quinta-feira, janeiro 04, 2007

CANÇÃO DE UMA NOTA SÓ

Ela lamentava distúrbios latentes, e corria os olhos por todo o ambiente e acedendo passados sabia ser a hora da decisão. Ele sorria em silêncio e rememorava ausências.
ELA – Nada mais resta.
ELE – Tudo está por vim
ELA – Tudo fugiu e ficou você, um espantalho da dor, envolto em mistérios forjados.
ELE – Cada um sabe de si.
ELA – De mim nada sei, sei do tempo perdido e de amores escapados
ELE – Você ao menos podia confessar.
ELA – Confessar? O que?
ELE – Suas abjeções, traições e principalmente sua incapacidade de amar.
ELA – Em que mundo você vive? Em que mundo você viveu esse tempo todo? Pra me falar assim? E questionar o amor? Nem a você, você amou.
ELE – Sua especialidade. Mudar tudo o que eu digo. Você me traiu ou não?
ELA – Traição é algo profundo. Eu traí a mim mesmo mantendo essa relação morta, e traí meu coração fechando meus olhos pro mundo.
ELE – Você me conhece, sabe o que eu quero e sabe como eu sou, evite tragédias. Você me traiu ou não? Eu digo melhor, você transou com outra pessoa?
ELA – Só isso te preocupa? Sexo? Se eu trepei ou não? E você não perguntou se eu transei com você? Eu transei alguma vez com você?
ELE – Agora endoidou, o que toda noite a gente faz é o que?
ELA - Canção de uma nota só, estupro, violentação de direitos. Ouviu. Eu jamais transei com você nesses quinze anos de casamento. Você derramou em mim, tudo o que tinha. E nada mais restava, senão nojo e tolerância. Por medo, e especialmente por esperanças, eu aceitei e me calei.
ELE – Eu te dei amor.
ELA – Amor? Você subiu, penetrou, gozou e dormiu. Nada mais. Nunca gozei.
ELE - Não sei o que você fala. Você deve ter problemas. Eu sempre demorei penetrando.
ELA – Você é burro, bruto e egoísta, eu sou mulher, tenho necessidades de mulher. Como carinho, toques e massagens, não somente somente penetrações.
ELE – Esse papo é de doente, você quer me humilhar dizendo que eu não sou homem.
ELA – Vamos encerrar a conversa. Eu vou embora. A casa é sua e fica pra você.
ELE – Tá vendo, já existe outro e você vai direto pra casa dele. Confesse.
ELA – Eu não suporto você, não tenho mais nada com você e não lhe devo satisfação.
ELE – Você pode estar certa de hoje pra frente, e antes? Você me traiu?
ELA – Porque essa insistência, eu nunca quis saber se você me traiu.
ELE – Mas eu quero saber, sou homem e quem me trai morre.
ELA – E você quer me matar? Então mata. Por que eu te traí todos os dias nos meus pensamentos, todos os dias, horas, minutos. Eu sempre desejei que você morresse, e todo santo dia pensava em algum artista enquanto você me estuprava.
ELE – Você é uma puta, uma safada. Mas eu quero saber: você trepou com uma outra pessoa?
ELA – Você será sempre um arruinado.
ELE – E essas cartas? Pra quem você escreveu?
ELA – Para um outro homem - você
ELE – Um outro eu? Você quer me endoidar? Doida eu sei que você é, mas se pensa que eu sou otário, tá muito enganada. (mostra uma faca)
ELA – Otária fui eu ficando aqui com você por quinze anos.
ELE – Esse papo tá demorando, quem é esse outro eu? Vamos, diga. Não vai dizer? Eu vou descobrir, e se não me disser, eu mato você, descubro, e mato o outro eu.
ELA – Não tenho como explicar isso a você. Você é tapado, e só anda com raiva do mundo.
ELE – (Enfiando a faca no peito dela) Não me chame de tapado. Eu sempre lhe avisei. Não me chame de tapado. (Ele enfia a faca seis vezes no peito dela e continua bramindo.) - Não me chame de tapado. Não me chame de tapado. Não me...
ELA – É ... Vô ...
ELE - (descontrolado) Não me chame de tapado. Não me chame de tapado.
FIM
ronaldo braga.

2 comentários:

luciano fraga disse...

Ronaldo,não há como tapar ou tampar algo que não tem conteúdo ou mesmo algo que contém apenas a estupidez.Pelo avesso, deve-se liberar,dissolver,libertar-se.Este é o nosso mundo:intolerância,hipocrisia.

ronaldo braga disse...

luciano o tapado é na verdade o destapado, o desmedido, o despovoado,´há no tapado vazios nos vazios, e a violencia que já foi nobre no serhumano registro ontologico sobra nas desmentes dos despados.triste sina da violencia quando se torna recurso de boi. a violencia é nobre quando atitude da praxis, quando é uma ação. sendo antes uma resposta de si e não uma reação.