quarta-feira, janeiro 31, 2007

A PRINCESA DO ESGOTO

Era um dia comum, exatamente igual a qualquer outro dia: chato e modorrento. Pessoas passavam por mim como se fossem morrerem no minuto seguinte e tivessem medo. Nas suas caras eu via o ódio, a frustação e acima de tudo, eu via o pavor. Era um dia para comemorar a mesma merda de sempre: estar vivo. E não ser como aquele rebanho humano, que carregava suas vidas como um fardo, E demasiado pesado.
Tentei sorrir e muito sangue escorreu da minha boca, meus dentes podres e malcheirosos estavam inflamados, e agora também doíam. Vasculhei o bolso, encontrei o suficiente para uma cachaça, entrei na bodega mais próxima, um homem sujo, mal encarado e sem nenhum dente me disse aos gritos.
- O que quer?
- Uma pinga com limão.
- Com limão não tem. Tá pensando o que? Que é o presidente da república? Só tem pinga e paga adiantado.
Joguei no balcão 50 centavos,
- Coloca tudo? - Ele gritou -
- Tudo o que der esse dinheiro –Eu disse -
Ele encheu o copo.
Fui para uma mesa e fiquei ali a bebericar a minha ultima fortuna e então ela apareceu: Loira, suja e quando falou o seu hálito podre veio até a mim.
- Uma cachaça.
O homem respondeu.
- Nem pagando dobrado.
Ela ia gritar quando eu falei.
- Aqui tem pra dois.
Ela não era a mulher que eu sonhara, mas era uma mulher. E eu precisava de uma. Seis meses somente na individual, não dava mais. Ela sorriu, fez charme e disse.
- Não sou fácil, com uma cachaça você não me compra.
Eu fui logo direto.
- Se quiser tomar mais cachaça, eu sei onde tem. Mas você tem que pagar, todo o meu dinheiro era esse.
Ela me olhou, fez outro charme e sentou. Bebemos e conversamos. E ela queria saber quem eu era. Eu disse.
- Vagabundo.
- Vagabundo?
Ela gritou como se ouvisse uma palavra perigosa, e ficou em silêncio um ou dois minutos e depois disse com muito charme.
- Um vagabundo charmoso. Vem meu vagabundo, eu tenho dois reais vamos beber e depois eu vou te mostrar a mulher que eu sou. Ela se chama Lúzia e sabia o que queria.
Foi uma noite maravilhosa.
Nus, amamos a noite toda como dois pombinhos. Evitamos o beijo na boca, não tanto pelo mau cheiro, e sim por dores horríveis no lugar.
Pela manhã acordei feliz e quando olhei para o lado não encontrei minha princesa do esgoto e percebi que havia alguma coisa estranha: primeiro eu estava zonzo demais para meia garrafa de cachaça barata; segundo meus dentes não doíam.
Levantei uma hora depois, e então eu comecei a rir, rir, e rir, e rir. A maldita levara tudo o que eu tinha: Um rádio velho; uma panela velha; dois pratos quebrados nas pontas; e três copos roubados de bares; e um quilo de feijão.
Voltei pra cama feliz, ela fora uma boa noite de sexo e ia pensar em mim um pouco mais. Dormi.
Já tarde, quase noite ela voltou com uma garrafa de cachaça, e me disse tranquilamente. – Vagabundo. Só agora eu conseguir trocar aquelas porcarias, por alguma coisa útil. Vamos beber e trepar.
A vida era bela e eu estava me apaixonando por aquela suja mulher.

ronaldo braga

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