segunda-feira, fevereiro 05, 2007

NA MADRUGADA DE CÃES AZUIS, O MEU ESTOMAGO ERA UM RATO FAMINTO

Crianças comendo luas e chorando pântanos e sóis, velhos arrotando planetas, e mulheres sonhando príncipes. Eu me arrastava no pesadelo do amanhecer e sorria estrelas e desejava encontrar o dia que teimava em não vim.
Já há alguns dias eu me contorcia em um mundo vermelho e me acreditava em um sonho de morto. Nuvens de meninas assexuadas sobrevoavam o meu céu e ameaçavam desabar. Na casa tudo era normalidade e visivelmente embriagado eu olhava para todos os lados buscando uma lucidez possível e naquela madrugada de cães azuis o meu estomago era um rato faminto. Eu não esperava o pior e nem o melhor, eu nem esperava nada, eu esperava apenas o amanhecer degenerado, mas, era a lua bêbada, e a noite com suas estrelas voadoras, que me acariciavam com lufadas de cortantes ventos uivantes e roxos.
As cenas de antes de tudo pesavam a minha cabeça e queriam me deixar culpado. Eu não ofenderia Deus e nem o diabo e nem o governo. Eu esqueceria todos os falsos poderes e me concentraria simplesmente no meu próprio discurso de poder. Loucura? Lucidez extrema? Voltei ao meu momento e estudei atentamente o ambiente. Comecei pelas paredes que dançavam um tango, e nem se importavam com o perigo de derrubarem o telhado, e como dançava bem, tive que reconhecer. Continuei a observação e o mobiliário completamente bêbado brigava entre si, e de seu corpo, bichos verdes e flores saiam chorando e sumiam nas meninas. Os ratos riam de minha cara e apontavam a minha barriga. As telhas soltas rebolavam um samba cadenciado e romântico e contorcidas, sensualizavam todo o ambiente.
Os meus miolos cerebrais ensaiavam uma conversa e uma dor inacreditável me trouxe uma infância maldita, e um rio caudaloso tentava me levar. Eu tinha que ser duro, e pensei numa professora do primário, feia e arrogante, e comecei a rir e o meu riso, como uma outra pessoa me cobrava respeito. E eu sorria sangue coagulado e podia ver a rigidez imbecil de todas as professoras e professores.
Onde eu estava? Eu queria saber. E tomando mais um gole de uma bebida preta e silenciosa eu percebi. Cruz sem almas. Sim. Cruz sem almas era onde eu me encontrava. Agora eu entendia tudo, e ali à minha esquerda, as cruzes carregavam seus cristos em um silencio doentio. Para onde foram as almas? Fugiram? Não suportaram tanto corpo sem cores e sem musicas? As almas lamurientas fugiram para a noite cerrada do amanhecer eterno, e buscavam as meninas de outrora com seus sexos molhados e famintos. Eu chorei, chorei e chorei. E as cruzes e seus pesados fardos me faziam chorar e chorar. Porque carregar tantos cristos? As cruzes resignadas continuavam seus caminhos pra lugar nenhum. E eu chorava tardes inteiras com todas as arvores e babas e brigas e pedradas e muitas outras tardes. Cruz sem almas eu estou preso no seu passado, na sua origem. Eu estou preso em um erro de calculo, em uma punição do tédio, e posso ver seus agrônomos covardes e suarentos, seus falsos poetas, seus comerciantes e seus sorrisos pegajosos. Cruz sem almas eu preciso de algo que me prenda no solo e me faça voar. Eu preciso dos caras de escorpião.
Uma musica bem longe eu comecei a ouvir e eram poetas de verdade que se avizinhavam, e as cruzes sorriram e fugiram com seus cristos pesados e tristes.
Era manhã e uma poesia podia ser ouvida. E eu pude chorar uma ultima vez e ver as cruzes desaparecerem.
Cruz sem almas eu não choro por você.
Ronaldo Braga.

Para cruz das almas cidade das almas em fugas.

4 comentários:

luciano fraga disse...

Ronaldo,aqui nesta cidade num ponto bem afastado,descobrimos um boteco onde os clientes fecham suas contas e um "RED- BOY"com 68 anos nos mostra um outro lado da vida,livre de todas as cruzes.Venha conhecer.Belo texto.

Anônimo disse...

É rapaz, o RED-BOY parecia o homem-elétrico, dava choques fortíssimos nas pessoas, e ainda carregava uma faca nas costas. Além do mais é um rezador do Corta-Jaca, vende bananas na feira livre, canta, toca diversos instrumentos, o verdadeiro herói da roça, puta-madre!

rede boy disse...

aqui em cruz quem comanda é a vida dos que não tem medo de viver

Anônimo disse...

bom comeco