quarta-feira, janeiro 10, 2007

Em heteromorfos sentidos acordados nos silvos agudos das noites, silhuetas zuniam desesperos por todas as cores, e vozes e medos assolavam iminências imêmores, transpassadas nos desusos dos faustos perdidos. A tarde insinuava certezas atrozes em luzes brilhantes e fecundas, e meninas escondidas, dançavam saias e suspendiam vestidos, em azuis jardins míticos, e cantando amores oníricos recebiam reclames de pesadas matronas histéricas por perdidas clivagens manchadas e inelutáveis.
Sentado em flores e absorto em planos, ele imergia pensamentos, engendrando uma decisão eminente, e sorria satisfeito. Pelas ruas, homens ausentes, envergados e tristes, caminhavam para suas lidas, e suspiravam gotas permitidas, que insistiam das suas têmporas eriçadas, pesados amores de covardes tempos imemoriais. Nas portas, velhas ninavam musicas em lembranças molhadas e seus sorrisos ousados, elidiam tristezas. E por esse povo paradoxo, de gestos submissos e medos estampados, ele sorria desprezo e uma cruel amabilidade. Caminha buscando o encontro do inevitável gládio, na ímane tarde constitutiva e imanente, fincada nas bromélias lamurientas.
Pedras, flores e cores povoavam nuvens e ventos, e todo o espaço do entorno. E ele sabia a espera e mais ainda sabia, a anomalia das colheitas das almas cansadas: sem cruzes e sem choros. Flutuando nomes e datas em dispositivos definitivamente transitórios.
A cidade, sentia a iminência do parto, e insulava calores das classes partidas, e esperava o emergir, de seculares horrores, em recorrentes canções mortas, de esquecidos sonhos, e intensificava insultos numa desesperada esperança de sobrevivência. Covardes condenavam criticas em esquivos carinhos e artistas sonhavam sucessos de suas obras transmutadas e depreciadas: pobres mercadorias de inflexões caladas. As bocas cantavam entregas e dedos apontavam culpados e enclausurada a arte era passeio e diversão.
Nos bares, grupos bebiam a servidão, e marcavam rancores em cada interstício, e ouviam do nada, sinceros fingidos sentimentos, e em cantos distantes poetas perdoavam tempos e tudo, nas remanescentes recorrências estóicas, e bebiam luzes em difrações infindas, e cheiravam flores em chuvas de jasmim, com suas musicas incansáveis de demiurgos sorrisos.
E ele sentia a poesia, a adoentar e a irritar, respeitáveis senhores das velhas casas de culturas, presos nos infernos das dores remotas e das prisões de agora. Sabia das mortes caiadas nas oikos de compras e de artes, e sabia o inevitável do mofo nos desusos poéticos aprisionados e sabia das impossíveis transformações, e sabia do povoar medíocre, em letras facilitadas, e compradas a quilo.
A noite se aproximava, e cores berrantes exigiam silêncios. E os poetas bêbados e expulsos, choravam rancores nos jardins de mortos. Enquanto nas mesas, sangue inundava os respeitos e impunha risos corretos em tribunais serenos, tragando vidas em recorrentes covardias estritamente legais, os loucos rasgavam peitos de flores murchas, e marchavam à escuridão, em luas sangradas, e enfurecidas estrelas, enforcavam anjos, em medíocre bondade terrestre.
Mulheres rasgavam temores e perdiam pudores e a cidade gemia açoites, e olhares impotentes rezavam terços, e rogavam mudanças, e prometiam vinganças.
A solidão avançava madrugada, e cansada a cidade postulava mortes, em agudos olhares de víboras. E ele sabia o momento e sorrindo esperava o amanhecer.

ronaldo braga

Um comentário:

Nelson Magalhães Filho disse...

A solidão é essencial ao trabalho artístico. Às vezes, morrer não dói, como dizia nosso Caio F. Abreu.