sábado, janeiro 20, 2007

Amanheceu na cidade azul às cinco horas de uma manhã vermelha, e isso fazia com que as árvores ganhassem um tom quase verde. Nenhum dos moradores sabiam dizer porque a cidade era azul, porque só no último dia de cada mês é que a cidade ficava azul e assim mesmo só no fim do dia. Alguns achavam que antes, em um passado distante, o verde predominava e outros achavam que nome era nome e pronto! O certo é que ninguém entrava em acordo, não havia duas pessoas com a mesma idéia.
Outra coisa estranha na cidade, eram as cores das coisas. Quando o dia amanhecia vermelho, as árvores eram quase verde e os rios marron, a terra ficava alaranjada e as casas de uma cor que todos chamavam, todos mesmo, de limão branco. E o céu? Ah! O céu ficava todo violeta!
Essas cores duravam o dia e a noite e só mudavam quando o outro dia chegava. É, na cidade azul cada dia tinha uma cor diferente, por isso a manhã era o momento mais alegre do dia: todas as crianças enchiam as ruas e admiravam as cores trazidas pelo sol!
Mas o mais diferente, é que na cidade azul só existia crianças. É isso mesmo. Lá ninguém envelhecia, até porque ninguém tinha idade e nem sabia o que era um aniversário! Era um mundo mágico, mas também um mundo muito estranho... Fico me perguntando... como será que eles nasciam? Ninguém sabia responder a essa pergunta e nem mesmo o que significava isso. Nascer! Lá essa palavra nem existia!
Mas o mais legal nessa cidade era a noite, pois quando ela chegava o chão se enchia de estrelas. Era um monte de estrelas que, ao invés de aparecer no céu, desciam para iluminar todos os caminhos da cidade! Além disso, sempre um pouco antes dela chegar, aparecia uma linha branca que envolvia todo o rio, mas não somente o rio. O mar, os oceanos, as cisternas, e até as lagoas e as águas, todas as águas, ganhavam essa linha branca. Só então se dizia que a noite ia chegar.
Nenhum morador contava dias e nem cabras e nem dinheiro. Lá não se contava nada, todos viviam felizes, apesar das diferenças e divergências: havia garota e garoto de cores preta, verde, marrom, lilás, enfim, de todas as cores! Só não havia nem garota e nem garoto da cor azul. Bom, as divergências eram sempre por causa dos nomes das coisas. Por exemplo: o que em outras cidades se chamava cabra lá era chamada por uns de mito e por outros de velha; boi era razão ou forte; céu era chamado por uns de vento e por outros de janela. Tudo tinha sempre dois nomes: bicho, vegetal, mineral, até fenômenos da natureza. Só tinha uma coisa que era chamada apenas por um nome: as pessoas. Uma era chamada de pessoa preta de um metro, outra de pessoa verde de um metro e dez. Todos se chamavam Pessoa + a cor da pele + a altura. Lá também não existia escola, pois todos aprendiam errando, fazendo de novo. Conversando e observando até acertar e, a partir daí, não erravam mais.
Nunca se viu briga na cidade azul. Havia divergências, mas todos queriam viver bem, sem raiva e sem tristezas. Havia zangas de um com outro, mas tudo passageiro, pois ninguém guardava mágoa e a vida corria assim, com muita abundância, felicidade, muitos sorrisos e força.
Mas um dia o céu amanheceu completamente azul e aí então eles apareceram...

De longe não pareciam nada e aí foi aquela conversa: pessoa verde de um metro e dez disse de um só fôlego
─ São os peixes! ─ (peixes para pessoa verde eram frutas grandes como melancia e para pessoa vermelha de um metro, era o nosso capim santo) e todos começaram a dar os seus palpites. A cada palpite eles se aproximavam. Até que todos perceberam o que eram aquelas figuras estranhas. Pessoa marrom de um metro e seis falou logo
─ São pessoas grandes e são todas pretas ou brancas e são também feias e tristes.
Então chegaram o que em nosso mundo chamamos de adultos, mas na cidade azul ninguém nunca tinha visto um. Quando chegaram foram logo reclamando de tudo: derrubaram as árvores, sujaram os rios, maltrataram os animais e ofenderam os garotos. Um adulto foi logo dizendo pra pessoa roxa um metro e dois
─ Que menina horrível, deve ser doença contagiosa! ─
E deu logo um sopapo na menina, que até aquele dia nunca tinha apanhado. Foi aí que os meninos da cidade azul fugiram, e de longe ficaram olhando os adultos, que bebiam, falavam palavras feias, brigavam e destruíam tudo ao seu redor.
Três meses se passaram e as crianças antes sadias, adoeceram. As estrelas fugiram da terra e foram para o céu porque os adultos começaram a arrancá-las. As águas ficaram todas azuis, tanto de dia como de noite. Os bichos sumiram e o sol que era sempre bem vindo ficou zangado e começou a queimar tudo o que antes era uma bonita vegetação.
Passou mais um mês e então uma garota que se chamava Pessoa Preta de um metro e oito falou:
─ Pessoas de todas as cores e de todos os tamanhos. Devemos colocar essas pessoas grandes para fora do nosso mundo, porque se não nós vamos desaparecer.
Era assim na cidade azul, quando uma dúvida ficava perigosa ou quando ninguém sabia resolver, era sempre uma garota, de qualquer tamanho ou cor, quem resolvia o problema. Ela simplesmente aparecia, falava e todos aceitavam. Lá, as garotas, eram quem resolviam os impasses, mas isso não significava que os garotos eram menos importantes.
Todos aceitaram a idéia da garota e então se organizaram para que nada desse errado. Como todas as noites os adultos bebiam, brigavam e dormiam, ou melhor, desmaiavam e sempre acordavam muito tarde, nessa noite, quando eles dormiram, os meninos e meninas, amarraram todos eles, e chamaram os pássaros, que voaram com eles para outro planeta.
Os meninos desmaiaram de tanto cansaço e fraqueza e quando acordaram perceberam que era noite, pois as estrelas estavam de novo na terra. Foi então uma alegria como nunca houve antes! As flores começaram a nascer, a água a ter as cores de antes, e alguns ainda pensaram que tudo não passara de um sonho.
Como nesse mundo, as pessoas não ficavam com raiva por muito tempo, hoje, eles lembram dos adultos, como de pessoas tristes, que gostavam de brigar e de destruir tudo, por que na verdade eram doentes.
Foi aí que eles decidiram o que fazer se os adultos aparecessem outra vez na cidade azul, eles iam, agora eles tinham certeza, agir logo na primeira noite e impedir toda aquela destruição e dor, agora eles sabiam como fazer isso..
E nesse clima de alegria e descontração, a festa continuou no mundo colorido azul da cidade azul!


ronaldo braga

3 comentários:

ana rüsche disse...

oi, ronaldo!

que bom que publicou aqui! irei linkar, adorei.

beijinhos todos

Lucas Branco disse...

Grande Ronaldo

belo texto!

estarei acompanhando seus textos a partir de agora =D

abraços!

luciano fraga disse...

Ronaldo,num mundo onde grande parte das pessoas parecem ter perdido a capacidade de filtrar,discernir,deixando prevalecer o bobo,o banal,só você com sua capacidade poética para tingi-lo com côres várias...