos deixando visivelmente para trás, ou ainda, correndo contra ele.

Volto a te perguntar, de forma irônica, o que nos fez deixar o tempo passar? Por que perdemos mais uma vez o trem da história ? Por onde você andava quando eu lhe procurava em todas as estações da vida?

Volto a te perguntar, de forma doce, por que eu não estava com você durante todo este tempo? Por que eu não estava, eu não era, eu não? Por que a sumária exclusão?

Chega de perguntas, uma vez que não quero ouvir as respostas... não quero ouvir... não quero...

Chega de lembranças, de fotos, de mágoas, de dores, de cheiros, de cachaça ou fogos de artifício ...

Vamos encarar, de cara, este novo lado do tempo, onde não temos mais tempo para recuperar o tempo perdido.

Você me olha de forma mansa e eu procuro lhe irritar, de forma única e intensa, com o objetivo de provocar a explosão dos seus sentimentos, de provocar, de dizer que não estou prestando atenção em você...

Eu quero muito, eu quero sempre e luto para assegurar que a cadência dos desejos se enquadre em seqüência progressiva.

Eu ando em roda viva para impedir que você siga os meus rastros, esta sua forma infame de dizer que está do meu lado. Eu não quero esta seqüência, eu vou alterar os quadrinhos, de trás para frente, para identificar como será o final.

Eu quero, eu preciso aprovar o final da história em quadrinhos, em pedacinhos de retalho que não se encaixam. Eu quero o prumo certo, eu não acredito que ainda tenha paciência para recomeçar uma história.

Não venha com palavras doces, não preciso deste mel que não me convence. Eu quero algo mais forte, um cognac, uma cachaça da cana que você roubou para adoçar as palavras.

Eu vou seguir a sua rotina, só para poder fugir dela, como uma forma de saber estar onde você não está, saber pensar o que você não pensa, saber sentir o que você se nega a perceber que passa pela minha mente.

Eu vou me lembrar de cada pedacinho da nossa história para que eu possa editar as imagens, sem o seu consentimento, sem ouvir a sua opinião, sem os seus olhos que insistem em me espiar.

Volto a lembrar para você não adote a velha fórmula de me ligar quando o sono está se instalando na minha mente, este momento de relaxamento e comunhão não mais lhe pertence. Eu assumi o comando da sua interferência, você não pode mais me surpreender.

Volto ainda a falar que todos estes pensamentos, verbos em tons imperativos, adjetivos, artigos e negativas contundentes representam uma nova tentativa de negar a sua forte presença em minha vida...

...Ou ainda, uma louca tentativa de negar os sentimentos mais nobres que retomam sempre no exato ponto onde um dia ousamos parar...



Maria Branco
20/03/2007

ENQUANTO AS VELHINHAS REZAM O TERÇO...

Enquanto as velhinhas rezam o terço, a tardinha cai divinamente nesta esperança que seus olhos têm entre uma e outra ladainha.E a dor que elas aprenderam a domar, com o tempo se esconde atrás das cortinas, dos crucifixos ornados que ocultam o martírio daquele homem morto pelo próprio homem.
Elas emudecem o sofrimento na luz das velas acesas nos castiçais e que choram por elas em suas parafinas. E nem se dão conta do bailar das salamandras.
E em diferentes cantos das casas se erguem oratórios, sagrados corações - de Jesus, de Maria e os delas mesmas - imaculados por um só monossílabo: Fé.
Um marido morto, um filho perdido, pra vida ou pro vício, um parente doente, uma dorzinha incômoda, de corpo ou de alma e eis mais uma novena, uma eucaristia, um jejum, uma missa e uma promessa.
Enquanto os dedinhos enrugados das velhinhas perpassam as continhas dos terços, os dias, os meses e os anos se passam, atravessando o tempo como galope de uma oração. Inexorável, alheio, por vezes cruel...
No final pouco importa a graça alcançada ou não, a saúde recuperada, a missa rezada. Recomeçam o ritual com seus vestidinhos de casimira... As mãozinhas deslizando pelo rosário, ora descançam sobre as alvas toalhas bordadas. Alvinhas como a esperança, tão sutil e sabidamente guardada em seus corações como uma ave-maria.
Qualquer tristeza se esconde e elas apenas aguardam com resignação. O que esperam? Uma visita de filho ou de comadre. A chegada da prima distante. A cura. A graça. O findar da vida.
Enquanto as velhinhas rezam o terço, os olhos parados dos porta-retratos parecem sorrir. E, de vez em quando, elas fecham os olhos e suspiram um alívio ao fim de um mistério. E dormem tranquilinhas enquanto ninguém desvenda o irrelutável mistério da vida. Para este os anjos em seus sonhos tocam harpas e entoam salmos.



ALYNE COSTA

terça-feira, março 20, 2007

CAPA DA REVISTA EM QUADRINHOS FÚCSIA



ESTA MARAVILHA É A CAPA DA FUTURA REVISTA EM QUADRINHOS FÚCSIA:
ARGUMENTOS - RONALDO BRAGA E NELSON MAGALHÃES FILHO
DESENHOS E TODA A CRIAÇÃO GRAFICA - EDERSON BATISTA

Obrigado Ederson a capa e toda a revista está demais muito bom, genial.
Ederson Batista um artista plástico que sabe das coisas.

sábado, março 17, 2007

MONÓLOGO DE CÃO

Quando você lança
um olhar
de céu sujo
com sinistras nuvens
de carrancismo
carola
sobre minha carcaça
rebelde,
a poesia que emerge
de dentro do estalo,
escapa pelo ralo
como o suor
que exalo
quando eclodem
execráveis segredos
desatinados enredos
para a morte das sereias.
Nas latrinas dos cubículos
o silêncio dos fetos,
em velhos caramanchões
pestanas imploram
debalde
o beijo avermelhado
na vagina depilada
durante o féretro
do dia.
Com vozes de barbárie
a cantilena dos bêbados
prossegue
escapando do tropel
de nostálgicos poemas
necessários
como a mágica de bordel
revelando
que seu rabo de olho
não me deixa
mais amolado...


Autor: LUCIANO FRAGA

SONO

Você dormindo de forma tão serena e eu com estes pensamentos vagos.... são tantos e tão intensos que temo que eles soltem da minha mente e agridam a sua imagem doce...

Não sei se é justo que você durma e eu fique te olhando como se você estivesse a parte de tudo isto, como se você não fosse o eixo destes meus devaneios... Como você pode dormir?

Será que este teu sono não é uma justificativa para não interagirmos? Não se preocupe, eu não vou te acordar, embora eu não entenda como você pode não estar ouvindo os gritos dos meus pensamentos...

Não se preocupe, pois embora eu tenha urgência de saber o que você pensa sobre tudo isto, não sei se estaria preparada para ouvir a sua opinião. Então, eu faço os dois lados da comunicação, com a vantagem de dominar as falas...

Este teu jeito sereno me causa espanto, pois não sei onde você registra a gravidades dos fatos que andam em curso... eu não entendo como você processa estas informações...

Vendo você dormindo nem parece que você sobreviverá... percebo a necessidade urgente de trabalhar as respostas e você nem se preocupa com isto, o tempo não espera e você parece ter todo o tempo do mundo.

Tudo bem, eu não te acordo, mas também não durmo, é como se eu velasse o seu sono egoísta, é como se eu tentasse apressar o seu estágio de plenitude... é como se eu reconhecesse a minha total impotência diante deste ato.

Eu vou cuidar de você para que o seu sono não me incomode... eu vou cuidar para que a sua vida não me incomode... eu vou cuidar para encontrar uma forma de dizer que eu não quero que você acorde antes de mim... preciso preparar a minha fuga, em silêncio, de forma continuada, cadenciada e na seqüência da sua respiração....

Eu preciso aceitar que nunca mais eu vou adivinhar os seus pensamentos, me sinto invadindo o seu íntimo e não sei como processar estas informações, você é culpado por ser tão previsível... tão objetivo, tão simétrico, tão linear....

Tento misturar os seus traços, inovando no desenho, ângulos agudos, obtusos, tangentes, retas difusas e você, num passe de mágica, coloca tudo em ordem com o seu descaso... por isto digo que você é culpado, eu bem que tento e não obtenho resultados...
Se você é culpado, como pode dormir tão tranquilo? Ainda acabo acordando, você ou eu...

O importante é ter a certeza de que os sonhos serão interrompidos, de forma punitiva pelo seu descaso com a minha insônia.


MARIA BRANCO

sexta-feira, março 16, 2007

MENINAS DO SERTÃO

Meninas do sertão


As mãos cansavam ladainhas em recorrentes febres, e a morte de todos os desejos calava o mundo anil das meninas enjauladas, e anseios e suspiros insistentes negavam tristezas nas peles eriçadas de sonhos, em um mundo de devaneios, desdenhando futuros em luas roucas, com seus medos a transitarem soltos nos dias negros do querer.
Elas postulavam silêncios em olhares atrevidos e palavras surdas reentravam desejos em corpos esquecidos.
Ao longe, romeiros praguejavam amores em suores covardes, e suas tristes músicas, eram ameaças à vida que teimava brotar em secos olhos. E ódios reativados, e impotências, desfilavam nos humores dos perdedores funestos e malditos, com suas sinfonias de mortos.
Pássaros caminhavam melancolias em passos úmidos e cheiros de amor e canções embriagavam encontros de outrora. Os seios cansavam odores e os olhares teciam esperanças nas raízes loucas e hemiplégicas e os corpos esquivos de imanentes eretísmos suavam negações nos cantos inelutáveis e constitutivos de todo sofrer. E sofrer, era a salvação e a vida, daquelas miragens eróticas de cantar salmos e preces, com seus loquazes medos a transpirarem sexo por toda terra fatigada de sangue e ferro e dor e fome.
Os dedos suspiravam descansos e entregas nos montes noites de estrelas cruéis e violetas, e as mães suspiravam desprezos e em recônditos pensamentos amores invadiam anomalias e ventres e as faziam sorrir terra e cores e rios e passados de violentas paisagens.
As meninas em clivagens serenas, cantavam medos desérticos e amores sonhados em úmidas palavras vãs, e escondiam gozos em seus rostos de prazeres invertidos e insulares, nos tempos soltos e movediços, a escurecer risos e tremerem sonos, nas noites sem esperas, de ausentes beijos a chorar lamas em camas frias, e sonharem céus e deuses numa desesperada peleja de peles e bocas, cantando esperanças, e roubando salvações de um sono concupiscente. Seus sonhos perdiam alegrias e as faziam expulsar homens e bichos e mortes, e para sempre silêncios. A reza, lugar comum: onde todos os sentidos eram adormecidos, e a vida perdia sorrisos e dores pululavam existências em canções de morrer.
Não haviam sorrisos soltos nas infâncias esculpidas em medos, só o esperar de noites e dias, calavam choros futuros e vomitavam alegrias em loucos transes.
Pesadelos difratados rompiam madrugadas e flores tristes buscavam jardins em cactos polimorfos e gentis.
As meninas dormiam cruzes.
E os meninos masturbavam salmos em correrias anêmicas.
Um silêncio quente resfriava sentidos no sertão brasileiro.

Ronaldo Braga

quinta-feira, março 15, 2007

TENDAS

São as tais folhas dispersas
No registro de um outro
Essas mesmas linhas sem pausa
Que me fizeram estranho dentro daquela vida.

Minhas doces meninas esconderam as faces
Rumo ao destino resignado.
Lastimaram pra dentro de si
O azar de não poderem rolar lágrimas visíveis.

Reinvenção do amor?
Causa impossível.
Arranjo uma lista de negações prontas
Como quem é incapaz de cobrir vazios.

Varredura insone do olhar.
Fecho as páginas do mundo à parte.
Minhas doces meninas, sempre mulheres
Se ocupam de varrer a poeira pra dentro da alma.


autor - Fabrício Brandão (editor da revista cultural eletrônica Baratos Afins)

www.baratos-afins.blogspot.com

quarta-feira, março 14, 2007

DIA DE FEIRA

Procurei a dona da noite
não encontrei
nem um dia.
Quis tomar emprestado
mesmo que fosse
um domingo
ou qualquer outro
feriado
um dia de férias
ferido
no meio da feira
de sábado
fartura
verdura
o chão escorregando
feito quiabo.
A mão no bolso
alguns poucos trocados
as pingas que engulo
nos botecos e vendas
vou deixando penduradas
a carne com osso no açougue
o pescoço,o tutano
escorre no fio do machado.
O pão,a linha,o pente
a fita,as frutas
o doce das crianças
vão ficando
só na vontade...
Vazio
vou voltando
tropeçando,caindo
embriagado
levando restos estragados
do antigo mercado
ao cair da tarde
sem a luz do sol...



Autor: LUCIANO FRAGA


________________________________________

SEM ELA A VIDA DOÍA TANTO

A prova de matemática descia pesada e nas entranhas da minha memória pássaros verdes cantavam em cores, e mangas - rosas desafiavam sabores, em tardes de solidão e sonhos. A prova anulava os meus sorrisos de menino e trazia a certeza da dor e, como em todas as provas anteriores, descartava realidades queridas e persistia pesadelos em mais um zero anunciado, e uma professora que calava sorrisos em impotências demonstradas de autoritários modelos, e nos meus lábios, lágrimas pretas desenhavam esquivas de mais um namoro perdido.
Na porta, cinicamente sorridente, Beto Biriba avisava o baba de todo dia e a mestra ainda chorava verdades em tábuas rasas e nojentas e de seus olhos vampiros, risadas e tormentos assassinavam todos os meus jardins.
Na minha frente, a garota mais linda ensaiava uma pesca e sorria desdém pra mim, em mãos tulipas e jasmim, e doía tanto ser assim, e eu sonhava seus beijos em venenos de noites claras, com anjos calados e suas nuas rosas loquazes, e imergia em eretísmos ausentes, e doía tanto ser assim. E fugazes folhas cheiravam recusas nos meus olhos apressados e a tristeza cantava minha alma em cântaros, sobre rochedos de mares esquecidos e desalmados.
A prova devastava meus humores e comprovava autoridades e cansava concupiscências silvestres em uma homeostase fecunda de plantas exóticas, mas só o desprezo dela doía em mim, e doía tanto ser assim. E bichos e raivas e mortes e brigas povoavam minhas inocências traídas e ela não sorria pra mim e a prova não sorria pra mim e sua recusa era mister e fazia densa a luz de todos os mundos e todo rosto, sombrio. E doía tanto em mim ser assim.
A sala, enfim vazia, teimava em ausências de imanentes fugas e a prova em branco alongava gládio ascético em interstícios solenes das minhas outras memórias, era ela e seu belo sorriso a povoar minha mente e aceder desejos agonísticos, mas sua voz azêda desnudava mundos e recitava passados inelutáveis e para sempre inexistentes, e os futuros perdidos brincavam, enquanto ela sorria desprezo e para mim só mandava distâncias, e eu sabia que sem ela a vida doía tanto.
Um zero sorria minha história e o baba perdido sorria minha dor e em beijos anêmicos meus passos tropeçavam manhãs.
Beto Birita insistia em uma porta quadrada e seu corpo molhava a bola e a prova esquecida trespassava agruras de ruas cantantes, onde bêbados poetas voavam amores em eternas redes alcoólicas. E sem ela a vida doía tanto.
Cesura marcava meus passos em fluxos cansados e flores dançavam estrelas pesadas no meu caminho. Sonhar quedas e sonhar amores ingratos: meu cérebro em constantes explosões recorrentes insistia em elidir belezas por toda uma eternidade, enquanto a professora gritava silêncios e afirmava importâncias e zelos em tristes dentes a soletrarem desgraças de infâncias gastas por solenes leis.
A turma reincidente postulava outros tempos. E tempos mágicos importavam sonhos e assustavam medos em salas de ferrão. E eu sabia que sem ela a vida doía tanto.

ronaldo braga

segunda-feira, março 12, 2007

TEXTO PROMETIDO

Todas as tarde eu faço o ritual que definimos como sagrado em nossas vidas, e você nunca está presente, embora eu tenha lhe convocado diversas vezes...

Na verdade, esta sua forma presencial por vezes me deixou incomodada, pois se trata de uma presença incontrolável, já que eu tenho você comigo durante todos estes anos e não tenho nenhum domínio sobre este fato. Mais uma vez você ditando as regras, de forma tão imperativa. Acho que este aspecto foge ao ritmo que tentei impor à nossa relação.

Eu sempre quis tê-lo comigo, o ideal seria transformá-lo em pílulas de conhecimento e criar uma rotina para que fosse cumprida em determinados horários....

Não que eu esteja subestimando a sua forte presença em minha vida, não entenda também como um ato egoísta de dominação... isto jamais ...

Na realidade tenho necessidades específicas e verdadeira paixão pelo conhecimento...o conhecimento acadêmico, da alma, dos sentimentos mais profundos e principalmente da capacidade de processá-los ( não sei se esta capacidade e dom que lhe é inerente, seria passível de transformação em pílulas... ) só sei o quanto preciso e persigo esta idéia...

Não sei o quanto você pode perceber estas lacunas... não sei...
Temo que estas lacunas sejam preenchidas e coloque por terra o sentido da busca...

Eu quero mais, eu quero sempre e não economizo nos desejos. Eu na verdade alimento o real crescimento destes.

Às vezes penso o quanto o tempo vai se esvaindo e você não chega... o ritual prossegue sem a sua presença, sempre. Desta forma, quase uma rotina insuportável, quase um princípio da percepção da insanidade que regem as nossas mentes, quase uma cerimônia, quase um encontro de almas .isoladas, afins, incansáveis e desafiadoras... o ritual que você não enxerga, que você ignora, que você finge não ter conhecimento dos fatos...

Eu te perdôo hoje e sempre, pelo simples fato de que dependo de você, embora conteste, dependo da sua bondade divina para sobreviver às intempéries da minha alma... dependo da sua aprovação para atingir o grau máximo da pureza dos pensamentos... dependo de você para atingir a liberdade literária, o grau máximo das incertezas que movimentam o universo e revelam todo o inconsciente...

Você nunca imaginou que nossa conversas atingiria este nível de confissão, você não imaginou nunca que eu voltaria a tocar neste ponto... portanto, já que tudo assumiu um caráter irrevogável, posso finalmente admitir que você jamais terá acesso a estes pensamentos insanos.




Maria Branco
09.03.2007

SERENÍSSIMO

Não há nada de novo
em meus poemas.
A não ser os meus poemas.
Nenhuma verdade,
textura ou relevância.
Nenhuma importância.
Apenas o bálsamo da aurora.
Não há nada de novo
em meus poemas
embora eu resista
em meu modo próprio de existir.

Gustavo Felicíssimo

DE MIM

Uma serpente me incomoda a noite
Dançando dentro de mim
Um baile atônito
Entrelaçada entre minhas feridas
Degusta minhas entranhas e me faz mansa
Assobia os meus segredos aos quatros cantos
Revira todos os meus mundos
Intestinos, gota, apêndice
Lustra o sótão da minha alma
Me desnuda sobre estradas e avenidas
Me traz lembranças, ira...
Soterra meu ego e me mostra crua
Uma serpente dança um tango argentino
Pisa de salto nas minhas angústias
Me atira facas
Me oferece maçãs
Ri das minhas preces
E depois ganha asas e voa
Me sobro em várias
Desmascarada e histérica
De quantas faces são feitos meus sonhos?
Quantos caminhos para os meus ais?
Uma moto passa...
Um trem-de-ferro apita...
Uma fumaça bruma a cidade.
Nua em frente ao espelho
Eu quase sou
Eu quase vou
Quase serpente
Quase em frente
Eu quase esqueci –
De mim!



Alyne Costa

quinta-feira, março 08, 2007

BALADA DA MINHA DOR

Eu sou um cão vadio sobre a face da terra,
Farejando no ar tanto indignação.
Eu lambi as feridas de São Roque,
Levei o seu precioso pão.

Eu fui o cão de caça do palácio de Gotardo.
Transitei num tempo de peste,
e nas colinas ao Leste,
quando me buscaram,
eu estava distante cravejando minha presa no calcanhar do Cão.

Eu estive com São Lázaro,
e testemunhei a sua ressurreição
Por longas décadas andei de pelo caído,
de sardas espalhadas pelo chão.
E nem por isso abaixei o meu focinho,
nem deixei que o carinho,
diluísse nesses tempos de completa podridão.

Eu permaneci ligado,
Algumas vezes travado:
de haxixe, maconha e bom bocado.
Nesse condado repleto por putas, veados e ladrões.

Eu vi a miséria tomar conta de meu país
e nem assim me exilei,
eu aqui fiquei.

MIGUEL CARNEIRO

FRASES FRASES FRASES FRASES

Como é possivel deduzir qualquer coisa do fenômeno geral da dominação da classe burguesa. O que faço é o inverso: examinar historicamente, partindo de baixo, a maneira como os mecanismos de controle puderam funcionar; por exemplo, quando à exclusão da loucura ou à repressão e proibição da sexuialidade, ver como, ao nivel efetivo da família, da vizinhança, das células ou níveis mais elementares da sociedade, esses fenômenos de repressão ou exclusão se dotaram de instrumentos próprios, de uma lógica própria, responderam a determinadas necessidades; mostrar quais foram seus agentes, sem procura-los na burguesia em geral e sim nos agentes reais ( que podem ser a família, a vizinhança, os pais, os médicos, etc,)e como estes mecanismos de poder, em dado momento, em uma conjuntura precisa e por meio de um determinado número de transformações, começaram a se tornar economicamente vantajosos e politicamente úteis.
( TEXTO DE MICHEL FOUCAULT extraido do livro MICROFÍSICA DO PODER pag 185 segundo paragrafo)

SEM TITULO

Minha arma é um velho bacamarte
cheio de pregos,
bolinhas de rulimã,
pedaços de vidros
e outras quinquilharias
para esburacar
o chiqueiro:
das madames
e dos velhos coronéis...

GIORDANO DINIZ
para o poeta Luciano Fraga

ECLIPSE DE FLÔRES

Chove nos paralelos
sob o céu de Jamb
enquanto
mantenho uma relação
promíscua
com a arma
púrpura
da madrugada...
Apavorados
meus pensamentos
de harpa
fenecem
enfileirados nas galés
até perderem
os últimos fios
dos cabelos
pelo açoite
da insônia crônica.
Meio encolhido,
encalhado
transpiro
e trituro este mundo
pardo
como prostituta
que sobra
e afunda
quando acorda
nas horas vagas
mastigando vidro
percebendo que não dublava,
que é presa dócil
Rosa fácil
quando cercada
por ruínas de arame
elétricas e farpadas
na surpresa
da noite
mareada...

Autor: LUCIANO FRAGA

terça-feira, março 06, 2007

FRASES

FRASE 1

Sabemos que debería haber un lugar mejor,
un lugar más simple
pero lo no hay,
ese es nuestro secreto
y no es
gran cosa

frase 2

Crear arte significa
estar terriblemente solo,
para siempre.

Frases retiradas do poema EL TRIVIAL CAFÉ DEL MUNDO de CHARLES BUKOWSKI

segunda-feira, março 05, 2007



MAIS UMA PAGINA DA REVISTA EM QUADRINHOS fucsia
ARGUMENTOS - RONALDO BRAGA e NELSON MAGALHÃES FILHO
DESENHOS - EDERDON BATISTA

domingo, março 04, 2007




O ator afro em foto de NMF na peça ESPERE ATÉ A ULTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO
texto criação coletiva do grupo ANJOS BALDIOS
direção - Nelson Magalhães Filho
COLABORAÇÃO na direção de ator - Ronaldo braga
LOCAL - Cruz Das Almas


esta é mais uma pagina da futura revista em quadrinhos: FUCSIA
Desenhos - Ederson
Textos - Ronaldo braga e Nelson Magalhães Filho


mais um trabalho de ederson no textro teatral FUCSIA De Ronaldo Braga e Nelson Magalhães Filho, ele vem trabalhando na criação de uma revista em quadrinho da peça FUCSIA.

sábado, março 03, 2007

LUGAR COMUM 2: PONTO DE FUGA

os dois olhos pequenos arrepiados
ainda molhados pelo jumento do sonho.

os dois bicos de seio assustados
nas tramas do tecido grosso.

dos quatro pontos faiscavam paralelas
que se cruzavam muito longe.

paralelas que se cruzavam muito longe,
onde o arco - íris fincava suas cores,
onde as calcinhas rosas se fundiam aos lençóis,
de onde todos os desejos desenhavam perspectivas

ANA RUSCHE, poema publicado no livro Rasgada em 2001 S. P
e extraido do blog de Ana Rusche www.peixedeaquario.com/

SALTOS, SAPATOS E A VARIEDADE DO SER

Eu nunca pensei em colecionar sapatos, afinal, pelo ponto de vista genético, esta certamente não é a minha mais forte aptidão.

Tenho horror a coisas muitas, o pouco me basta, ou basta-me às coisas, não muitas, mas variadas. Este é o ponto: VARIEDADE!. Isto sim: tenho sede de variáveis não pré-fixadas, daquele tipo em que o valor não é fornecido, levando automaticamente a um processo de investigação. Isto mesmo, INVESTIGAÇÃO!

Nunca entenda este processo com o sentido mesquinho da bisbilhotagem, isto nunca! Investigar sempre de forma científica, esquema técnico de laboratório.
Pelo que te conheço, você já está imaginando aqueles frasquinhos borbulhado, cheio de líquidos coloridos, mas não é nada disso. Quando digo laboratório, na realidade me reporto ao processamento das informações, a seleção minunciosa dos elementos que fazem parte do elo sistêmico.

Sei que te assusto neste final de tarde, início de noite e aquela sensação de que tudo se esvai... aquela sensação de que devo cuidar para que você não passe, se passe ou me passe, afinal a idéia é do caminho paralelo, com breves encontros que nortearão sempre o sentido da busca...

Continuo buscando, em breves passos, muitos sapatos, muitas palavras, muitos sentidos e sempre volta aquela velha certeza de que tudo isto pode não te levar a lugar algum.

MARIA BRANCO
(TEXTO DEDICADO PARA QUEM AINDA BUSCA...)

TRANSE

Pra Noélia

Como é doce a lembrança de outras faces
e mais doce ainda a presença desta
que ao encontrar em meu ser uma fresta
adentrou de mansinho, sem disfarces.
Delícia que me leva à realidade
firma a certeza na ilusão vivida,
pois se é nula a confiança nesta vida
frustrada está, então, toda a verdade.
Não tomei nota da palavra medo,
esse colosso que atormenta e cega,
assim vivo o que ao homem não se nega:
inundo planaltos e quedo cedo.
Embora sinta a rigidez da morte
insisto em ser senhor da minha sorte.

GUSTAVO FELICÍSSIMO

sexta-feira, março 02, 2007

CARA DE ESCORPIÃO

(este texto já foi publicado no blog mas está sendo publicado de novo em homenagem a José Narciso O Zeca de Magalhães que tambem era chamado de Kazé, falecido recentemente. pra vc meu amigo de fé a eternidade nos espera.)

20 paus era tudo o que eu tinha no bolso. fui a um sebo e ataquei o vendedor de primeira. - ator e método de eugênio kusnet? - não,não temos. aí um cara que eu fingi que não vira na entrada. - e aí cara como vai! - me deixa, disse eu, - não gosto de canalhas fidalgos, puxa saco de político, defensor de corrupto. - eu gosto de você. - não falo com falso cara de escorpião. -você é injusto, eu lhe tratei muito bem quando nos conhecemos. o cara fizera parte do movimento poetas da praça em 1979 e eu também. o medíocre movimento acabara. o cara dera entrevista para jornais e esquecera de citar o meu nome na relação de poetas. os merdas me esqueceram, eu ficara feliz. - eu sou o mesmo, eu gosto de você. aí eu perdi a paciência e já com o diabo na mente retruquei. - aqui eu não parto a tua cara, mas lá fora eu posso conversar. o dono do sebo me olhou como dizendo quebra a cara dele. - eu não brigo,sou poeta. então eu senti um nojo danado daquele falso poeta cara de jesus e olhei em frente e vi notas de um velho safado, era uma edição nova. o velho buk. respondi irado e determinado. - me deixa em paz senão eu vou te dar uma surra. o cara rapidamente foi para a sua mesa e eu para o vendedor. -quanto custa? - 18 paus. o onibus 2 paus. comprei e aí me lembrei que eu estava esperando uma jovem gostosa atriz. ela teria que pagar os cafés, eu não bebia mais álcool. de primeira li a primeira página era sobre um jogo de cartas e terminava com o buk levando uma tremenda surra e acordando vomitado e de ressaca. eu quase levara uma surra.
ela chegou. apertei seu corpo ao meu. ela prolongou o aperto. eu estava feliz e esquecera o imbecil cara de jesus. infelizmente papel não recusa palavras. o mundo está cheio de merdas que se autodenominam poetas. uns boçais com discurso bonito para as meninas caras de cús enraivados e abandonados. elas adoram merda no papel e copiam frases e repetem por aí. eu estava ali com uma garota de 23 anos gostosa bonita que cheira a mulher que gostava. o mundo agora era uma merda boa e confortante. ela falou de seu namorado. de seus projetos e acertamos fazer juntos uma peça do bergaman. cenas de um casamento sueco. eu com 47 anos casado e fiel. no palco com ela meu pensamento poderia ser mais ousado, mais ousado ainda. lembrei de M uma grande amiga e voltei a me ocupar da bela mulher que eu ao meu modo gostava muito. eu sou fiel e casado com uma bela mulher senão. nem quis pensar o que ela achava de mim. vai me complicar. tomamos um café. o meu sem açúcar. depois outro e outro. o cara de bosta de político e de jesus disse de lá da sua mesa para mim. - vc já foi visitar senhor X. eu nada falei e tive que explicar todo o acontecimento para R.C. fiquei zangado de novo. senhor X um reles poeta medíocre estava morrendo que morra, mas eu respeito a morte e não tenho piedade nem pra babacas. não iria lá e dizer. aí senhor X morra porra. ficava de longe e nem pensava na porra da morte dele. voltei a bukowski. falei de melodia de agosto e de um grande poeta que eu descobrira, o luciano fraga, e fiquei feliz de novo. ela me deu um presente o livro de bergaman e um beijo. eu estava nas nuvens. babacas podem existir à vontade. como é bom estar na merda desse mundo. o cara de jesus foi embora. o cheiro do lugar melhorou e o cheiro de R.C a jovem atriz inteligente e gostosa dominou meu nariz e todo o meu existir eu era a porra de um homen safado. hein buk. sabemos viver. decidimos ir visitar senhor K um poeta de verdade. um cara que dava um duro danado pra pagar as contas. não entregava os pontos. um poeta que escrevia a melodia das ruas. do submundo de toda a sinceridade da merda do viver e tinha beleza e ritmo. ele desloca a bobagem do significado a sua poesia cheira a vida. garra e coragem. senhor K é casado com uma grande poetisa e contista de qualidade acima da média. eu adoro ler senhora I. ele demorou e chegou baforido é assim com o senhor K ele sempre chega baforido. chegou esbravejando e pregando o voto nulo. é isso aí senhor K bata forte nesses canalhas de esquerda e direita. parasitas e sugadores da vida. a morte é o que eles amam a morte e a doença. eu gosto da porra da vida. uma boa merda. eu gosto. a vida com tudo o que tem de perigoso e de merda e de bom. eu sou um forte. um cara de escorpião. R.C. me levou e esperou o meu ônibus chegar. fui pra casa e no ônibus pensei em kerouac um viajante nem sempre solitario. em nietzsche muita além do bem e do mal. foucault e sua vontade de saber. em heráclito e sua capacidade fenomenal. em bergman e sua maldita mãe. em zinaldo e sua música que eu adorei ouvir em alice. em pablo um médico que sabia das coisas e no bom e surpreendente poeta luciano fraga. no bom poema de patrícia mendes e no meu especial amigo nelson magalhães. nos meus filhos na minha bela mulher. em uma boa música clássica e no meu sobrinho caio um músico para ouvidos refinados.
pensei e pensei que eu não estava morrendo. era somente a confirmação de que nos meus infernos preferidos cruz das almas e salvador, existiam além das desgraças que se intitulam poetas, professor de filosofia e outras bostas de político. existia gente que me dizia. ronaldo viver é bom. a merda do mundo cheira a merda e a vida que bom. eu sou um cara de escorpião e amigo de lakarus sei descobrir um bom sorriso em um cú. eu não sou a porra de um homem oco e nem empalhado. eu tenho o que ler, amigos para uma conversa e os porras empalhados que se fodam ou não. cheguei em casa e beijei minha linda mulher. o mundo pode ser uma grande merda mas essa mulher é minha.

cronica oferecido a buk e a nelson magalhães.e especialmente ao senhor K que é o poeta Zeca de Magalhães.

ronaldo braga.

DECLARAÇÃO

Eu não farei o gesto de Vicente
nem mandarei minha orelha
como prova de amor
para que tu possas silenciar
Guardo enfim a navalha afiada
no bolso do casaco
E entendo que o algoz
não merece cortar a sua jugular
Nessa terra de tantos bandidos
de fudidos
que a mídia burra
promove sem cessar
chegou o tempo em que não vale mais a pena, pirar
Eu não farei o gesto de Vicente
nem imitarei Maiakovisk
para puder te provar
De que o meu amor
é mais grandioso
do que qualquer farra em mesa de bar

MIGUEL CARNEIRO

CALO DE SANGUE

"...há bons,por não poder ser insolente..."
G. de Matos

A vida é um disparate
o aperto...
O alicate
nos dedos do alfaiate
que costura a dor
com agulha do tricor
na pele de tomate
no couro do tambor
no lombo da crioula
doida que apanhou...

Vida: triste doçura
nas janelas da amargura
na casa de botão
das varandas do senhor.
Na visão do desperto
não há caminho incerto
ou contradição
entre o bobo e o esperto
o banido
e o ladrão...
Perdi o sono,
no derradeiro beco,
sem saída,
caído
vou tangendo
a agonia das flores,
pulsando
entre os trastes
e o turbilhão de contrastes
de quem me cerca de amores.
Golpeando a noite
sigo,
lapidando esta vida,
entre os de horas contadas
sem sorrisos na chegada
com a ânsia desesperada
nas sombras da partida.
Estou de volta à caverna
como um urso que hiberna
sem saber
onde pisar...?


Para: Giordano Diniz (vovô)

LUCIANO FRAGA

quinta-feira, março 01, 2007


A atriz Rosa interpretando a Mãe em: ESPERE ATÉ A ULTIMA CHUVA ROER SEU CORAÇÃO, texto criação coletiva, direção Nelson Magalhães Filho, com a minha colaboração na direção de atores, figurino e cenário de NMF. Este espetáculo aconteceu em Cruz Das Almas e eu espero que ele continue em cartaz uma vez que é um belissimo espetaculo teatral, aliás a foto fala por si.(foto de Nelson).

QUANDO NASCEMOS

"quando nascemos,choramos por estarmos chegando a este grande palco de bufões..."
Shakespeare-Rei Lear

Olhos perecíveis
despejam faíscas
nas lâminas das facas
que amolo
para recortar
efêmeras mortes
com as quais decoro
crepúsculos monótonos
que ejaculam
fecundando meu quarto,
lambendo a melancolia
que goteja
na estranheza
da carne muda
que maltrato.
Sem que ninguem veja
faço delas entulhos
que desidratam com pétalas
que acumulo
sobre móveis sem verniz.
Ouço quando alguem diz
com a voz em falsete:
- as artérias não suportam
nem mais um alfinete.
Agônico,
ainda rabisco
um obsceno bilhete
com o próprio sangue
narrando meu breve fim:
prematuro...

LUCIANO FRAGA


(Crua Cruz das sem almas, limite das possibilidades de viver, o poeta LF vem com a sua poesia criando e mantendo jardins de sonhos e flores em cruz das almas, uma cidade de cultura branca e assassina, onde corromper, puxar saco e ser preconceituoso são qualidades premiadas todos os dias em um concurso macabro para ver quem gosta menos de si, e cruz tem mediocres demais, por isso esse concurso é sempre concorrido. Mas por outro lado poetas de verdade vem regando com carinho as almas e cantando a carne na sedução do desejo e do viver, luciano, nelson, patricia: vem com um trabalho por demais penoso carregando o fardo de manter as almas nos corpos cruzalmenses, enquanto houver poesia, haverá céus nessa cidade das sombras. obrigado poetas.(ronaldo braga))