quarta-feira, janeiro 31, 2007

POETAS DE CRUZ DAS ALMAS A CIDADE DAS SOMBRAS

O blog bragas e poesia tem como objetivo principal a publicação literária de autores novos, mas sempre publicando tambem autores consagrados, porque achamos que a boa poesia é sempre nova. Tambem estamos mostrando a boa poesia escrita em Cruz Das Almas,destacando os poetas:
LUCIANO FRAGA
NELSON MAGALHÃES FILHO
PATRICIA MENDES
LUCIANO PASSOS (JÁ FALECIDO)
LITA PASSOS
RONALDO BRAGA.
Esses poetas estarão sempre nesse blog, uma vez que além de admirar a poesia deles, sempre achei que essa poesia merecia um maior destaque e que o mundo precisa conhecer a arte cruzalmense, uma vez que as instituições da cidade vem dando espaço ao que tem de mais mediocre na cidade de Cruz das Almas o que é normal no Brasil: a afirmação da burrice e do puxa saco. Numa tentativa de assassinar a critica e manter todo o sistema como ai está.
Em Cruz Das Almas tem uma arte que diz sim a vida, que diz sim a critica, ao prazer e acima de tudo que preserva a capacidade de se manter a cabeça livre de dominações e que viver é acima de tudo a dignidade de ser livre e não querer fazer a cabeça alheia e nem manipular existencias humanas.
Muito obrigado aos poetas de verdade de Cruz Das Almas e vamos em frente com uma certeza:
Os mediocres dominam as instituições, mas a arte é indomavel.
RONALDO BRAGA.

A PRINCESA DO ESGOTO

Era um dia comum, exatamente igual a qualquer outro dia: chato e modorrento. Pessoas passavam por mim como se fossem morrerem no minuto seguinte e tivessem medo. Nas suas caras eu via o ódio, a frustação e acima de tudo, eu via o pavor. Era um dia para comemorar a mesma merda de sempre: estar vivo. E não ser como aquele rebanho humano, que carregava suas vidas como um fardo, E demasiado pesado.
Tentei sorrir e muito sangue escorreu da minha boca, meus dentes podres e malcheirosos estavam inflamados, e agora também doíam. Vasculhei o bolso, encontrei o suficiente para uma cachaça, entrei na bodega mais próxima, um homem sujo, mal encarado e sem nenhum dente me disse aos gritos.
- O que quer?
- Uma pinga com limão.
- Com limão não tem. Tá pensando o que? Que é o presidente da república? Só tem pinga e paga adiantado.
Joguei no balcão 50 centavos,
- Coloca tudo? - Ele gritou -
- Tudo o que der esse dinheiro –Eu disse -
Ele encheu o copo.
Fui para uma mesa e fiquei ali a bebericar a minha ultima fortuna e então ela apareceu: Loira, suja e quando falou o seu hálito podre veio até a mim.
- Uma cachaça.
O homem respondeu.
- Nem pagando dobrado.
Ela ia gritar quando eu falei.
- Aqui tem pra dois.
Ela não era a mulher que eu sonhara, mas era uma mulher. E eu precisava de uma. Seis meses somente na individual, não dava mais. Ela sorriu, fez charme e disse.
- Não sou fácil, com uma cachaça você não me compra.
Eu fui logo direto.
- Se quiser tomar mais cachaça, eu sei onde tem. Mas você tem que pagar, todo o meu dinheiro era esse.
Ela me olhou, fez outro charme e sentou. Bebemos e conversamos. E ela queria saber quem eu era. Eu disse.
- Vagabundo.
- Vagabundo?
Ela gritou como se ouvisse uma palavra perigosa, e ficou em silêncio um ou dois minutos e depois disse com muito charme.
- Um vagabundo charmoso. Vem meu vagabundo, eu tenho dois reais vamos beber e depois eu vou te mostrar a mulher que eu sou. Ela se chama Lúzia e sabia o que queria.
Foi uma noite maravilhosa.
Nus, amamos a noite toda como dois pombinhos. Evitamos o beijo na boca, não tanto pelo mau cheiro, e sim por dores horríveis no lugar.
Pela manhã acordei feliz e quando olhei para o lado não encontrei minha princesa do esgoto e percebi que havia alguma coisa estranha: primeiro eu estava zonzo demais para meia garrafa de cachaça barata; segundo meus dentes não doíam.
Levantei uma hora depois, e então eu comecei a rir, rir, e rir, e rir. A maldita levara tudo o que eu tinha: Um rádio velho; uma panela velha; dois pratos quebrados nas pontas; e três copos roubados de bares; e um quilo de feijão.
Voltei pra cama feliz, ela fora uma boa noite de sexo e ia pensar em mim um pouco mais. Dormi.
Já tarde, quase noite ela voltou com uma garrafa de cachaça, e me disse tranquilamente. – Vagabundo. Só agora eu conseguir trocar aquelas porcarias, por alguma coisa útil. Vamos beber e trepar.
A vida era bela e eu estava me apaixonando por aquela suja mulher.

ronaldo braga

ALMANAQUE DE BRISTOL

EM MEMÓRIA DE OLNEY ALBERTO SÃO PAULO


Meus amigos
estão escurraçados pelo oco do mundo
Meu pai viajou para as montanhas
Minhas tias se benzem
Minha antiga namorada tricota cordilheiras
Minha amiga cata estrelas no poente
Minha mãe me afaga
Meu tio ora
Meu avô geme
do tempo
E meus companheiros de agora
enxergam o Jacuype desbarrar para o Paraguaçu.

MIGUEL CARNEIRO
(POETA, DRAMATURGO E ATOR)

PRELÚDIO

"quando nascemos, choramos por estarmos chegando a este grande palco de bufões..."
Shakespeare-Rei Lear

Olhos perecíveis
despejam faíscas
nas lâminas das facas
que amolo
para recortar
efêmeras mortes
com as quais decoro
crepúsculos monótonos
que ejaculam
fecundando meu quarto,
lambendo a melancolia
que goteja
na estranheza
da carne muda
que maltrato.

Sem que ninguem veja
faço delas entulhos
que desidratam com pétalas
que acumulo
sobre móveis sem verniz.

Ouço quando alguem diz
com a voz em falsete:
- as artérias não suportam
nem mais um alfinete.

Agônico,
ainda rabisco
um obsceno bilhete
com o próprio sangue
narrando meu breve fim:
prematuro...

LUCIANO FRAGA

terça-feira, janeiro 30, 2007

Monte Negro

eu hoje acordei
com o mundo em meus olhos
e você me dizia
madrugadas verdes em palavras espanholas
ao longe
Violeta Parras
sorria musicas em meus lábios
e
choros cantavam
flores em uma canção de ninar
o mar
insistia porradas em minhas pedras
e acordar era morrer em meias luas.
você criança ainda
soletrava poemas
e
tristes palavras
cansavam meu jardim.

ronaldo braga

REZA PROFANA

Bocas carpideiras
oram nas capelas
úmidas do teu corpo

lágrimas de suor gotejam
no olhar dos poros

persigo teu movimento
sou espelho, cópia
luva, alimento

nectar que engravida
o útero da libido

maquina, leve roçadeira
no campo dos teus
espasmos, imã do teu
desejo desafeto, amigo

ferramenta abrindo
fendas mornas, lingua
desatarraxando o beijo

lâmina de amor
abrindo o cofre
de tuas profundezas

onde perdôo meus sentidos
indultos meus pensamentos
e os vigias do recato
estão mortos

LUCIANO PASSOS
(Poeta de Cruz das Almas, já falecido, mas que vivo, presente em sentimentos tantos de suas poesias, de seus atos e mais ainda de sua imensa bondade e capacidade de aceitação do diferente, Luciano poeta nobre, viveu como uma prova de que a vida é tambem doação,e que a vida é apenas um longo bate papo entre a pele e o coração.)

PELE DE GASOLINA

anjo sacana
de boca vermelha
bebado de loucura de minha menina
olhos de fumaça verde
pele de gasolina
torturando
os demônios
da esquinas

mordida de cão tardio
marca impregnada
no caos
da inconsciência

LITA PASSOS

POEMAS

O
Sol
Nascendo
Entre teus pelos
Tinge
Tua barba
De
Vermelho
E me
Aquece.


E por um instante,
ser capaz de entregar-me
sem que saibas
Dissolver-me em ti
sem que percebas.


A própria vida
é o desafio maior
e o maior mistério
ainda sou eu
MESMA.

PATRICIA MENDES.

sem titulo

Você pensa que estou esperando.
a ausência,
que não chega nunca
com as tarântulas acesas
nem nas vísceras mais escuras
que estupradas pelas brasas
da noite-erma
pudesse me deixar só
e pouco importa.
Mas não é isso que me move para o mar
meu bem, pouco me importa
se a tesoura vertida
amolada pela minha cara de cão
crava tua alma no espelho
aceso dentro do mar.


A cidade arde
cutucou minha cabeça
com uma varinha suja

e todos agora somos
bichos nocivos.

NELSON MAGALHÃES FILHO
(poeta do mundo e da cidade das sombras. Artista que com uma tenacidade gigante vem enfrentando os inimigos da vida e insistindo em versos e tintas e palavras - cores, a certeza de uma vida coragem e antes uma vida com dignidade. O Nelson me apresentou poetas vivos e mortos e ainda é uma referencia para mim. A cidade das sombras em sombras gigantes e becos inviolaveis acorrenta os seus poetas, os seus artistas e o Nelson soube separar joio do trigo e sem raiva mandar os malditos embora. Obrigado Nelson: por sua poesia;Por sua pintura; Por seu teatro e mais ainda por sua capacidade de sorrir para os mediocres.)
Gravetos murchos choram indiziveis azuis noites
nuas, e
calam arvores num fremito murmurar
rouquidão e ar.
E silencio penetra,
E sussurro penetra
como agua
penetra e penetra e
dilui
e espalha
e enfraquece
e transforma.
Processo tardio
inevitavelmente atomo tardio.
Objeto no objeto,
cru.
Cruel.
Transitorio.


Invisiveis atos fossos acuam
perplexos olhares
e ouvem noites e
dançam noites
em noites decapitadas.
E foragidas noites
encontram marginais madrugadas.

ronaldo braga

sexta-feira, janeiro 26, 2007

SEM TITULO

Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.

Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas.

Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas.

Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.

Porque assim é preciso
Para que tu vivas.

Hilda Hist
( Escritora brasileira que merecia um destaque maior na literatura brasileira, onde ela foi com certeza a melhor das melhores)

quarta-feira, janeiro 24, 2007



Mais um trabalho de Ederson Batista.Na verdade mais uma viagem em cima da peça teatral FÚCSIA, texto escrito por Ronaldo Braga e Nelson Magalhães Filho, o Ederson está trabalhando firme, transformando a peça, narrativa teatral, em quadrinhos.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Em meu coração

Em meu coração:
sangue.

Em meu coração luas bêbadas tropeçam
e cactos loucos em fugas
cantam jardins distantes.

Em meu coração a flor
chora em pedaços e
lágrimas pretas
defloram manhãs.

Em meu coração teima a escuridão
dos olhos teus e o amor
arde em eternas labaredas.

Ronaldo Braga
Ronaldo Braga

sábado, janeiro 20, 2007

Amanheceu na cidade azul às cinco horas de uma manhã vermelha, e isso fazia com que as árvores ganhassem um tom quase verde. Nenhum dos moradores sabiam dizer porque a cidade era azul, porque só no último dia de cada mês é que a cidade ficava azul e assim mesmo só no fim do dia. Alguns achavam que antes, em um passado distante, o verde predominava e outros achavam que nome era nome e pronto! O certo é que ninguém entrava em acordo, não havia duas pessoas com a mesma idéia.
Outra coisa estranha na cidade, eram as cores das coisas. Quando o dia amanhecia vermelho, as árvores eram quase verde e os rios marron, a terra ficava alaranjada e as casas de uma cor que todos chamavam, todos mesmo, de limão branco. E o céu? Ah! O céu ficava todo violeta!
Essas cores duravam o dia e a noite e só mudavam quando o outro dia chegava. É, na cidade azul cada dia tinha uma cor diferente, por isso a manhã era o momento mais alegre do dia: todas as crianças enchiam as ruas e admiravam as cores trazidas pelo sol!
Mas o mais diferente, é que na cidade azul só existia crianças. É isso mesmo. Lá ninguém envelhecia, até porque ninguém tinha idade e nem sabia o que era um aniversário! Era um mundo mágico, mas também um mundo muito estranho... Fico me perguntando... como será que eles nasciam? Ninguém sabia responder a essa pergunta e nem mesmo o que significava isso. Nascer! Lá essa palavra nem existia!
Mas o mais legal nessa cidade era a noite, pois quando ela chegava o chão se enchia de estrelas. Era um monte de estrelas que, ao invés de aparecer no céu, desciam para iluminar todos os caminhos da cidade! Além disso, sempre um pouco antes dela chegar, aparecia uma linha branca que envolvia todo o rio, mas não somente o rio. O mar, os oceanos, as cisternas, e até as lagoas e as águas, todas as águas, ganhavam essa linha branca. Só então se dizia que a noite ia chegar.
Nenhum morador contava dias e nem cabras e nem dinheiro. Lá não se contava nada, todos viviam felizes, apesar das diferenças e divergências: havia garota e garoto de cores preta, verde, marrom, lilás, enfim, de todas as cores! Só não havia nem garota e nem garoto da cor azul. Bom, as divergências eram sempre por causa dos nomes das coisas. Por exemplo: o que em outras cidades se chamava cabra lá era chamada por uns de mito e por outros de velha; boi era razão ou forte; céu era chamado por uns de vento e por outros de janela. Tudo tinha sempre dois nomes: bicho, vegetal, mineral, até fenômenos da natureza. Só tinha uma coisa que era chamada apenas por um nome: as pessoas. Uma era chamada de pessoa preta de um metro, outra de pessoa verde de um metro e dez. Todos se chamavam Pessoa + a cor da pele + a altura. Lá também não existia escola, pois todos aprendiam errando, fazendo de novo. Conversando e observando até acertar e, a partir daí, não erravam mais.
Nunca se viu briga na cidade azul. Havia divergências, mas todos queriam viver bem, sem raiva e sem tristezas. Havia zangas de um com outro, mas tudo passageiro, pois ninguém guardava mágoa e a vida corria assim, com muita abundância, felicidade, muitos sorrisos e força.
Mas um dia o céu amanheceu completamente azul e aí então eles apareceram...

De longe não pareciam nada e aí foi aquela conversa: pessoa verde de um metro e dez disse de um só fôlego
─ São os peixes! ─ (peixes para pessoa verde eram frutas grandes como melancia e para pessoa vermelha de um metro, era o nosso capim santo) e todos começaram a dar os seus palpites. A cada palpite eles se aproximavam. Até que todos perceberam o que eram aquelas figuras estranhas. Pessoa marrom de um metro e seis falou logo
─ São pessoas grandes e são todas pretas ou brancas e são também feias e tristes.
Então chegaram o que em nosso mundo chamamos de adultos, mas na cidade azul ninguém nunca tinha visto um. Quando chegaram foram logo reclamando de tudo: derrubaram as árvores, sujaram os rios, maltrataram os animais e ofenderam os garotos. Um adulto foi logo dizendo pra pessoa roxa um metro e dois
─ Que menina horrível, deve ser doença contagiosa! ─
E deu logo um sopapo na menina, que até aquele dia nunca tinha apanhado. Foi aí que os meninos da cidade azul fugiram, e de longe ficaram olhando os adultos, que bebiam, falavam palavras feias, brigavam e destruíam tudo ao seu redor.
Três meses se passaram e as crianças antes sadias, adoeceram. As estrelas fugiram da terra e foram para o céu porque os adultos começaram a arrancá-las. As águas ficaram todas azuis, tanto de dia como de noite. Os bichos sumiram e o sol que era sempre bem vindo ficou zangado e começou a queimar tudo o que antes era uma bonita vegetação.
Passou mais um mês e então uma garota que se chamava Pessoa Preta de um metro e oito falou:
─ Pessoas de todas as cores e de todos os tamanhos. Devemos colocar essas pessoas grandes para fora do nosso mundo, porque se não nós vamos desaparecer.
Era assim na cidade azul, quando uma dúvida ficava perigosa ou quando ninguém sabia resolver, era sempre uma garota, de qualquer tamanho ou cor, quem resolvia o problema. Ela simplesmente aparecia, falava e todos aceitavam. Lá, as garotas, eram quem resolviam os impasses, mas isso não significava que os garotos eram menos importantes.
Todos aceitaram a idéia da garota e então se organizaram para que nada desse errado. Como todas as noites os adultos bebiam, brigavam e dormiam, ou melhor, desmaiavam e sempre acordavam muito tarde, nessa noite, quando eles dormiram, os meninos e meninas, amarraram todos eles, e chamaram os pássaros, que voaram com eles para outro planeta.
Os meninos desmaiaram de tanto cansaço e fraqueza e quando acordaram perceberam que era noite, pois as estrelas estavam de novo na terra. Foi então uma alegria como nunca houve antes! As flores começaram a nascer, a água a ter as cores de antes, e alguns ainda pensaram que tudo não passara de um sonho.
Como nesse mundo, as pessoas não ficavam com raiva por muito tempo, hoje, eles lembram dos adultos, como de pessoas tristes, que gostavam de brigar e de destruir tudo, por que na verdade eram doentes.
Foi aí que eles decidiram o que fazer se os adultos aparecessem outra vez na cidade azul, eles iam, agora eles tinham certeza, agir logo na primeira noite e impedir toda aquela destruição e dor, agora eles sabiam como fazer isso..
E nesse clima de alegria e descontração, a festa continuou no mundo colorido azul da cidade azul!


ronaldo braga

quinta-feira, janeiro 18, 2007

O artista plástico Ederson está fazendo quadrinhos
com o texto teatral "Fúcsia" escrito em quatro mãos por:
ronaldo braga e nelson magalhães filho.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

TÃO LEVE COMO A NEBLINA

Você diz
não conseguir
engolir meus poemas
que ficam entalados
na sua garganta.
Pensou que serveriam
como bálsamo
ou
terapia para sua cura
isso é o que você acha Baby?
Aos meus poemas
não posso suscitar
nenhum tipo de sentimento
ou embotamento
por não saciarem
sua fome de palavras.
Meus poemas,
não servem de rampa
não são extraidos
de qualquer planta
nem contem o doce
da rapadura.
Meus poemas
possuem uma loucura e tanta
e escorrem feito resina
anfetamina
procurando espaço
no braço
da pobre menina...
Meu poema
pode nascer de um vômito
nas fezes ou num escarro,
morrer de bala perdida
ou
sob as rodas de um carro.
Meu poema,
pode ser um reles vagabundo
um desgraçado qualquer:
mas ele não morre de medo
carrega milhões de segredos.
Meu poema
é o que é?
Uma sina...
Nefasto.

luciano fraga

( poeta de cores e sonhos, eu seu amigo de infancia não o sabia poeta e maravilhado quando li sua poesia exclamei: ele fala a minha geração. Obrigado luciano por sua poesia: fecunda e fatal.)
Colherei ervas
com a mão esquerda
na estação do inferno
mesmo que o musgo das pedras coléricas
possa através do anjo roubar-me a alma.
Há moinhos de vento no céu aceso
sombras -asas e rufos quando sussurro
tu como morcego vermelho.
E você vai embora bem funda da noite
deixando pinturas inacabadas
e na boca silente um girassol de van Gogh.


Nelson Magalhães Filho

terça-feira, janeiro 16, 2007

sem titulo

Quando
você exibiu,
um eterno
sorriso cor de abril,
o meu
inverno
inverso,
em febris
noites
te perdeu,
nas sombras
e
auroras
fugazes.
Quando verão
tu
nem
me
reconheceu.

ronaldo braga
dezembro 2000

AMARANTO

Chorei as ervas dos olhos
em tuas chagas
teu lar é a resina doce
que brota do peito meu.
O bálsamo de amaranto
na voz, no toque, no verbo.

carícias
de um novo século

Meus lábios em tua alma
frescor de palmeiras gêmeas.
Ouvi a música do verbo
aprendi o curso do rio
ardi a sós no poema.
O luar reflete os vales
e sabe que não são seus.

Patricia Mendes

sem titulo

como se fôsses
de um barco conhecido
que o tempo molda...
acalma
o que em mim
é
ARTE
e não te afastes
da carícia desse sol
que se insinua

beijam
as ondas
tuas encostas
e voltam nuas.
agraciadas ondas que se despem.

Patricia Mendes
( eu sou fã incondicional da poesia e do sorriso doce de Pat, menina linda cantando a vida )

domingo, janeiro 14, 2007

meninas sorriam sexo em aromas de bormélias e café

1

Espinhos adornavam beijos, e
Perdidos, acalentavam esperas.
E luas fugiam com o horror
nos olhos de outros mundos, e
na sala,
ameaças solenes ritmavam medos e
impunham hierarquias de vermes e mortos.
Eu planejava assassinatos
e professoras
mortas
invadiam meu cérebro.
Era junho
e um frio cortava amores e
praguejava sonos deixados.
Lá fora
flores choravam luzes e
meninas sorriam sexo em aromas de bromélias e café.
Recreio triste,
na chuva
irritava dentes
e provocava tédios.
Professoras mortas
vociferavam valores
e glorificavam passados e
seus pés chamuscavam lamas
e podres insetos sorriam delas
enquanto seus cús
olhavam famintos as horas e
desejavam horrores de
preces e rezas.

11

A porta
aberta
invertia sons
e sombras apáticas calavam
corredores de um junho medonho.
As horas cansavam esperas em águas correntes
e luzes azuis faiscavam agruras
de verdades
vomitadas a ferro e fogo
e esquecidas
em babas
e punhetas de mar e
sonhos,
em mulheres impossíveis e nuas.
Espinhos adornavam canções
e beijos de pedras sorriam desgraças e as notas
caiam pesadas nas infâncias
de poeiras e suores.
Enquanto os medíocres
sorriam tijolos e nojos.

ronaldo braga
( poema dedicado a BAIXINHA DA VITÓRIA, A MELHOR RUA DE CRUZ DAS ALMAS)

sábado, janeiro 13, 2007

FLUXOS E CORTES

Possesso processo
de corte.
Aparição desalmada,
e desesperada de uma alma
em um insistir desalento,
Desabrochando aos borbotões,
fluxos invernosos que extrapolam os verões e
assassinam beijos.
Uma poesia que grita o murmurar não compreendido dos amantes,
Fiéis,
unicamente amar.
E desafia o cantar
surdo das notas insistentes.
Vida
não por clemência,
mas,
por potencia.
Como ruminar força,
e teimar a derrota da morte:
Por viver e viver e viver.
Uma canção aos corações soturnos e
delicados.
Uma canção
Dormindo nos cactos
E bebendo o silencio do veneno,
na noite em que os imbecis clamavam clemencia
e matavam o amor
e expulsavam para longe de seus figados
o gosto amargo da felicidade,
eles querem o doce.
E a flor de laudano lhes indicou:
A inutilidade do mel;
E a desaparição do amor no amar comum.
Uma flor
espinho,
Onde o poeta dorme o sono das crianças
em desertos sombrios,
e pode conversar com suas almas nada lamurientas.
Uma flôr invisível,
onde o poeta eterniza a alegria sem alarde.
E sem desespero
descobre
o perigoso,
raivoso
e impotente
povo cansado.

ronaldo braga

silencios ocultos

o interior
dos silencios
aprofunda
no corpo
o grito
é mudo
em angustias.
a pele se refaz em
cortes

Zeca Magalhães o KAZÉ

sexta-feira, janeiro 12, 2007

CINTILÂNCIAS

Uma poesia
desnudando cintilâncias opacas,
nas falsas noites fervilhantes
de brilhos escuros,
estupidamente
rejeitando a paixão sem vergonha dos jardins do poeta.
Uma poesia
despetalando zoófitos nas similitudes,
rasgando noites de recôncavo e
reencontrando as noites bêbadas
nos absintos impositores e decididos.
Uma poesia
palavra sem semelhanças,
destronando e coroando
siginificados e significantes
nos vazios ocos
Morada e desprezo dos loucos primeiros.
Um poema sujo,
desgrenhado,
despencando alturas em uma altivez capenga.
Uma poesia surda
assassina.
Um sentimento
perigo.
Traindo todos os fustes solitários e inúteis,
Inútil traço latitudinário das emoções.
Sinais sem abrigo.
Uma poesia:
perdição dos deuses envergonhados e das
mulheres embustecidas e coloridas nas
vargens esquecidas
das falsas noites cintilantes.
Que grite.
Que faça.
São palavras indizíveis penetrando a
carne insensata.
Um amor inadvertido e
traidor.


Ronaldo braga


foto do ator ronaldo braga interpretando o personagem ladrão do filme

MATADOURO de Nelson Magalhães Filho ano 2005

pintura de Nelson Magalhães Filho

Pintura de Nelson Magalhães Filho, que foi capa do texto dramatico
FÚCCIA, de Ronaldo braga e Nelson Magalhães Filho ano 2000.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Em heteromorfos sentidos acordados nos silvos agudos das noites, silhuetas zuniam desesperos por todas as cores, e vozes e medos assolavam iminências imêmores, transpassadas nos desusos dos faustos perdidos. A tarde insinuava certezas atrozes em luzes brilhantes e fecundas, e meninas escondidas, dançavam saias e suspendiam vestidos, em azuis jardins míticos, e cantando amores oníricos recebiam reclames de pesadas matronas histéricas por perdidas clivagens manchadas e inelutáveis.
Sentado em flores e absorto em planos, ele imergia pensamentos, engendrando uma decisão eminente, e sorria satisfeito. Pelas ruas, homens ausentes, envergados e tristes, caminhavam para suas lidas, e suspiravam gotas permitidas, que insistiam das suas têmporas eriçadas, pesados amores de covardes tempos imemoriais. Nas portas, velhas ninavam musicas em lembranças molhadas e seus sorrisos ousados, elidiam tristezas. E por esse povo paradoxo, de gestos submissos e medos estampados, ele sorria desprezo e uma cruel amabilidade. Caminha buscando o encontro do inevitável gládio, na ímane tarde constitutiva e imanente, fincada nas bromélias lamurientas.
Pedras, flores e cores povoavam nuvens e ventos, e todo o espaço do entorno. E ele sabia a espera e mais ainda sabia, a anomalia das colheitas das almas cansadas: sem cruzes e sem choros. Flutuando nomes e datas em dispositivos definitivamente transitórios.
A cidade, sentia a iminência do parto, e insulava calores das classes partidas, e esperava o emergir, de seculares horrores, em recorrentes canções mortas, de esquecidos sonhos, e intensificava insultos numa desesperada esperança de sobrevivência. Covardes condenavam criticas em esquivos carinhos e artistas sonhavam sucessos de suas obras transmutadas e depreciadas: pobres mercadorias de inflexões caladas. As bocas cantavam entregas e dedos apontavam culpados e enclausurada a arte era passeio e diversão.
Nos bares, grupos bebiam a servidão, e marcavam rancores em cada interstício, e ouviam do nada, sinceros fingidos sentimentos, e em cantos distantes poetas perdoavam tempos e tudo, nas remanescentes recorrências estóicas, e bebiam luzes em difrações infindas, e cheiravam flores em chuvas de jasmim, com suas musicas incansáveis de demiurgos sorrisos.
E ele sentia a poesia, a adoentar e a irritar, respeitáveis senhores das velhas casas de culturas, presos nos infernos das dores remotas e das prisões de agora. Sabia das mortes caiadas nas oikos de compras e de artes, e sabia o inevitável do mofo nos desusos poéticos aprisionados e sabia das impossíveis transformações, e sabia do povoar medíocre, em letras facilitadas, e compradas a quilo.
A noite se aproximava, e cores berrantes exigiam silêncios. E os poetas bêbados e expulsos, choravam rancores nos jardins de mortos. Enquanto nas mesas, sangue inundava os respeitos e impunha risos corretos em tribunais serenos, tragando vidas em recorrentes covardias estritamente legais, os loucos rasgavam peitos de flores murchas, e marchavam à escuridão, em luas sangradas, e enfurecidas estrelas, enforcavam anjos, em medíocre bondade terrestre.
Mulheres rasgavam temores e perdiam pudores e a cidade gemia açoites, e olhares impotentes rezavam terços, e rogavam mudanças, e prometiam vinganças.
A solidão avançava madrugada, e cansada a cidade postulava mortes, em agudos olhares de víboras. E ele sabia o momento e sorrindo esperava o amanhecer.

ronaldo braga

EU NÃO SINTO SOLIDÃO

É a noite desamparo
das montanhas ao oceano,
porem eu, a que te ama,
eu não sinto a solidão.
É todo o céu desamparo,
mergulha a lua nas ondas,
porem eu, a que te embala
eu não sinto a solidão.
É o mundo desamparo,
triste a carne em abandono,
porem eu, a que te embala
eu não sinto a solidão.

poema de Gabriela Mistral (tradução de M. Tereza A. Pina)
Gabriela Mistral nasceu em Vicuña,pequena cidade ao norte do Chile, no dia 7 de abril de 1889
foi a primeira escritora latino americana a ganhar o premio nobre de literatura, no ano de 1945.
Morreu em 1957 na cidade de Nova York
Era bem pesada a carga naquele dia, como em todos os dias. A minha cabeça inchada e dolorida exigia mais uma cerveja pra voltar ao normal. Merda, eu não poderia pensar em um trago antes do almoço, mais uma vez eu acordara tarde como sempre e vomitara mais do que o normal. O trabalho sobre a mesa acumulara na última semana, mas essa tarde seria como todas as tardes, assim que eu tomar uns tragos iria atualizar todo o meu serviço. Uma olhada ao redor e eu pude notar todos ali no escritório a murmurarem entre dentes e de um jeito como só os covardes fazem, com uma maestria e uma falsa valentia que me forçava a rir e então uma pontada violenta sacudia a minha cabeça.
O meu olhar percorria toda aquela papelada inútil e um clamor de raiva fazia a dor de cabeça aumentar até o impensável. Duas horas depois a conversa ainda era sobre mim e dona Z uma gorda que não sabia nem mesmo o que era amar dizia pra dona G uma magra azeda que sorria sempre por qualquer motivo, mais falava mal de todo mundo. No momento que eu pude ouvir era assim o diálogo das cobras esquecidas:
Dona Z - minha filha, como esse homem ainda trabalha aqui? Ele não faz nada até o almoço. E só trabalha um pouco pela tarde. Todos os dias ele vem com uma cara de bicho. Também bebe sem parar.
Dona G – bebida só! Minha querida ele deve ser um grande drogado. E as farras com mulheres! Não sei como ainda tem mulher que se dá ao desfrute de ir pra cama com um tipo desses.
A conversa era sempre a mesma. Quando não eram elas, era o senhor T. Um desprezível impotente e mesquinho, que estava sempre contando vantagens sexuais. Todo dia, ele contra o meu gosto, vinha até minha mesa, e me dizia com uma cara deslavada e mentirosa.
- Senhor P. essa noite foi maravilhosa, maravilhosa - e repetia a palavra maravilhosa, umas quatro vezes e completava:
- Foram duas gatas. 20 anos a mais velha, e foi por toda a noite. Estou cansado senhor P. cansado, mas disposto, e hoje vou produzir muito. - Ele dizia produzir muito e olhava para os papeis em cima da minha mesa e perguntava.
- Senhor P. o senhor tem problemas com as mulheres? - Ele perguntava e saía rapidamente e eu sabia que ele ia direto falar com o chefe, falar mal de mim.
A hora do almoço era o meu alivio, eu tomava uma cachaça e bebia duas cervejas bem geladas, e comia uma comida fria e descansava por 40 minutos e então voltava ao trabalho e todos podia então saber por que é que eu ainda trabalhava ali. Além de resolver assuntos do chefe, que os imbecis jamais resolveriam, eu dava duro. E à tarde, eu estava de novo atualizado. E então eu olhava pra dona Z e dona G e dizia.
- Aí, vamos dormir juntos hoje? Nós três. Aproveitem que hoje eu estou comento qualquer desgraça. Elas sorriam como só os covardes sabem fazer e respondiam juntas
- Senhor P. não diga isso, nós somos duas senhoras de respeito. - E ficavam lá doidas que eu insistisse no convite, e aí eu saía vitorioso e tranquilamente ia para o meu santuário, o bar Taetro. O bar Taetro era do amigo Z, poeta e pintor e outras coisas.
O poeta Z. me vendia fiado e não ficava muito preocupado. Z. queria mesmo era uma boa conversa e ler meus textos, eu também arriscava uma luta desigual com o papel e a caneta.
Com o Z, eu passei a conhecer poetas e escritores mortos e vivos e gastar algum com livros. Eu compensava bebendo fiado e de graça no Taetro. No passado o bar apresentou peças teatrais, mais um agrônomo que se auto - intitula artista e que diz ser o dono do espaço onde fica o taetro criou problemas com a prefeitura que é a dona mesmo do prédio e Z desistiu. Agora só leituras de textos poéticos que aconteciam logo após o fechamento do bar. Eu era sempre convidado, e não perdia uma única leitura e então eu chegava cada dia mais tarde no trabalho. E aí o Z dizia
- P largue aquilo e venha ser meu sócio, tem comida, bebida, poesia e teatro e você dorme aqui mesmo e tem um lugar pra você vomitar a vontade. Eu respondia sorrindo
– Qualquer dia desses Z., mas, e sua mulher? - Z me olhava bem, me media e respondia.
- Se você passar do limite eu te mato. E depois dava uma gargalhada. Eu sabia que o Z. falava a verdade. O Z era legal, mas era homem de verdade, não tava pra brincadeira sem sentido e o sentido era o Z quem determinava. Bebi mais uma, fui ao banheiro, vomitei tudo o que pude e voltei e me escorei no balcão e comecei a observar o Z. trabalhar. Tomei mais algumas, e depois já com o bar fechado, li alguns poemas novos e agarrei a Lídia e fui pra casa, pra mais uma foda nesse mundo benevolente, poético e apaixonado por mim.
Amanhã seria mais um dia de cão.

ronaldo braga

terça-feira, janeiro 09, 2007

HÁ UM CORPO EM CHAMAS DE UM HOMEM NO PANTANAL MATOGROSSENSE

Em memória de Francisco Anselmo Gomes de Barros, “Francelmo”


Domingo,
dia que Deus descansou depois da labuta
após criar o mundo:
de céus, planetas, terra, rios, mares, bichos, plantas
e o homem sobre a face da terra.
Em Campo Grande, Iracema Sampaio
chora.
Dom Pedro Casaldáliga
ora.
Manuel de Barros
procura sentidos nesse gesto.
Almir Sáter e João Bá se perguntam
porque o Tuiuiú está em silêncio?
Na Bahia,
meu avô, Augusto Asclepíades, diria:
“O mundo termina em fogo.”
Mas, não durmo,
e minha mão arde,
nessa lembrança de fogaréu.
Por que, heim, Anselmo,
foste tão glorioso na tua própria coivara?
Eu, sei, Sabino Alves Sampaio
está perplexo diante das labaredas.
Há em mim
essa vontade incomensurável
de te enviar para te salvar:
caminhões de “Paraqueimol”.
Os peixes ainda conversam,
falando de tua história.
São tambaquis, piranhas
na mansidão dos igarapés,
entre garças e jacarés.
O Bugre te louva.
E até penso que o povo de Mato Grosso,
de Tocantins, do Pará,
fazem de tua chama,
luzeiro de um novo tempo que se descortinará.
Nós,
ficamos por aqui,
doidos de dores.
Enquanto
Tu queimas numa praça de Campo Grande,
eu peço ao Cão,
que pare com toda essa devastação.

MIGUEL CARNEIRO

domingo, janeiro 07, 2007

Faróis apagados

Novembro era metade e a noite engolia as loucuras de uma lucidez mórbida e consistente. Eu, N. M. F e L. F alta velocidade em um carro bêbado, gritando suas luzes apagadas e parindo desesperadamente sentidos e vazios. Uma atriz obscena sussurrava carinhos e quando suas eternas crianças choravam em nosso asfalto, reluzia uma escuridão possibilidades.
O ronco do motor anunciava liberdade com os ventos. E uivos e certezas martelavam um Bob Dylan amargura. O ronco das curvas prenunciava sorrisos e era meia noite e os fantasmas agasalhavam nossas duvidas em flores femininas.
O volante em desesperos floridos agarrava as mãos e juntos cantavam versos de uma tristeza amarga e bela. E em todas as salas feias, a obscena atriz insistia em seu sucesso e brilho de um mundo eternamente escondido, e sua beleza era uma mascara a sorrir toda sua maldade e seu corpo em frangalhos era poesia de uma mulher perdida, revelando brilhos ocos em um ritual de fracasso.
Farol aceso nada mais banal: Um carro a deslizar pobremente e um olhar não diziam mais nada, Só entendiam o desprezo de uma morte orgulhosa e organizada em paredes frias de amores, já há muito tempo descaminhados.
Os nossos risos, de uma ironia triste, faziam - nos, caveiras de nós mesmos, e era o silencio nossa conversa alegre.
Outros minutos dentro de um carro triste na noite, e novamente o apagar faróis e a vida retomava seu posto vigilante e suspenso, e a morte era o remédio e a salvação.
O ronco do motor continuava sua oração e todas as mulheres com seus cheiros, povoavam uma canção composta por uma nota só: Solidão.
L.F. insistia o caminhar solitário e N.M.F. sorria crueldades na atriz cansada e feia e cantarolava velhas canções de morte.
Novembro avançava numa noite que insistia um continuar lúgubre e no triste deslizar das rodas, ferviam palavras indizíveis, e para sempre ignoradas. O ronco era a certeza do lugre e saudades abortavam toda bestialidade.
Romeiros ausentes persistiam suas dores em nossas viciadas verdades. E para todos os bêbados o mundo era um copo vazio a gritar socorro por todos os líquidos alcoólicos. E o ronco do motor acompanhava a rouquidão de um Bob Dylan insistente e anunciava a porta de mais um bar naquela longa noite de mulheres esquecidas e esforçadas.
A lucidez, em dezenas de cervejas, trocava as pernas. E os beijos acendiam os faróis de uma estrada por demais infinita. E então entrar nos esgotos, e beijar os ratos, era apenas uma bela fatalidade.

Ronaldo Braga

sexta-feira, janeiro 05, 2007

foto do elenco da peça " uma fábrica em concerto" que eu dirigi (ronaldo braga )
em cruz das almas, os atores todos de cruz. saudade, muita saudade
desses atores que com seriedade, profissionalismo,muito talento
fizeram uma maravilhosa peça emocionando uma platéia
surpresa e inteligente.
outro trabalho do artista plástico nelson magalhães filho
marcando as almas em conflitos numa fuga para mundos
onde amar possa não ser crime.
essa é a arte de nelson magalhães filho

quinta-feira, janeiro 04, 2007

CANÇÃO DE UMA NOTA SÓ

Ela lamentava distúrbios latentes, e corria os olhos por todo o ambiente e acedendo passados sabia ser a hora da decisão. Ele sorria em silêncio e rememorava ausências.
ELA – Nada mais resta.
ELE – Tudo está por vim
ELA – Tudo fugiu e ficou você, um espantalho da dor, envolto em mistérios forjados.
ELE – Cada um sabe de si.
ELA – De mim nada sei, sei do tempo perdido e de amores escapados
ELE – Você ao menos podia confessar.
ELA – Confessar? O que?
ELE – Suas abjeções, traições e principalmente sua incapacidade de amar.
ELA – Em que mundo você vive? Em que mundo você viveu esse tempo todo? Pra me falar assim? E questionar o amor? Nem a você, você amou.
ELE – Sua especialidade. Mudar tudo o que eu digo. Você me traiu ou não?
ELA – Traição é algo profundo. Eu traí a mim mesmo mantendo essa relação morta, e traí meu coração fechando meus olhos pro mundo.
ELE – Você me conhece, sabe o que eu quero e sabe como eu sou, evite tragédias. Você me traiu ou não? Eu digo melhor, você transou com outra pessoa?
ELA – Só isso te preocupa? Sexo? Se eu trepei ou não? E você não perguntou se eu transei com você? Eu transei alguma vez com você?
ELE – Agora endoidou, o que toda noite a gente faz é o que?
ELA - Canção de uma nota só, estupro, violentação de direitos. Ouviu. Eu jamais transei com você nesses quinze anos de casamento. Você derramou em mim, tudo o que tinha. E nada mais restava, senão nojo e tolerância. Por medo, e especialmente por esperanças, eu aceitei e me calei.
ELE – Eu te dei amor.
ELA – Amor? Você subiu, penetrou, gozou e dormiu. Nada mais. Nunca gozei.
ELE - Não sei o que você fala. Você deve ter problemas. Eu sempre demorei penetrando.
ELA – Você é burro, bruto e egoísta, eu sou mulher, tenho necessidades de mulher. Como carinho, toques e massagens, não somente somente penetrações.
ELE – Esse papo é de doente, você quer me humilhar dizendo que eu não sou homem.
ELA – Vamos encerrar a conversa. Eu vou embora. A casa é sua e fica pra você.
ELE – Tá vendo, já existe outro e você vai direto pra casa dele. Confesse.
ELA – Eu não suporto você, não tenho mais nada com você e não lhe devo satisfação.
ELE – Você pode estar certa de hoje pra frente, e antes? Você me traiu?
ELA – Porque essa insistência, eu nunca quis saber se você me traiu.
ELE – Mas eu quero saber, sou homem e quem me trai morre.
ELA – E você quer me matar? Então mata. Por que eu te traí todos os dias nos meus pensamentos, todos os dias, horas, minutos. Eu sempre desejei que você morresse, e todo santo dia pensava em algum artista enquanto você me estuprava.
ELE – Você é uma puta, uma safada. Mas eu quero saber: você trepou com uma outra pessoa?
ELA – Você será sempre um arruinado.
ELE – E essas cartas? Pra quem você escreveu?
ELA – Para um outro homem - você
ELE – Um outro eu? Você quer me endoidar? Doida eu sei que você é, mas se pensa que eu sou otário, tá muito enganada. (mostra uma faca)
ELA – Otária fui eu ficando aqui com você por quinze anos.
ELE – Esse papo tá demorando, quem é esse outro eu? Vamos, diga. Não vai dizer? Eu vou descobrir, e se não me disser, eu mato você, descubro, e mato o outro eu.
ELA – Não tenho como explicar isso a você. Você é tapado, e só anda com raiva do mundo.
ELE – (Enfiando a faca no peito dela) Não me chame de tapado. Eu sempre lhe avisei. Não me chame de tapado. (Ele enfia a faca seis vezes no peito dela e continua bramindo.) - Não me chame de tapado. Não me chame de tapado. Não me...
ELA – É ... Vô ...
ELE - (descontrolado) Não me chame de tapado. Não me chame de tapado.
FIM
ronaldo braga.

o amante das flores

nas montanhas de Valkeri
entre
os inflamados pavões reais
encontrei
uma flor
tão grande
como minha cabeça
e
quando me aproximei para
observa-la,
perdi:
um pedaço da minha orelha;
um olho;
e a metade
da carteira de cigarros.
regressei
dia seguinte
com a
intenção
de cortar
aquela maldita coisa,
porem
a encontrei
tão bela que
em troca
matei
um pavão real.

Charles Bukowski
( E U A)
tradução- ronaldo braga

lua negra diabólica da minha janela

lua negra diabólica da minha janela
roça tua pele insólita
de areia lambuzada tão soturna
com os morcegos
alheando-se de meu quarto
as feridas já são dentes crivados
no corpo
vejo gente navegando na cinzeza
das ruas
- gengivas rasgando a língua
língua colada boca-a-boca
as pessoas tão ocultas
em meu corpo lodoso das esperas roídas
lua negra diabólica da minha janela
roça tua pele insólita
não quero morder tua
boca queimando as neblinas
da vaguidão.

Nelson Magalhães filho

AVÔ

Numa noite,
assoviada poeira de estrelas
meu coração vazio insistia na rua.
Vovô naquela vez não escrevia poemas
mas vadiava todo prateado pelos becos
e arrancava luzes com as unhas inquietas
das verdes paredes descascadas pela lua
(a noite inteira chamando chamando).
Às vezes nos entreolhávamos numa esquina,
eu era príncipe-felino
ele tinha asas
que rasgavam o paletó mais negro
que a flor da morte.
Sacudia os ombros meio esquisito,
ainda não dorme, dizia-me
deixe-me levá-lo para casa
ainda é uma criança
é cedo para o delírio sutil.
Seus cabelos lambidos como os de Gullar
um sapato vermelho
vovô meio dada
pendurava um brinco discreto na orelha esquerda
e na outra um vagalume
costurado com uma linha mais fina
que o silêncio.
O caminho era prisioneiro dos meus dedos magros
(frestas cheias de calos e suor).
Uma agonia
um hálito embebido de coisas noturnas,
velórios
príncipe dos gatos bebendo nos bares.
Vovô sem barba, olhos pretamente abertos
nariz comprido.
Nossos corações vazios rolavam ladeiras
bebiam seixos no rio
(ontem não vi Bartira e o sapo ao luar).
Naquele tempo ao céu piscava devagarinho
nos velhos sobrados,
e capturávamos borboletas negras outras azuis
pelos postes altas horas
recitando Allen Ginsberg, Rita Lee
sem fadiga, sem dormir dias e dias,
não fazia tanto frio.
(Eu tinha mandado uma carta para Silvana).
Subíamos nos telhados
roubando o sonho que esqueciam pela manhã.
Quando chegasse em casa
ia ter legião estrangeira ou a hora da estrela,
cartilhas de comunismo...
Naquele tempo eu signo de cachorro
outra vez adormecer todo queimado.
Ontem amei Celuta, ai flor!
Cel tem cheiro de terra molhada
e assim caminha levada...
Baratas chovidas pelo chão, I. disse:
você tá sonso, meio crisântemo.
Chove pouquinho. Dragão, Bach,
tenho desenhado bastante.
Som de Caetano, muito (dentro do peito
azulado de araçás). Canto sem parar.
Carinho de vampiro em I. Se eu te queimo...
Outro sonho: tava eu e...
uma pontada de noite ameaçou minha cara,
uma noite de van Gogh
carruagem espelhada cheia de folhas de mármore
como cisco avermelhado no olho
começava a chorar...Vovô, e vovô sumia, e eu ficava triste
aguentando as rajadas cruas das lamparinas
amarelas, também dançarinas amarelas
batiam palmas de casa em casa
passeavam com argolas nos dentes, ossos doendo.
Com uma tesoura amolada no realejo
recortei um pouco daquela água
e banhei a tarântula
feito farinha num peixe teórico.
Vovô sozinho atravessava muros e jardins
muito leve flutuava perdido pela cidade
gritava meu nome, acorde, toque
curto-circuito nas redes tortas e eu chorava
chorava. Seus olhos ainda trincavam-se.

Nelson Magalhães Filho
Minha alma tornou-se
amiga do meu corpo
e já não sei o que desejo de ti
pois meu desejo
comove minhas veias
e se acasala
e raízes, flores e florestas

Esse roçar de lábios
em meus cabelos
essas mãos que não se
acanham
esses lagos...
e tudo o que não dizes
já escuto
pois é o melhor de ti e estremeço

Recoheço o teu refúgio de arbustos
e o som do búzio em meus ouvidos
Maré de março

Beijar-te no olhar
o nó das lágrimas
e o compromisso secreto
do não dito
pois já conheces
o mistério da palavra
e a luz de um
poema morre
quando escrito

Patrícia Mendes

Meninos dos Quintais - Nos tempos do Cerejão

Inquieta-me reler o céu
debruçado
sobre épicas máscaras,
quando a tarde cai.
Impacienta-me rever o tempo
com a fome dos labirintos
nas estrelas ausentes,
quando a noite adentra.
Nunca mais;
beijos platônicos,
masturbados,
cravejados de punhais,
vazados,
por debaixo das mortalhas
das paixões etéreas e mortais.
Os olhos,
de pérolas sem conchas,
refletem
inexploradas marés,
virgens continentes,
assolados
por lendários girassóis
que perpetuam
medrosas saudades,
vertidas
das pedradas sombrias,
desFERIDAS
contra a pupila das árvores,
dos comedores de sonhos.
Nunca mais;
constelações de amigos,
pequenos dilúvios,
peripécias nos muros...
Nunca mais;
olhamos pelas janelas
dos desaparecidos quintais.
Nunca mais;
doces cerejas acesas...
O tempo apagou...??

Luciano Fraga
Para:NMF

terça-feira, janeiro 02, 2007

Eram três horas de uma madrugada espelho fosco quando eu entrei no brega central de cachoeira e as putas solitárias desenhavam tristezas em um olhar sinédoque implorado e esquecido. O feriado nacional chegava e ainda noite estrelas caiam pra longe dali. Sentei e uma puta que aparentava quatorze anos se aproximou e seus passos fracos tremulavam socorros.
- O que o senhor quer?
- Cerveja e cigarros.
Ela me deu um beijo afrásico no meu ouvido esquerdo e saiu soletrando silêncios. Um tempo curto e de volta com os pedidos sentou ao meu lado.
- Quer companhia, ou deseja ficar só.
Eu não disse nada, mas segurei seu braço e toquei com os dedos sua coxa direita e era macia a infância tocada e náuseas e desejos se misturavam no terror do meu tocar. E pirilampos saiam de seus gestos em direção a brinquedos perdidos.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e cinco – ela arriscou.
- Quinze - eu disse
- Vinte - ainda insistiu
- Quatorze - falei autoritário
- Dezesseis - disse inaudível, vencida
- Quatorze - eu afirmei imaginando famílias famintas em dias violetas e rezas errantes e um eterno reduplicar misérias.
- Tá bom quatorze, mais não diga que eu disse. O senhor não é pólicia, é? Ela então desabou em uma amência latente e medrosa.
- Não. Não sou da policia e estou adorando sua coxa. Quanto é?
- Sete do quarto e 20 meu. Tá caro? Ela disparou como um colt antigo e esperanças faiscavam seus olhos enquanto suas pernas dançavam uma indigente abertura ensaiada
- Não, tá excelente. Você já foi quantas hoje?
- Três. E eram todos velhos. Mais velhos que o senhor. Um nem quis botar dentro. Gozou em meus peitos – Uma pequena repugnância alterou seu rosto infante.
- Bem, vou beber e depois nós vamos pro quarto.
Ela acendeu um cigarro, colocou na minha boca, e depois acendeu outro e tragou desgraças inteiras de lembranças amassadas e distantes e começou a tossir. Sorriu e continuou o trabalho em meu ouvido: beijos, mordidas e carinhos gelados de uma flor em desesperos caiados de mel e framboesa numa noite de punhais e solidão mortífera.
Bebi calmamente a minha cerveja, e pelo canto dos olhos observava os clientes chegarem, e levarem suas sofridas e pesadas cargas pros quartos, eles andavam como em direção do patíbulo com seus pesos transpassados de intermináveis realidades encravadas em passados inenarráveis e para sempre calados nos peitos covardes.
Numa mesa distante da minha, uma briga ensaiava sangue e a dona com segurança calou os estômagos e manteve o azul da noite em deleite agonizante a esperar tragédias futuras.
Ali as tragédias eram todos nós, e nossos espermas cortantes de delírios trêmulos, de nojentos fluxos de covardias aprendidas em uma vida castrada e cega, com odores calados e tardes escuras nas noites em fugas.
Acabei a cerveja e a coloquei no colo e depois a levei pro quarto.
- Como o senhor gosta?
- Na bunda.
- Na bunda é cinco a mais. - Ela disse e suas palavras eram facas bêbadas nas consciências inexistentes.
Suas roupas caíram e uma nudez criança impunha um céu roxo enquanto musicas de morte me fazia sorrir e sorrir.
Dei mais cinco pra ela e ela sorriu um sorriso dor e decepção.
Ataquei seu corpo bebê e numa irredutibilidade isentálpica, consolidei meu existir numa crueldade libertária e cristã.
Rezei um pai nosso e enfrentei aquela bunda medrosa e numa isagoge lenta e perversa adornei a noite com um crime de amor.
E em tempos eternos, senti dor e prazer na cama fria, que amaldiçoava a minha vida, e o ísquio criança dolorido lamentava flores.
Dei por encerrado o serviço e a menina me olhou e chorando falou
- O senhor é o primeiro que faz isso com amor.
- Eu detesto o amor. Mas, amo putas e sexo. E você é uma criança azul de jardins de pedras com cactos e dor. Cuidado menina eu sou um matador, saia do quarto pois depois do sexo é sangue que eu quero.
Ela saiu sem acreditar e ainda teve tempo de por meu pau em sua boca para um ultimo beijo e eu me vesti e voltei ao salão, onde bebi mais uma cerveja e fuzilei com o olhar um ambiente tosco e ladino e meu cérebro era vitória e aquela velha sensação intolerante quebrava minha rotina e exigia atenção e na minha frente corpos obductos e caveiras e dejetos humanos a rir e chorar palavras de paixão com seus passos de fechaduras e desatenção, numa noite vermelha, onde a minha canção de morte agora era só um questão de espera e epistemê.

Ronaldo braga

Meninas Do Sertão

As mãos cansavam ladainhas em recorrentes febres, e a morte de todos os desejos calava o mundo anil das meninas enjauladas, e anseios e suspiros insistentes negavam tristezas nas peles eriçadas de sonhos, em um mundo de devaneios, desdenhando futuros em luas roucas, com seus medos a transitarem soltos nos dias negros do querer.
Elas postulavam silêncios em olhares atrevidos e palavras surdas reentravam desejos em corpos esquecidos.
Ao longe, romeiros praguejavam amores em suores covardes, e suas tristes músicas, eram ameaças à vida que teimava brotar em secos olhos. E ódios reativados, e impotências, desfilavam nos humores dos perdedores funestos e malditos, com suas sinfonias de mortos.
Pássaros caminhavam melancolias em passos úmidos e cheiros de amor e canções embriagavam encontros de outrora.
As manhãs cansavam odores e os olhares teciam esperanças nas raízes loucas e hemiplégicas e os corpos esquivos de imanentes eretísmos suavam negações nos cantos inelutáveis e constitutivos de todo sofrer. E sofrer, era a salvação e a vida, daquelas mãos eróticas de cantar salmos e preces, com seus loquazes medos a transpirarem sexo por toda terra fatigada de sangue e ferro e dor e fome.
Os dedos suspiravam descansos e entregas nos montes noites de estrelas cruéis e violetas, as mães suspiravam desprezos e em recônditos pensamentos amores invadiam anomalias e ventres e as faziam sorrir terra e cores e rios e passados de violentas paisagens.
As meninas em clivagens serenas, cantavam medos desérticos e amores sonhados em úmidas palavras vãs, e escondiam as mãos em seus rostos de prazeres invertidos e insulares, nos tempos soltos e movediços, a escurecer gozos e tremerem sonos nas noites, sem esperas, de ausentes beijos, a chorar lamas em camas frias, e sonharem céus e deuses numa desesperada peleja de peles e ausencias, cantando esperanças, e roubando salvações de um sono concupiscente. Seus sonhos perdiam alegrias e as faziam expulsar homens e bichos e mortes, e para sempre silêncios. A reza, lugar comum: onde todos os sentidos eram adormecidos e a vida perdia sorrisos e dores pululavam existências em canções de morrer.
Não haviam risos soltos nas infâncias esculpidas em medos, só o esperar de noites e dias, calavam choros futuros e vomitava sorrisos em loucos transes.
Pesadelos difratados rompiam noites e flores tristes buscavam jardins em cactos polimorfos e gentis.
As meninas dormiam cruzes.
E os meninos masturbavam salmos em correrias anêmicas.
Um silêncio quente resfriava sentidos no sertão brasileiro.

Ronaldo Braga

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Sem titulo

Persegues nas estradas
a mesma caça
O uivo enlouquecido de vermelhos
o alvo que farejas em fêmeas loucas
o pão de almiscar
e a carne tonta em tua boca.

Esqueceste de mim.

Há 40 anos pisoteio as ervas
para não ferir-te a língua.
O cheiro das rosas rotas
em meus dentes.

Há 40 anos amacio o verbo.
Enquanto ardes teus naufrágios
em outras fêmeas esqueces tua irmã.

Esqueceste
os versos de Florbela em minhas coxas.

Patricia Mendes

Perfume

Existe uma certa semelhança
entre os dias de hoje
e os girassóis da infância
O sorriso de vitória sobre os medos.
A chuva grossa encharcando as rosas
o perfume da terra que subia
ascendendo os rubis sob o vestido
a minha avó colhia anis pelas sacadas e separava as ervas
pelo cheiro
Assim aprendi poesia
o verbo e as ervas
em segredo
O mistério dos arrebóis em cada verso.

Patricia Mendes