quarta-feira, janeiro 10, 2007

Era bem pesada a carga naquele dia, como em todos os dias. A minha cabeça inchada e dolorida exigia mais uma cerveja pra voltar ao normal. Merda, eu não poderia pensar em um trago antes do almoço, mais uma vez eu acordara tarde como sempre e vomitara mais do que o normal. O trabalho sobre a mesa acumulara na última semana, mas essa tarde seria como todas as tardes, assim que eu tomar uns tragos iria atualizar todo o meu serviço. Uma olhada ao redor e eu pude notar todos ali no escritório a murmurarem entre dentes e de um jeito como só os covardes fazem, com uma maestria e uma falsa valentia que me forçava a rir e então uma pontada violenta sacudia a minha cabeça.
O meu olhar percorria toda aquela papelada inútil e um clamor de raiva fazia a dor de cabeça aumentar até o impensável. Duas horas depois a conversa ainda era sobre mim e dona Z uma gorda que não sabia nem mesmo o que era amar dizia pra dona G uma magra azeda que sorria sempre por qualquer motivo, mais falava mal de todo mundo. No momento que eu pude ouvir era assim o diálogo das cobras esquecidas:
Dona Z - minha filha, como esse homem ainda trabalha aqui? Ele não faz nada até o almoço. E só trabalha um pouco pela tarde. Todos os dias ele vem com uma cara de bicho. Também bebe sem parar.
Dona G – bebida só! Minha querida ele deve ser um grande drogado. E as farras com mulheres! Não sei como ainda tem mulher que se dá ao desfrute de ir pra cama com um tipo desses.
A conversa era sempre a mesma. Quando não eram elas, era o senhor T. Um desprezível impotente e mesquinho, que estava sempre contando vantagens sexuais. Todo dia, ele contra o meu gosto, vinha até minha mesa, e me dizia com uma cara deslavada e mentirosa.
- Senhor P. essa noite foi maravilhosa, maravilhosa - e repetia a palavra maravilhosa, umas quatro vezes e completava:
- Foram duas gatas. 20 anos a mais velha, e foi por toda a noite. Estou cansado senhor P. cansado, mas disposto, e hoje vou produzir muito. - Ele dizia produzir muito e olhava para os papeis em cima da minha mesa e perguntava.
- Senhor P. o senhor tem problemas com as mulheres? - Ele perguntava e saía rapidamente e eu sabia que ele ia direto falar com o chefe, falar mal de mim.
A hora do almoço era o meu alivio, eu tomava uma cachaça e bebia duas cervejas bem geladas, e comia uma comida fria e descansava por 40 minutos e então voltava ao trabalho e todos podia então saber por que é que eu ainda trabalhava ali. Além de resolver assuntos do chefe, que os imbecis jamais resolveriam, eu dava duro. E à tarde, eu estava de novo atualizado. E então eu olhava pra dona Z e dona G e dizia.
- Aí, vamos dormir juntos hoje? Nós três. Aproveitem que hoje eu estou comento qualquer desgraça. Elas sorriam como só os covardes sabem fazer e respondiam juntas
- Senhor P. não diga isso, nós somos duas senhoras de respeito. - E ficavam lá doidas que eu insistisse no convite, e aí eu saía vitorioso e tranquilamente ia para o meu santuário, o bar Taetro. O bar Taetro era do amigo Z, poeta e pintor e outras coisas.
O poeta Z. me vendia fiado e não ficava muito preocupado. Z. queria mesmo era uma boa conversa e ler meus textos, eu também arriscava uma luta desigual com o papel e a caneta.
Com o Z, eu passei a conhecer poetas e escritores mortos e vivos e gastar algum com livros. Eu compensava bebendo fiado e de graça no Taetro. No passado o bar apresentou peças teatrais, mais um agrônomo que se auto - intitula artista e que diz ser o dono do espaço onde fica o taetro criou problemas com a prefeitura que é a dona mesmo do prédio e Z desistiu. Agora só leituras de textos poéticos que aconteciam logo após o fechamento do bar. Eu era sempre convidado, e não perdia uma única leitura e então eu chegava cada dia mais tarde no trabalho. E aí o Z dizia
- P largue aquilo e venha ser meu sócio, tem comida, bebida, poesia e teatro e você dorme aqui mesmo e tem um lugar pra você vomitar a vontade. Eu respondia sorrindo
– Qualquer dia desses Z., mas, e sua mulher? - Z me olhava bem, me media e respondia.
- Se você passar do limite eu te mato. E depois dava uma gargalhada. Eu sabia que o Z. falava a verdade. O Z era legal, mas era homem de verdade, não tava pra brincadeira sem sentido e o sentido era o Z quem determinava. Bebi mais uma, fui ao banheiro, vomitei tudo o que pude e voltei e me escorei no balcão e comecei a observar o Z. trabalhar. Tomei mais algumas, e depois já com o bar fechado, li alguns poemas novos e agarrei a Lídia e fui pra casa, pra mais uma foda nesse mundo benevolente, poético e apaixonado por mim.
Amanhã seria mais um dia de cão.

ronaldo braga

Um comentário:

Manoel Grimaldi Santos disse...

O desleixo da existencia em romantica palavras, o heroi do conto é anti-heroi sofredor por uma ingenua noção da vida, ele espera solidadriedade onde só há disputa.