terça-feira, janeiro 02, 2007

Eram três horas de uma madrugada espelho fosco quando eu entrei no brega central de cachoeira e as putas solitárias desenhavam tristezas em um olhar sinédoque implorado e esquecido. O feriado nacional chegava e ainda noite estrelas caiam pra longe dali. Sentei e uma puta que aparentava quatorze anos se aproximou e seus passos fracos tremulavam socorros.
- O que o senhor quer?
- Cerveja e cigarros.
Ela me deu um beijo afrásico no meu ouvido esquerdo e saiu soletrando silêncios. Um tempo curto e de volta com os pedidos sentou ao meu lado.
- Quer companhia, ou deseja ficar só.
Eu não disse nada, mas segurei seu braço e toquei com os dedos sua coxa direita e era macia a infância tocada e náuseas e desejos se misturavam no terror do meu tocar. E pirilampos saiam de seus gestos em direção a brinquedos perdidos.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e cinco – ela arriscou.
- Quinze - eu disse
- Vinte - ainda insistiu
- Quatorze - falei autoritário
- Dezesseis - disse inaudível, vencida
- Quatorze - eu afirmei imaginando famílias famintas em dias violetas e rezas errantes e um eterno reduplicar misérias.
- Tá bom quatorze, mais não diga que eu disse. O senhor não é pólicia, é? Ela então desabou em uma amência latente e medrosa.
- Não. Não sou da policia e estou adorando sua coxa. Quanto é?
- Sete do quarto e 20 meu. Tá caro? Ela disparou como um colt antigo e esperanças faiscavam seus olhos enquanto suas pernas dançavam uma indigente abertura ensaiada
- Não, tá excelente. Você já foi quantas hoje?
- Três. E eram todos velhos. Mais velhos que o senhor. Um nem quis botar dentro. Gozou em meus peitos – Uma pequena repugnância alterou seu rosto infante.
- Bem, vou beber e depois nós vamos pro quarto.
Ela acendeu um cigarro, colocou na minha boca, e depois acendeu outro e tragou desgraças inteiras de lembranças amassadas e distantes e começou a tossir. Sorriu e continuou o trabalho em meu ouvido: beijos, mordidas e carinhos gelados de uma flor em desesperos caiados de mel e framboesa numa noite de punhais e solidão mortífera.
Bebi calmamente a minha cerveja, e pelo canto dos olhos observava os clientes chegarem, e levarem suas sofridas e pesadas cargas pros quartos, eles andavam como em direção do patíbulo com seus pesos transpassados de intermináveis realidades encravadas em passados inenarráveis e para sempre calados nos peitos covardes.
Numa mesa distante da minha, uma briga ensaiava sangue e a dona com segurança calou os estômagos e manteve o azul da noite em deleite agonizante a esperar tragédias futuras.
Ali as tragédias eram todos nós, e nossos espermas cortantes de delírios trêmulos, de nojentos fluxos de covardias aprendidas em uma vida castrada e cega, com odores calados e tardes escuras nas noites em fugas.
Acabei a cerveja e a coloquei no colo e depois a levei pro quarto.
- Como o senhor gosta?
- Na bunda.
- Na bunda é cinco a mais. - Ela disse e suas palavras eram facas bêbadas nas consciências inexistentes.
Suas roupas caíram e uma nudez criança impunha um céu roxo enquanto musicas de morte me fazia sorrir e sorrir.
Dei mais cinco pra ela e ela sorriu um sorriso dor e decepção.
Ataquei seu corpo bebê e numa irredutibilidade isentálpica, consolidei meu existir numa crueldade libertária e cristã.
Rezei um pai nosso e enfrentei aquela bunda medrosa e numa isagoge lenta e perversa adornei a noite com um crime de amor.
E em tempos eternos, senti dor e prazer na cama fria, que amaldiçoava a minha vida, e o ísquio criança dolorido lamentava flores.
Dei por encerrado o serviço e a menina me olhou e chorando falou
- O senhor é o primeiro que faz isso com amor.
- Eu detesto o amor. Mas, amo putas e sexo. E você é uma criança azul de jardins de pedras com cactos e dor. Cuidado menina eu sou um matador, saia do quarto pois depois do sexo é sangue que eu quero.
Ela saiu sem acreditar e ainda teve tempo de por meu pau em sua boca para um ultimo beijo e eu me vesti e voltei ao salão, onde bebi mais uma cerveja e fuzilei com o olhar um ambiente tosco e ladino e meu cérebro era vitória e aquela velha sensação intolerante quebrava minha rotina e exigia atenção e na minha frente corpos obductos e caveiras e dejetos humanos a rir e chorar palavras de paixão com seus passos de fechaduras e desatenção, numa noite vermelha, onde a minha canção de morte agora era só um questão de espera e epistemê.

Ronaldo braga

3 comentários:

Nelson Magalhães Filho disse...

Crueldade e poesia andando lado a lado no beco escuro e imundo de nossa desesperança.

luciano fraga disse...

Se bem me lembro,noite fria,beco escuro,paredes frias depois do sexo alucinado.A vida não fazia mais sentido,seguimos com os faróis apagados e não encontramos nada,nada que pudesse nos assustar.

ronaldo braga disse...

nelson e luciano: esse blog é para quem não tem medo da penumbra.
em velozes estradas solavacamos medos dos medos, em doces sorrisos de jegue. o falso cara de escorpião
se multiplicou e agora que ser padre.