quinta-feira, dezembro 27, 2007

DIVERSOS-AFINS COM SUA DÉCIMA LEVA

No desfecho de mais um ano de celebrações pela palavra, entra em cena a Décima Sexta Leva da Revista Cultural Diversos Afins. E os sentidos apontam para caminhos como:
- A poesia em Carlos Henrique Leiros, Líria Porto, Fabio Weintraub, Oswaldo Begiato e Romério Rômulo.
- Uma exposição fotográfica com Sérgio Luiz Pereira da Silva.
- Os talentos musicais de Isabela Moraes e Celso Fonseca.
- A intensidade de signos no filme A Via Láctea, por Cláudia Rangel.

www.diversos-afins.blogspot.com

segunda-feira, dezembro 24, 2007

a poesia de charles bukowski

Poesia

é
preciso
muito

desespero

descontentamento

e

desilusão
para
escrever

alguns
bons poemas.

Não
é
para
todos

nem

escreve-los
ou
mesmo

lê-los.

charles bukowski

trad.
j.j. pereira

domingo, dezembro 23, 2007

a poesia de miguel carneiro

breve recado a um amor longinquo.



Relembre-me, por favor,
Que eu lhe peço de coração
Encharcado de candura...
Quem usurpou nossa ternura?
Em que vão da casa escura
Encontra-se aquele amor que tanto procuras?
Ficou por um acaso no quarto entre os lençóis
Manchados com o almíscar de nossos desejos
A nossa doçura?
Noite de lua branca na Baía de Todos os Santos
E meu amor zanzando no mundo
Com suas pernas roliças e seu olhar de brancura
Reviro meu leito nessa busca insegura
E neste silêncio de cachorros latindo no breu
Pássaros noturnos voando sobre meu lar
Meu amor agora não está
Desacostumei-me de dormir só
Relembre-me meu amor
Que o momento é de pura fissura...

In inédito, Verão de 2007.

MIGUEL CARNEIRO

segunda-feira, dezembro 10, 2007

teatroteatroteatroteatroteatroteatro

Esse grupo teatral é da cidade de cruz das almas e com a direção do artista nelson magalhães filho fizeram no ano passado uma peça que antes de mais nada buscava nos gestus, nos sentimentos e na geoagrafia cenica discutir a realidade humana, tendo como arma somente a capacidade interpretativa dos atores, sem cenários que criam ilusões. Somente emoção e intenção, em movimentos esteticamente organizados.
No fundo da foto está o ator Gabriel Marques que agora faz parte da peça GENTES, direção de Ronaldo Braga, apresentada pela primeira vez no dia 07 de dezembro na cidade de São Felix. A peça vai fazer uma temporada por varias cidades da região. Espere e confira Gentes uma PEÇA produzida e apresentada pelo Centro Cultural DANNEMANN, São Felix- Ba.
En breve fotos e video da peça.

domingo, dezembro 09, 2007

UM VÔO


Moringas. acrílica sobre tela de Alyne costa, 2003





O meu lema não busca uma frase única,

minha busca não procura verdades perfeitas,

olho o olho do meu irmão na rua,

será sua dor amiga da minha?

Os meus versos não procuram acalantos.

Minha sina é minha senda, minha paisagem.

Olho a luz acesa na casa de um igual, será sua luz chama da minha?

O meu passo não tem ritmo sozinho...

Meu passarinho voa livre no azul do céu.

Olho a boca do sorriso alheio, será sua alegria hemorragia da minha?

Os meus dias são regrados em intervalos.

Minha disciplina se edifica aos poucos.

Olho o gesto do irmão ao meu lado serão nossos guias cavalos alados?

As minhas dúvidas são frescas e serenas,

minha fé uma fonte e um quintal.

Olho a incerteza na fronte do vizinho,

voamos juntos para dar as mãos e abraçar o mundo!
ALYNE COSTA

terça-feira, dezembro 04, 2007

o nada repleto de nadas

O nada repleto de nadas.

Eu sou um cara que passa por aí, invisível e impermeável. Eu passo e ao meu redor pessoas são estranhas e nada se parecem comigo, e eu sempre penso: E por que não  deveria ser assim?  Existe uma outra realidade paralela a realidade existente? Ou algumas pessoas chamam fugas de utopias e se deturpam no engôdo intelectual e depois choram no travesseiro, no escurinho do silêncio solitário e mórbido.
Eu busco o prazer, sim, eu busco o prazer sempre, mas como saber encontra-lo? O que é mesmo o prazer? Ou qual prazer se quer, ao se procurar o prazer? E é mesmo prazer o prazer encontrado? Com a vida eu vou firme rumo ao infinito e pago pra isso: não guardo remorsos nem sentimentos, apenas trabalho o corpo e alimento minha alma em gozos livres. Não me interessa a busca da felicidade, percebo os acontecimentos soltos, sem desencadeamentos, apenas fatos isolados construindo uma rede por uma fatalidade da própria existência da vida.
Eu sou um cara que passa por aí e sabe que é preciso reinventar estruturas, não confundir  mundos e que isso só é possível com pessoas que aceite este mundo como um único mundo, onde reina os encontros e os desencontros , é, desencontros, só assim pode ser, é o desencontro uma imposição saudável, vital.
Eu sou um cara em busca de pessoas estranhas, tristes e taciturnas, bom, devo repetir: triste. Mas é bom salientar, triste mas não derrotadas, eu sou um cara que não gosta de derrotados.
E às vezes, é lá nos escombros da minha memória, que eu encontro o caminho para as minhas trânsfugas em um contínuo corte do passado, em um confuso e constante estado latente com a dor, com o prazer, e a sonolência, pois afinal é na indiferença e no sofrimento, que eu encontro força, não como algo que eu conquiste, ganhe por ser bondoso, mas algo que está lá na vida, e é a vida.
Eu sou um cara que olha o passado sempre em imagens surrealistas, e esse fantástico recorte do meu passado, numa estrutura nova, é um sistema apodrecendo o sistema do meu dia a dia, pois o dia a dia tem que ser real e lógico, o sistema é fácil e todos podem compreender, mas eu não entendo essas coisas simples, eu não as entendo, pois eu sei, eu sei da dor nos sorrisos cínicos, eles sempre estão depositando no amanhã toda a sua fortuna, e eu sou um cara que sei que o devir não é o sucesso garantido, e eu só posso dar um sorriso amarelo e chama-los de tolos, eu sou um cara que olha por cima.
É eu sei que existe uma calada realidade, uma calada limitação, uma litúrgica e fúnebre morte imanente  em cada ser, e que cresce com ele e desaparece com ele e mais ainda, existe também,  como uma praga negando a minha impermeabilidade, em algum lugar da minha vida, como uma covardia, alguma esperança, que me mata lentamente.
E eu sou um cara que sei do meu devir: o nada. 
O nada restaurado e em sua plenitude, um nada repleto de uma longa vida depois de uma mais longa não vida. O nada que é um restabelecer. 
Nascemos para morrer e vivemos em busca deste sombrio e eternamente assustador nada.


http://www.grupoatoresdosol.blogspot.com.br/
R.B.Santana

quarta-feira, novembro 21, 2007

A poesia de Luciano Fraga

PRURIDO


“... baixinha da vitória com seus loucos,
seus monstros e seus homens de verdade.” R. Braga



Defronte à grade
devotos
agitam as cabeleiras
feito palmeiras,ou
bandeiras
verdes
cartazes são pregados
PROCURADO:
apedrejou os telhados,
molestou as leis,
quebrou dentes e os
códigos sagrados
são como ruínas
que mancham lençóis
e nos deixam temerosos
ante o protesto dos asnos
impressos
nas páginas do último fólio.
Comendo peixes crus
a miséria ainda exporta
notas
pelo mundo exemplar (?).
Ah! Se pudesse ajudar
Che!
Momentos antes de morrer
no chão
cabeça de negro
vai rolar,
dizem:
tudo está certo,
em seu devido lugar,
não estão vendo?
Nunca dependa do inesperado.
Enquanto corro
atrás dos minguados
ouço latidos...
Cachorro cego na varanda
faz parte do meu cabedal...

Luciano Fraga

terça-feira, novembro 13, 2007

Herança

Fui calado e aos trancos
herdando de meu pai:
a dureza de um pau
o silêncio de um monge
amargura de um clown.
Quando negociei meu quinhão,
selado num cartório,
Meu pai estava morto
e só havia dois irmãos...

Miguel Carneiro

segunda-feira, novembro 12, 2007

o retratista 2

"Pra mim, pessoas mesmo são os loucos,
os que estão loucos pra viver, que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns,
mas queimam, queimam, queimam..."
J. Kerouac

Everaldo-“O Retratista”, às ordens. Era assim que gostava de ser chamado e reconhecido. O “Retratista”. Um cara pacato (“um cidadão comum como esses que se vê nas ruas”), cresceu,estudou e casou-se com uma amiga de infância com quem teve dois filhos, com muito sacrifício construiu um pequeno patrimônio (casa, carro, sítio e uma poupança),um milagre . Depois que incorporou o personagem (“O Retratista”), passou a cultivar um estranho ritual (se é que podemos denominar assim aquele hábito) noturno. Toda a sexta feira, antes de dormir, colocava sobre um altar improvisado, seu instrumento de trabalho (a máquina), acendia duas velas pretas (uma para Deus, dizia) e repetia inúmeras vezes as palavras-“ com você ficarei rico, amém”, obsessivamente,como um mantra,uma prece, religiosamente(??) repetia,- “com você...” em voz alta.
Visão. Tudo é questão de visão. O conteúdo, a forma, a causa e o efeito, o respeito e até os defeitos. Quem sabe, silencia, ou diz sem fazer alarde. Era assim que projetava o mundo.
“O Retratista” costumava gabar-se, dizia que retratava tudo: missas, bumba meu boi, casamentos, samba de roda, quadrilhas, brigas de galo, guerras de espadas, ,matanças de animais, times de futebol, carnes penduradas nos açougues, acidentes, defuntos, palhaços, artistas, o céu, a chuva, bocas, olhos, pés. Registrava o desespero na caça ao voto, a bajulação e a hipocrisia das madames em bairros pobres da periferia. As crianças sujas tocando-as como “deusas”, bêbados cuspindo próximo ao rosto, os saltos enterrando no barro em meio às” bostas” ( de gente,cachorros e porcos). A “cara de nojo” delas. Que nojo! Foi assim na inauguração de um pequeno chafariz (nunca jorrou água e as ”Marias” até hoje carregam suas latas e mágoas na cabeça) no bairro da “Bolívia”. Já os homens chegavam apertando as mãos, afagando as pobres mulheres, adentrando nos botequins (os botecos tem luz própria), despejavam cachaça. Queriam anestesiar aqueles senhores, fazendo com que os banguelas esquecessem que um dia sorriram com seus próprios dentes, embora o poeta insista que “Jesus não tem dentes no país de banguelas”.
Em meio ao pandemônio dos carros de som,da pagodearia erótica,do foguetório, “O Retratista” quebrou um pacto moralista e preconceituoso, retratar prostitutas. Uma delas aproximou-se (vestida de vermelho, a cor tradicional do casamento chinês), esfregando-se, implorando para que fosse retratada (como ele dizia), tão dengosa, olhar traiçoeiramente esverdeado, cabelos aloirados, molhados e cheirosos, um perfume tão inebriante que o arrastou para o abismo (??).Quando recobrou os sentidos estava entre quatro paredes de uma espelunca ao lado de uma estranha. Procurando as roupas, perguntou: - quem era ela?
–Lia, meu amor, melhor dizendo, Eliamor. Quero que me traga as” foto” logo, logo,bem lindas.
Não conseguia lembrar da sessão de fotos. Quando as recebeu reveladas percebeu aquela presença despida e despudorada em posições pornográficas bem “escrotas”. A necessidade de reencontrá-la o fez voltar numa tarde chuvosa. De dentro do bar ecoava um bolero à la Cauby ,casais dançavam, as mãos percorriam as partes mais íntimas,a testosterona minando pelos poros, num canto do salão, junto com dois homens( ??) estava Lia, que ao notar a presença surpreendente (quando o desprezo fazia parte da sua rotina), correu em sua direção, beijando-lhe. Sem jeito, com medo dos “caras”, foi arrastado - não se assuste,os dois são veados. Inexperiente nestas situações(tinha conhecido apenas uma mulher com a qual havia casado) foram para o quarto.
-Trouxe as ”foto” amor? Estou doida pra ver.
“O Retratista”, nervoso, suando (embora estivesse fazendo frio),abriu o envelope,mãos trêmulas.Ela, disfarçava dando saltinhos,gritos, dizendo:
-Linda, linda, maravilhosa...
Numa mistura de adrenalina, fogo, tensão, rolaram na cama por cima das fotos e dos envelopes, quase espatifando a máquina, treparam e ele louco gritava:- voltarei outras vezes, e ela dizia :-não ,não. Ele sempre repetia e repetia... Treparam como dois animais, espécies em extinção.
As estórias da vida impressionam pelo paralelismo, apenas pequenos detalhes as tornam diferentes, mas os fatos repetem-se em ciclos, até que o sangue escorra pelo chão, inunde os tapetes...
O envolvimento com Lia tornou-se intenso. “O Retratista” abandonou a família, insistiu que ela abandonasse aquele ambiente. A solidariedade é doce e farta quando precedida de sexo, uma conspiração cega do desejo. Lia, friamente, acariciando-lhe o rosto, sussurrou-lhe ao ouvido:
- Eu sou uma mulher perigosa. Perigosa. É isto que mereço, nem mais, nem menos.
Todo estilhaçado com a resposta, forçou a barra até demovê-la da idéia.
Residindo no sítio, todo conforto para Lia, para a mulher e filhos, frieza. A aparência tornou-se postiça. A falta das algazarras, das farras, da esfregação com outros homens, da vida vadia, sentia-se nocauteada.
As discussões tornaram-se freqüentes, numa delas “O Retratista” perdeu o controle xingando-a de ” puta”, treze vezes.
– O que você quer alem de casa e comida sua porra?Estou arrependido do que fiz. Seu lugar é naquela pocilga...
Lia chorou a noite inteira, enquanto ele em frente ao altar improvisado repetia
“... com você...” era sexta-feira, “amém”.
Ao levantar-se bem cedo, Lia tomou um banho, maquiou-se(olhos inchados) e ficou esperando pelo “marido”.Ele achou estranho e comentou:- por que aquela pintura? Você pensa que vai sair?
- Não. Fiz para você amor, respondeu e o beijou na testa. A partir de hoje, vamos viver em paz, quero que você tire meu retrato todos os dias de diversas maneiras.Cada dia uma, será o registro do nosso amor eterno, tá certo?
- Ah!. Assim fica bem melhor, é um prazer, tirar retratos. É o meu fraco – respondeu com o rosto reluzente, vitorioso.
A “paz aparente e pálida” ia sobrevivendo, movida a retratos. Acorrentada na cama, na mesa, nos pilares da varanda, capinando o terreiro, amordaçada, sob a mira de armas, ajoelhada, encapuzada, varrendo o chão, lavando roupas... Tornou-se uma fonte de prazer, invariavelmente às sessões terminavam em sexo brutal.
“O Retratista” apanhou a máquina e ficou imaginando qual seria a fantasia do dia, embora sentisse um pressentimento, uma melodia fúnebre rolando por dentro. Subitamente Lia havia desaparecido. -Viajou? Fugiu? Suicidou-se?
Atordoado, pediu ajuda à Polícia, às amigas da “boite”, nenhuma notícia.
Passaram-se quinze dias sem comer, sem dormir, sem sorrir, sem praticar o ritual, apenas bebendo Domec.
-Pois não, Everaldo “ O Retratista”, atendeu completamente bêbado.
-Sou Elias,Oficial de Justiça,tenho uma intimação para o senhor.
“O Retratista” compareceu às audiências. Um velho gorducho, cabeça raspada, bigode cheio e pintado, anéis enormes nos polegares e ainda um par de brincos, fungava bastante, parecia muito doido. Dr. Salim era um rábula e amante de Lia. Sacou de uma pasta o envelope contendo a seqüência de fotos que o mesmo havia “retratado” em seu sítio, acusando-o de torturas, abuso sexual, estupro e outros crimes previstos em artigos, parágrafos e toda parafernália constante nas leis contra pessoas (direitos humanos) submissas.
A sentença, assinada com caneta de ouro determinou perda total do patrimônio (inclusive a máquina) e condenação à prisão por sete anos, três meses, vinte e cinco dias em regime fechado.
Na cadeia, após ser abusado pelos “companheiros” de cela, antes de cortar os pulsos até sangrar feito um porco, ainda teve tempo para ver as fotos e ler a manchete num jornal: ”PROSTITUTA MATA ADVOGADO”.
“Eu sou uma mulher perigosa...”. Lembrou-se, enquanto agonizava com os olhos enquadrados na lente de uma máquina de retrato...


Luciano Fraga

quarta-feira, novembro 07, 2007

escrever pra que?

Há tempos eu não escrevo, primeiro nada está me interessando, depois eu mesmo acho que a desilusão é apenas uma outra ilusão e eu escrevo porque sofro, e na verdade esse meu sofrimento não é um sofrimento cristão, não é um sofrimento pelo outro, não, o meu sofrimento é talvez estetico, ou talvez por eu me sentir como se eu fosse duas ou quatro pessoas ao mesmo tempo.
Já houve tempo que eu escrevia sobre as misérias do mundo, mas elas não me interessam mais, hoje é a minha propria miséria que me arrasta ou que me move. A fome, a violencia e o desemprego eu vejo como parte de uma ficção, onde os personagens se divertem por serem miseraveis. Eu me cansei de todo tipo de humildes, eles são a propria desgraça, eles são completamente anti-vida , eles são capazes de sofrerem, mas não mudam a forma de encarar o mundo. Eu não posso mais me inquietar pela vida de outros, é que eu não acredito em nenhum tipo de representação, eu não voto em nenhum candidato em eleições sejam proporcionais ou majoritárias, eu não acredito em sinceridade e muito menos em bondade, sou um egoista em busca de egoistas, nada mais.
Agora eu escrevo por me sentir completamente empanturrado e a escrita é o unico remedio que eu sei que vai melhorar o meu quadro, sei que não vou ficar de bom humor, mas tenho certeza que aquela maldita dor de cabeça vai me deixar. Escrever pra mim é como tomar comprimidos para dor, principalmente de cabeça. Antes eu escrevia pra me exibir, conquistar garotas e provar a mim mesmo que eu era um bom escritor, hoje escrevo pra expulsar anjos e demonios e, assim, talvez dormir em paz.

Ronaldo Braga

A poesia de miguel carneiro

Canto breve para a Poeta Carine Araújo

Faltam muitos versos
para consertar o mundo.
Nós, de voz embargada,
colocando nossas baladas,
em plena multidão.
Há ainda um irmão com fome,
um primo sem pão.
A poesia emergindo silenciosa,
esvaindo de nossas mãos.
Por isso, te afirmo, poeta:
Ainda é tempo de se fabricar o verso,
para enganar a sanha
demoníaca do Cão

Miguel Carneiro

terça-feira, novembro 06, 2007

A peça teatral Gentes, vem aí com força total. No centro cultural Dannemann
Estréia - 23 de novembro até 1 de dezembro (sempre às sextas e sabados)
Peça - GENTES
Direção - Ronaldo Braga
Texto - Criação coletiva
LOCAL- Centro cultural Dannemann - São Felix -Ba
horário- 20.30hs
Alunos- atores:
- Junior Costa Pinto (São Felix)
- Vanny Albuquerque (São Felix)
- Eliana Reis (Cachoeira)
- Leandro Bitencurt (São Felix)
- Angelica cerqueira (Muritiba)
- Magno do Rosário (São Felix)
- Uelton (Cachoeira)
- Elton (São felix)
- Gabriel (Cruz das Almas)
- Diogo Santos (São felix)
- Adoniram dos Santos(São Felix)
- Eduardo (São Felix)
- Kael ( Cachoeira)
- Carine (Cachoeira)


Sobre a peça:
Numa abordagem realista e direta mas sem abandonar a diversão, o espetáculo teatral GENTES traz para o debate a questão do relacionamento dos jovens com a escola, com a familia e com o mundo.
Com o principal objetivo de ser um catalizador, o espetaculo busca refletir a vida para que os jovens possam imprimirem na historia a sua propria pagina, escrevendo tambem a sua realidade não sendo somente um mero participante da vida.
Gentes é divertimento
Gentes é reflexão
Gentes é arte.

Gentes é resultado de um curso promovido pelo centro cultural Dannemann
para as comunidades do seu entorno.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Visite o blog Diversos-Afins

Querido amigo e leitor,
A Revista Cultural DIVERSOS AFINS convida a um novo caminhar pelas alamedas da Literatura e da Arte.
Entre os destaques de nossa Décima Quarta Leva, estão:

- O olhar que une memória histórica e afetiva pelas lentes do fotojornalista Evandro Teixeira.
- Poesia visual em Constança Lucas.
- Uma conversa com o palhaço brasileiro Rodrigo Robleño, integrante do Cirque du Soleil.
- Paulo Autran rememorado nas linhas do dramaturgo Paulo Atto.

www.diversos-afins.blogspot.com

a poesia de fabricia miranda

Parce que vous êtes la femme, l'Eden de l'ancienne tendresse oubliée (Paul Claudel)

Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas!
(Rita Santana)***
A Rita Santana, Vanessa Buffone, Adelice Souza, Renata Belmonte, Cássia Lopes


Atrás de mim,
Camille grita por seus abortos.
Tento juntar minhas três faces
De modo que eu pareça ainda mais desumana
Criatura abissal de profundos oceanos
Peixes esquizóides pinçando as córneas de todos os náufragos.
Quero a confusão para os que me olham
Porque são muitos os que não me sabem.
Em minha cabeça majestosa de demoníaca trindade
Camille ainda grita, de cócoras sobre a noite,
Erguendo a mim suas mãos metalizadas.
Adiante, além da noite que se desenrola
No destrançar das tramas da minha cabeleira de possessa
De onde despencam os sonhos e os pesadelos,
Aquela dos olhos grandes toma um conhaque barato;
Como saído de contos de fazer dormir, Um leão cochila acorrentado a um de seus punhos
Em seu pêlo de poeira e ouro, marcas de pernas fêmeas
Um arreio de fios de seda pende,
Como um adorno singelo,
Do largo dorso de besta.
Avanço na lamacenta escuridão do entre-sono
Com o meu rosto distorcido pelo alinhavar das agulhas.
Há um baque oco contra as pedras,
Sei que são ossos
Uma cabeça de pai
Coagulando silenciosas ternuras.
Fazendo dobras em papéis
Recorto homens de mãos dadas,
Numa ciranda de infinitos herdeiros das coisas profundas
E ofereço à mulher que, ao fundo de muitas salas,
Balbucia premunições onomatopaicas.
No centro de tudo, no centro da noite,
Treze cavalos suportam seus labirintos de Creta.
O que fora feito de Camille? Pergunto
Articulando em cadência bizarra minhas três bocas.
De dentro do manicômio, espasmos de eletro choques
Um coro de mulheres loucas, nuas, usadas,
Repete em convulsões as letras trágicas de sua loucura:
- Ai de nós, mulheres tortas...

Fabricia Miranda
(Poema de um tal livro inédito e inacabado " O Cirandeiro das Facas")

quarta-feira, outubro 17, 2007

For Anjo Baldio
“Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo”.
Nelson Magalhães Filho
Postado por Ruela em seu blog NEO-ARTES
Veja mais de suas maravilhosas imagens
CLICA AQUI:
http://neoartes.blogspot.com/
Ruela, publicou e eu achei a verdadeira tradução do mundo nelsoniano. e para muitos a arte de nelson é apenas figuras tristes e diabolicas e na verdades não deixa de ser figuras triste e diabolicas mas não é só isso, é antes a leitura do nosso tempo que é triste e diabolico.
e nelson traduz o seu tempo e não reproduz o que os bovinos gostam de olhar e comprar.
Nelson o artista filtro do seu proprio tempo.
www.anjobaldio.blogspot.com/
(ronaldo braga)

domingo, outubro 14, 2007

a poesia de nelson magalhães filho

À véspera do inverno estranhos dias virão
nas pálpebras da noite que flor desbota.
Com a avidez do oceano à véspera do inverno
que aflora estrelas cadentes,
dormente beijo de lânguida mulher
beija-me almíscar,
uma aflição pela ampulheta da fome
um arfante desejo afunda-me no mar
e sempre deixamos rastros de sangue que se fundem,
carnes tecidas sobre a carne viciosa.
Contemplo as nuvens pelas estradas sedutoras
sob o peso de esmaecido sonhar acordado
beija-me narciso perfumado
beija-me almíscar
anjo nu cortando meu coração.
Silenciosos devaneios de um anjo decaído
a tua ausência impregnada de estonteante perfume,
em asas selvagens prazeres inflados
visitaremos a obscura melancolia da paixão,
em doce de amêndoas a lua selvagem
navega sua negra borboleta de tédio,
a ausência queimando à véspera do inverno.

nelson magalhães filho

sexta-feira, outubro 12, 2007

a poesia de alyne costa

Teço tranças e rasgo fios
Vejo luas e rabisco navios
Febres
Odores
Calafrios
E se me calo, verbos flutuam
No parapeito do que hei de ser
Pertenço a qualquer lugar que me comporte
Minh`alma é crespa
Cultuo vendavais de toda sorte
Tensa
Suturo incertezas de um destino que rompe tardes
Arde
Atritos sobre o magma adormecido de um vulcão
Vertente
Poesia é o meu espelho oculto em erupção.

Alyne Costa
www.docafundo.blogspot.com

quarta-feira, setembro 26, 2007

O acontecido

Era bem cedo quando eu soube da existência do acontecido. Imediatamente duas coisas cresceram na minha mente: primeiro, a inevitável necessidade de te contar, segundo, a de conhecer o pré-acontecido, porque, e você concordará comigo, o acontecido, talvez, nem mesmo seja importante, antes o pré-acontecido, preencha, na sua totalidade, as aberturas presumidas no acontecido, e que, portanto, a partir do pré-acontecido, seja finalmente conhecida a decisão e os atos dos envolvidos no acontecido.
Amiga, a conjuntura dada, do pré-acontecido fatalmente estabeleceu o devir, e esse vir a ser, por sua vez, por uma imanente imposição, nos revela um dilema, dilema esse solucionável unicamente com a analise do acontecido. Solucionável? Unicamente?
Minha querida amiga, ai está a questão: eu só estou enviando esta carta pra você, por saber da sua competência em assuntos delicados e, tenha certeza o assunto ora tratado é não só delicado como perigoso e por outro lado é também degenerativo. Amiga entre o acontecido e o pré-acontecido, vácuo e vácuo, mas também uma inversão, a aparição do pré-acontecido como condição primeira da solução do enigma, razão principal: primeiro era o acontecido e agora é o pré-acontecido mas podendo ser o seu oposto e digo não o seu duplo, mas,afirmo sim, podendo ser o seu oposto, e essa possível mudança de ordem entre o pré e o acontecido quando o primeiro é o segundo e o segundo pode ser o primeiro é ou não é um enigma? Pois então, a partir da aparição do pré-acontecido deu inicio a produção de enigmas, senão vejamos: primeiro a produção do enigma do acontecido, agora a produção do enigma do enigma da importância ou não do acontecido frente ao pré-acontecido, podendo este ser mais importante e até mesmo fundamental para desvendar o enigma do acontecido.
Enigmas a parte, eu só vejo uma saída, você e eu pensarmos juntos.
É, portanto pacifico conhecer os atos e desejos do acontecido, e principalmente o objetivo, mas por outro lado, é por demais importante saber primeiro, como se deu a aparição do pré-acontecido. Concretamente temos dois caminhos, (eu sei a sua fixação por três), primeiro a analise do acontecido, apesar de haver boatos da sua não existência, pois se sabe que certos advogados soltaram o verbo, afirmando não acreditarem nem mesmo na importância do acontecido e que na verdade antes importante mesmo seria o pré-acontecido; segundo caminho, não esquecer que o primeiro é o segundo e que o segundo é o primeiro.
Amiga diante dos fatos apresentados espero que entenda a minha inteira dificuldade e a qual a minha razão, para eu ocupar o seu precioso tempo pois este acontecido e seu pré-acontecido pode ser a produção da produção de aparições de acontecidos outros e diante dessa preocupação por temor e respeito a humanidade achei por melhor tentar resolver essa questão e assim daqui espero uma resposta para passarmos para a solução desse problema que se faz primário.
Atenciosamente seu amigo,

Ronaldo braga

vendaval

Cores estranhas num telefonema.
O sabor amargo na alma que chora.
O sabor do medo que no sonho queima...
Cores da vida em amarelo gema.
O sonho que chega a cada nova aurora.
O sonho da seção da tarde ser cinema...
A doçura de um filme de Carlitos.
O aroma de versos soltos num varal.
A dor abortada em infinitos gritos.
A infância renascida em fruta de quintal.
A solidão que aprende novos ritos.
A esperança dança em voltas num pombal.
A resignada obediência a mitos.
A sábia serenidade abranda o vendaval.

alyne costa

quinta-feira, setembro 20, 2007

crucial viagem de onibus
o gesto
enlouquecido do mago

ser excesso,
voltejar-bizarro

as aves sem nome
nas ervas

vaguear só
sem pétalas

sua presença fugaz, e
deslizo nas almas

dos passageiros
como um feiticeiro.

Nelson Magalhães Filho

Pedra

Pedra

Como num silêncio profundo a poesia sumiu dos meus olhos.
Apareceu em meu sonho como estandarte.
Penso em ti, poeta, quando os seus versos sumiam e cochilavam em sua alma.
E, assim, essa poesia muda grita em mim.
Debruçada no infinito, ela é soberana.
Sua vigília entoa ladainhas, mas não me traz a alegria dos salmos.
Essa poesia, Carlos, é a voz dos anjos sussurrando a inquietude de todos os poetas.
Quando ela corrói as entranhas, envolve o poeta e este não a consegue traduzir no papel.
Resta essa tristeza imensa em não traduzir.
Florbela, Adélia, Cecília, Clarice, Cora Coralina, Ana C.Umas, assim.
Outras assado:
Rosa, Olga, Pagu, Simone, Zuzu Angel.
Quando a poesia se faz fêmea e num mesmo peito se acasalam a condição de poeta e a de mulher.
Peço-te licença... Não consegui ser gauche.
Só vejo uma pedra.

Alyne Costa

segunda-feira, setembro 17, 2007

DÉDALOS AUSPICIOSOS

“...Ó gérberas malditas! Nessa solitária caravana,suor,poeira,calos rumo ao infinito...”
Antonio Luis M. Eloy (Luizinho)



O Samsara
é sim
uma balbúrdia
de enterro
um coágulo gorduroso
sobre o telhado
da humanidade...
Protuberância de saliva
invade
a privacidade
de um mundo pequeno
que desejo tê-lo e
derretê-lo:
quer seja na rua
num canto do quarto
na leveza da tela
na dores do parto
no quadrado da cela
comendo o pão do diabo;
mas que seja meu,
simples-mente-meu.
Mundo sujo
com rabugem de cão
que sou
na terra
preciso uivar
minhas vibrações
de carma ruim...
Quero expelir um poema
que soe assim,
trágico,
faminto...
Agora,
permita-me chorar!
Mas você não...
Deixa....

Luciano Fraga

quarta-feira, setembro 12, 2007

Recital poético interativo
POR QUE VOCÊ NÃO VEM?
CÔ IBI JAGUARECÓ IARA
Essa terra tem dono!
Diz a língua tupi
Ecoando a voz de todas as nações
CÔ IBI JAGUARECÓ IARA
Essa terra tem dono!
Assim falam os Tapuias
Os Tupinambás, os Botocudos
Os Tamoios, os tupiniquins
Os Pataxós,
Tupi terra Guarani
Vem a bandeira Lusa
Que a tudo seqüestra
E leva a terra
E a terra é o homem
E o homem é o sangue da terra...
e de repente, o
Nordeste


Postado por Zeca de Magalhães

domingo, setembro 09, 2007

“Bendito sejam todas as prostitutas que, como santas, entregam seus corpos aos profanos” Zuzu Botina Cortada, poeta popular jacuipense

Eu ando com alma em frangalhos, trafegando nessa terra avessa. A avenida povoada de clandestinos, tipos cretinos, emplumados de grife, a boca repleta de pivôs de aço e o bafo azedo do champanhe que regurgitam em soluços. Determinados tipos balançam sorridentes os apetrechos. Dentro da bolsa comprada em Paris os cartões de créditos acomodados na carteira molduram uma montanha e ostentam esbanjamento consumista. Os cartões parecem ter alma própria e eles, pelo que me parece, estão sufocados nesse ninho de ratos, nessa confusão de babilaques, e aguardam ansiosos para debutarem no estrago da farra da puta. A avenida fica feita passarela de moda. Transitam toda sorte de animais, desde os mais dóceis até os selvagens, malhados, alguns, porém forjados na homossexualidade das academias de ginástica. Nesses ambientes se erigem gorgotas e vedorianos. A futilidade transborda em tipos esguios e estampas de papel-reclame. Se se revira à cabeça para baixo, chaqualha-se em redemoinho, faz pose, joga o cabelo esvoaçante para o lado, morde a boca em sedução, mas não há uma lógica no discurso datado dessa figura. Há sim,muita gabação, enredos de telenovelas, repletos de traições, bundas de fora, bobagem e pieguice. O nome do galã da atualidade momentânea que vende cola para dentadura ela não titubeia em pronunciar como se isso fosse algo mais importante para a humanidade. A boceta ela mantém raspada igual há um porco pelado num balcão de mármore ensebado de um açougue. A calcinha teima em adentrar o rego do cu, e ela discretamente a conserta, livrando-se do incômodo. Os cosméticos ela faz questão de adquirir somente de procedência nacional, ela também se acha politizada, suas palavras de ordem nessa quadra quando avisto são cidadania, ecologia, auto-estima e o Shiraz que ela usa me embebeda em nevralgia. Eu os acho um tipo furreco, senhora de si, feminista e burra. Muda de corte de cabelo a cada quinze dias, dá escova, se mete nos salões de beleza desse Shopping e ali se gaba novamente ao celular para quem está em volta participe de seu círculo de amizades. Há sim um pouco de cafonice no olhar, marcas de expressão no rosto ameaça aparecer e ela de consulta marcada com o cirurgião plástico para lhe enfiar pela cara, cutaneamente no rosto o Butox, para deixá-la esticada e depois de oito anos refazer os estragos. Semelhante como os seios que no ano passado mandou suspender e diminuir para ficarem durinhos. E que seu amante, empresário, de bigode enferrujado com a estampa do cão lhe chupa sem piedade a ponto das tetas ficarem arroxeadas de tanta fúria e tesão. Mas ela gosta, homem mole e requintado ela não leva para a cama. Quanto maior a vara maior será o desejo de que a meta por trás feito uma cachorrinha em pleno cio com direito à boceta ficar encharcada de galo e orgasmo que mais pareça uma lagoa com uma pica boiando dentro da gruta aveludada e esponjosa. Fuma, fuma e nem se importa que o enfarte se avizinhe, ou que esse hábito esteja démodé, ela dá aquelas tragadas como se estivesse fumando o último cigarro. Ao seu lado, se comenta em bochicho, que esse vício a levará para uma mesa de cirurgia. Ela não se importa com o que os amigos comentam. Um dia, talvez, quando a caipora estiver afastado ela decerto abandonará o vício. Leva as mãos para trás da orelha e com a ajuda do polegar e o indicador espreme a massa sebácea que se acumula na cartilagem da orelha. Fede e ela então discretamente delicia cheirando a porcaria que sai de dentro dela. O verão pipoca lá fora toda sorte de promoções se instaura na cidade, ela bombardeada de apelos publicitários, trafega com desenvoltura na passarela.
O timbre da voz tem aquela rouquidão. E isso lhe dá um certo charme misturado com a canalhice pessoal que qualquer um que bata o olho vê nela o desperdício das tardes quentes na cidade mais conservadora e cafona que alguém escolheu para habitar. Uma ela se contenta: sua cidade é a única no país que recebe a suntuosa visita do navio Queen Mary 2, o maior do mundo. E ela a bordo, jogando conversa a fora com a tripulação, servindo de cicerone ao capitão enquanto caminham a pé pelas ladeiras do Maciel de Baixo e Maciel de Cima onde outrora reinava os bregas. Esses detalhes ela omite ao capitão, somente mostra a fachada do casarão do folhetinesco escritor dominando de azul a paisagem. Ali há um projeto em pauta de engarrafar bufas em frascos de vidros feitos pela antiga fábrica da Fratelli Vitta onde as personagens do citado escritor deram seus peidos na província entre glutões,lambanceiros, comedores de feijoadas. Onde no futuro se venderá essas garrafas de bufas com a inscrição: “Lembrança da Bahia”. Então, turistas amarelos levarão de volta a seu país, e em suas salas de visitas ao desafivelar as bagagens, mostrarão orgulhosos a seus filhos ou a mulher pálida de lembranças, a raridade garimpada na terra abaixo da Linha doEquador. E os familiares boquiabertos, introduzem solenemente a colorida garrafinha para fazer parte de mais um biscuit do novo mundo. Ela é do tipo que faz parte do coro da falsidade e uníssona entoa o falsete da sacanagem. Eu moro no Rio Vermelho e e ela de vez em quando dá o ar de sua graça e me visita com uma garrafa de vinho e alguns papelotes de cocaína pois ela mesmo sobe o Morro do Águia e de lá trás o pó para nos iludirmos e acordarmos de língua seca e aquela sede terrível. De meu apartamento a paisagem do mar azul da Bahia se descortina majestoso. E ela sempre surge trazendo novidades. Trabalho numa agência de publicidades. A puta não é puta assim, tem coração e a semana passada queimei em febre e ela largou seus negócios escusos para vir cuidar de mim. A meu lado, aqui nesse shopping, vejo passar a elite. E um velho aposentado espera a chegada de um parente. Quando meus olhos estão marejados de saudades e pelo peito um frio arfante invade minha alma, deixando-me fleumático e cáustico a ponto de me deixar tão sensível e de chorar em inauguração de supermercado. Telefono, então para a ela, rendo-me aos seus caprichos. A puta não tem nada na cabeça. Apenas o desejo de se tornar famosa de uma noite para o dia. Mulher e diabo se conhecem pelo rabo. Foi numa tardezinha de inverno em que a cidade mergulhada em aguaceiros que resolvi telefonar para um anúncio de uma casa de massagem solicitando a presença de uma dessas moças. E eis que em menos de uma hora surge a puta para qual tive também de pagar a corrida de táxi. Aos poucos,desses breves encontros em minha casa onde eu pagava para transar, fui me envolvendo nesse romance barato e noir. Diante dessa gente que trafega nesse corredor, avisto ao longe a puta a conversar com um sujeito que julgo ser seu próximo cliente. Tiro os olhos da cena, levanto-me do banco onde estou e sigo para casa feito um desvalido, puto da vida com esta nobre dama, de quem ainda posso dizer que em verdade eu a amo.

Miguel carneiro

quarta-feira, setembro 05, 2007

numa noite dessa, eu me abandono em um bar qualquer

Há muito tempo e numa constância diária um sentimento de desamparo vem tomando conta de mim e eu sempre penso:
Numa noite dessa eu abandono a mim mesmo em um bar qualquer.
Mas o negócio tava tão mal, que até mesmo a realização desse desejo começava a ficar difícil, já fazia três dias que eu não ia a nenhum bar, e além das dores por todo o corpo, e uma total falta de desejo, eu ainda me sentia completamente sufocado.E naquela noite eu não parava de vômitar. Mas os meus vômitos eram e são como trunfos, significam que eu ainda tenho algo pra jogar pra fora, pois além, nada mais me resta.
A única mulher pela qual, eu ainda tinha algum sentimento, saiu daqui, poucos minutos atrás, dizendo que eu era um cadáver em estado de putrefação, saiu dizendo que não voltaria mais e bateu a porta com tanta força que ela simplesmente não fecha mais, e eu então a escorei com uma cadeira velha e quebrada.
Mas por outro lado é um alivio deixar a Antonia zangada, já tinha tentado de tudo, para ela me abandonar, e nada, ela, simplesmente, resolveu que era a minha mulher pra sempre, e eu sabia que eu não era homem pra mulher nenhuma e Antonia era além de bonita, merecedora de algum cara em condições de fazê-la feliz.
Bebi o ultimo trago de álcool desdobrado por mim mesmo e me senti um herói de quadrinhos, eu era então o homem de ferro, poderoso, forte e rico e ninguém sabia a minha identidade.
A zoada no corredor era infernal e a porta não fechava direito. Eu morava em um cortiço, cada quarto custando para nós, dez reais por semana, e ali muita gente se juntava e dividia esses dez no meio. Dois travestis, meus vizinhos e que dividiam os dez reias por semana, nesse momento, exatamente às 18 horas e 15 minutos se esbofeteavam entre palavras educadas de travesti e acusações de atravessamentos:
O negocio deles era muito lucrativo, mas, sempre, um achava que o outro pegara o seu cliente.
E enquanto as moças trocavam tapinhas e acusações, a velha, moradora em frente do meu quarto, do lado esquerdo começava a jogar os seus dejetos sobre a porta dos travestis e gritar e gritar. A menina, que também morava em frente, do lado direito e que dizia ser maior de idade, mais todo mundo sabia que ela tinha no máximo 15 anos, naquele momento trabalhava um velho e dava seus berros fingindo um gozo para ganhar algum a mais, e eram exatamente 18 horas e 45 minutos quando o velho cliente da menina saiu sorridente e sendo o Batmam com sua capa protetora protegendo a sua identidade secreta.
Um pouco mais tarde, às 20horas e dez minutos, os travecos, que moravam em frente à minha porta, e que agora eram completamente amigáveis um com o outro e ambos agora para o outro, tinham os melhores sorrisos, brincavam um com o corpo do outro.
E a menina depois do banho, às 20 horas e 59 minutos, me visitou e me deu um litro cheio de conhaque e um prato de comida e me deixou observa-la completamente nua e saiu às 21 horas e 22 minutos afirmando que ainda dormiria comigo.
Ataquei o conhaque e joguei a comida para o lado, acendi um cigarro e pensei:
ela não terá tempo, primeiro só transo com mulheres com mais de 18 anos e eu tinha certeza que três anos era por certo muito tempo para mim.
Bebi, fumei, dormi e já à meia-noite recebi a visita dos travecos, eles sempre me traziam cigarros e conversas e bebidas e mais conversas. Fumamos, bebemos e duas horas mais tarde, eles foram embora e eu dormi de novo.
Agora em cima do meu feliz e renovado vomito.
A Antônia precisa ser feliz..

RONALDO BRAGA

entrevista: POETA MIGUEL CARNEIRO

O poeta Miguel carneiro foi entrevistado pelo tambem poeta Gustavo Felissímo e essa conversa você pode ler agora, ela foi originalmente publicada no jornal literário ABXZ Caminhos das letras. Da cidade de Itabuna- Ba.
Leia agora
Miguel Carneiro na peleja dos caminhos

abxz – Em fevereiro deste ano perdemos um amigo, os jovens (principalmente os alunos do CRIA) um mestre e a literatura um poeta singular. Como você via Zeca de Magalhães e de que forma o vê hoje?
Miguel Carneiro – Meu compadre Narciso era um ser antagônico, chegado a um embate e confrontações. Gostava de ser “gauche”, embora, de índole, fosse “carlista”. Jamais recuou ou abaixou as calças para as putinhas que hoje dominam na mídia a literatura que se pratica nessa província de todos os santos e inevitáveis demônios. Lembro, muito bem, de nosso primeiro encontro, nas tardes ensolaradas do verão de 1983, eu levado pelas mãos do poeta Ronaldo Braga, das terras de Cruz das Almas, porto de Luciano Fraga, Nélson de Magalhães Filho, poetas no sentido da palavra. Eu estava ensaiando “O Homem e o Cavalo”, uma peça de Oswald de Andrade, que é uma cópia barata de “Mistério Bufo” de Maiakovisk, e Narciso se engajou no projeto para fazer a personagem do poeta. Ensaiávamos no TCA. A peça não rolou, mas a amizade com Narciso se estabeleceu. Daí para cá, sempre estive ao seu lado, e ele ao meu. Por confiança, deu-me seu filho mais novo, Raoni Magalhães para que eu batizasse. Narciso é ave rara, de penugem nobre, de vôo belo... Os que foram para a cerimônia de cremação lá no Jardim da Saudade, muitos dali, enquanto Narciso viveu, sacanearam o tempo todo com o nosso bardo das Laranjeiras, limando, torcendo a cara, engavetando os seus projetos. Na Bahia, Narciso mostrou que a poesia “dèjà vu”, sem uma ênfase na quebra de paradigmas e no social, sem estar antenada com o mundo, bolora, cria mofo e se exaure. E Narciso tinha algo de diferencial em relação à fauna literária proviciana. Narciso tinha farinha no saco. E a coisa mais abominável para mim é lidar, no dia a dia, com poeta “ingnorante” e disso a Bahia está plena.
abxz – Você é chegado a embates e por isso tem alguns desafetos no meio literário...
Miguel Carneiro – O poeta paulista José Paulo Paes, em seu poema “Poética”, traduz a minha peleja nessa seara de homens sem ética, pois só sei viver sem estar atado a peias. Ele diz: “Não sei palavras dúbias. Meu sermão/ chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. / Com duas mãos fraternas, cumplicio / A ilha prometida à proa do navio. / A posse é-me aventura sem sentido. / Só compreendo o pão se dividido. / Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. / Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.”Sempre se soube que no meio literário baiano viceja a “mauvaise herbe”, que não inova nada, não contribuiu com algo novo, é o mesmo ramerrão de versos plagiados. Ser poeta todo mundo quer ser, mas poucos são. E contista é uma coisa meio difícil, você não pode enganar. Ou é ou não é. Na poesia, com a semana de 22, todo mundo virou poeta e a merda se alastrou. É tanta porcaria que se publica na Bahia que eu tenho é vergonha. Eno Teodoro Wanke, poeta paranaense, disse certa feita que “é fácil distinguir entre o verdadeiro e o falso poema. O falso permanece escrito ou impresso na página. O verdadeiro salta, palpitante de vida e de alma, e fica para sempre inscrito em nós, morando na gente, lembrado na memória, sentido no coração.”
abxz – Você já contou seus mortos?
Miguel Carneiro – Essa história é gozação do poeta baiano Henrique Wagner que num poema “Miguel Carneiro, Meio-Dia”, me homenageia. A verdade é que sou um homem marcado por tragédias que me deixaram para que eu andasse por essas avenidas dessa cidade que nomeiam de “Jesus”, com a cabeça baixa e ombros arqueados. Sou de peleja, de caminhos tiranos e sofrer não escolhe o lugar. Carrego, sim, almas de vaqueiros desconhecidos que com a espora e a chibata construíram cidades. O livro de Deus tem páginas infinitas e quando Ele, do alto, o abre, chama o seu escolhido. E como disse o encantado de Codisburgo; “Viver é um negócio perigoso”.
abxz - Como eles emergem em seu labor literário?
MC – Eu sempre vivi de lembranças. O poeta Antonio Carlos de Britto, Cacaso, disse num verso telegráfico: “Minha pátria é minha infância,/ por isso vivo no exílio”. Quem escreve não é o homem, caminhando para barbas grisalhas e cabelos brancos, estou com duzentos anos no lombo, mas minha criança que testemunhou tantos esquifes no passado os traz do limbo. Minha literatura é feita para dar voz à gente que eu vi e vejo, para a geração de minha filha Laura, àqueles que morreram em covas rasas, e que batem na minha porta em busca de um pão, que catam latinhas de cervejas para sobreviver, e que passaram e passam por essa vida sem deixar riquezas. Escrevo a história daqueles que tiveram caráter, bondade e lirismo.
abxz – Escrevemos cada vez mais para um público cada vez menos(1)?
MC – A questão aí não é culpa dos escritores, mas do poder público. Há uma taxa de analfabetismo alarmante em nosso Estado. Aliado a isso, os autores baianos sequer são indicados nas escolas, quer de segundo grau ou nas universidades. Nós fazemos nossa parte, escrevemos, testemunhamos o tempo que nos é permitido na face da terra. Cabe ao poder público incentivar, publicar, distribuir e fazer com que os autores baianos sejam conhecidos. Nas universidades, no campo das Letras, estudar um autor baiano torna-se heresia. Só se faz mestrado ou doutorado sobre morto. É uma burrice sem limites.

parte dois da entrevista do poeta Miguel Carneiro

abxz – Você não acha que ao publicar livros de pouco ou nenhum valor literário, conseqüentemente sem interesse maior algum, com o dinheiro público, o Estado, através do Selo Letras da Bahia, não está desvirtuando sua real função apenas para ficar na boa com um meio tão importante para a sociedade?
Miguel Carneiro - O problema da Coleção Selo Letras da Bahia é que, no governo Paulo Souto, havia gente como membro da comissão julgadora que não tinha nada a ver com a área literária. Eram estranhos no ninho. Tinha um que era filho de um influente jornalista baiano, já falecido, foi convidado para membro e ganhava o jeton. De literatura ele não entende nada. Outra coisa é que a comissão parecia um jogo de cumpadre. Só aprovava os livros se o sujeito fosse da curriola. Como eu briguei com um medíocre que fazia parte da comissão, resultado: dois livros que coloquei lá, foram rejeitados. Não havia um critério de qualidade, havia, sim, o jogo que é moda no meio literário baiano. Outra coisa é que se sua obra for menor, mas você ostenta um sobrenome de relevo, sua porcaria é aprovada em detrimento de inúmeras obras de autores baianos que lá voltam com aqueles pareceres vazios, sem nexo. Teve um amigo aqui na Bahia que aplicou um golpe nessa comissão do Selo Bahia. O poeta Zeca de Magalhães zanzava pela Academia de Letras e lá, através de Cunha, se aproximou do Prof. Waldir de Freitas Oliveira e disse ao mesmo que determinada obra que estava para ele analisar era de um poeta, parente de um famoso senador baiano do passado. A obra era de um iniciante, sem a menor qualidade. O professor, para homenagear a família do Senador, aprovou a porcaria do livrinho de poesia. Resultado, o cara tinha o sobrenome de um senador, mas jamais fora seu parente, pois tinha nascido num interior, numa cidadezinha perdida nos cafundós do Amazonas, nem ele sequer sabia da existência desse senador baiano. Zeca de Magalhães tinha essa faceta, de ser generoso, e entregar o próprio coração mesmo que a obra não prestasse. Agora eu só espero que no novo governo o critério e os membros sejam realmente imparciais e sérios. Obra de chapisco faz o leitor se afastar e pega mal para a Coleção, para o próprio Estado. Espero, e reitero novamente a minha preocupação, que esse governo atual não caia no mesmo rema-rema da gestão anterior. Nesse jogo escuso de protecionismo.
abxz – Houve um projeto de dissertação de mestrado sobre a sua obra, rejeitado pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), não foi?
MC – É, rolou essa história. Em outubro de 2003, a professora Edinage Silva, que é formada pelo próprio Departamento de Letras e Artes, apresentou um anteprojeto “O texto de Miguel Carneiro: um mediador entre o real e o imaginário”, mas foi rejeitado por parte da banca. Na UEFS, só se estuda Jorge Amado, José de Alencar, Machado de Assis, SÓ MORTO, é uma vergonha o que fazem com o dinheiro público.

parte 3(final) da entrevista do poeta Miguel Carneiro

abxz – No entanto, escritores de diferentes matizes, escolas e gerações, mas principalmente os jovens, têm dedicado poemas a você, além de mostrarem bastante respeito pela sua obra...
MC – Generosidade dos amigos, só isso. Não sou flor que se cheire. Talvez para me acalentar, não me deixar tão enraivado com essa gente lustrada, de verniz, feito a barata de Kafka.
abxz - Em que campo da literatura você se sente mais confortável?
MC – Literatura é o pão que o “dianho” um dia amassou com o pé. Nada em literatura é prazeroso quando se leva ela a sério. João Cabral, cego no fim da vida, num apartamento no Rio, entre tiroteios e balas perdidas, com uma nevralgia crônica, cunhou essa pérola, na década de 70, numa entrevista ao Suplemento Literário do Diário de Noticias,:”quando não posso me renovar, eu me calo”.
abxz – Então qual a função que a literatura exerce na sua vida, uma vez que a sua face moderna é mesmo angustiante?
MC- Só me sinto humano porque escrevo. Isso é uma constatação minha, não um julgamento. Só encontro a minha missão como parte do rebanho de Jesus Cristo quando o povo emerge em minha obra e sai do limbo para ganhar voz. Literatura é o que me faz viver. Não a faço por deleite ou almejar fama. Faço como compromisso social e vislumbrando um mundo mais fraterno, mais justo, mais farto, mais irmão. Sou um homem angustiado, pois meu irmão do lado ainda passa fome, num país continental, farto e cheio de riquezas naturais. Sinto-me constrangido quando minha obra não toca o coração do meu irmão, seja ele brasileiro, francês, alemão ou americano. Pois em todos esses idiomas tenho trabalhos publicados e traduzidos.
abxz – Como vê a critica literária hoje?
MC – Alguém já disse antes que: “todo crítico literário é um escritor frustrado”. E quando ele ou ela entra na trupe de perseguição, ou de silenciar pelo que o outro escreve, ou fica em cima do muro, ou em silêncio, é que no fundo gostaria de levar aquele poeta, ou aquele escritor para a cama. Porém, eu os vislumbro como peça da engrenagem do sistema neoliberal a que este, ou aquele sujeito ou ator social é serviçal. Mas nem sempre peneiram. Essa gente está viciada no jogo do “cumpadismo”, do toma lá da cá, permitem que isso cresça, invada e viceje no pasto medíocre da literatura baiana, porque é uma forma de controle e manipulação. Na essência, somos todos um covil de chacais, rindo da desgraça alheia, enchendo a cara de graça nos coquetéis que os chapas brancas promovem e a gente vai, depois da cabeça zonza, dormir com boca fedendo após comer a amante. Até agora nada mudou, continua o mesmo ramerrão no quartel de Abrantes.
abxz – E os jovens escritores baianos? Há nomes que merecem mais atenção?
MC - Há uma coisa perigosa que Ceça, (Maria da Conceição Paranhos), minha poeta maior, me disse em certa feita: “um fato é a vida literária o outro é a literatura em si”. Quem fica? Os jovens precisam tomar cuidado, pois essa coisa desenfreada, feito Roberto Carlos, o cantor, de lançar todo ano um disco é semelhante a essa gente que todo ano quer lançar um livro na praça. Não trazem nada de novo. Eu me sinto envergonhado quando chego na LDM ou na Berinjela, ou nas livrarias EDUFBA e folheio um novo livro dessa gente.Aí na terra de Jorge Araujo, Adylson Machado, Agenor Gasparetto, terra de Fernando Ramos, de Altamirando Camacam, de Adelmo Oliveira, Maria Eleonora Cajahyba, Geraldo Maia, há gente produzindo coisas legais que eu sei. Mas em linhas gerais eu posso citar na prosa: Alex Leila, Maria do Carmo Salomão João Filho, Pablo Reis; na poesia: Henrique Wagner, João de Moraes Filho, Ronaldo Braga, Aline Costa, Carine Araújo, Nélson Magalhães Filho, Luciano Fraga, Maria Isabel Sampaio Lima, você próprio, Gustavo Felicíssimo, Fabricia Miranda, Bernardo Linhares, Wladimir Saldanha, Mauro Mendes, Bel Mascelani, Raimundo Bernardes...
abxz – Eu gostaria que, para terminar, você falasse um pouco sobre a sua obra, o CD com poemas que está para ser lançado, bem como o novo livro de contos que deve sair em breve também...
MC – Eu vou transformar uma novela que fiz o ano passado em um romance. Isso em junho, quando voltar da Itália. Vou para Gênova, para o Festival Internacional da Poesia, pois ganhei no ano passado uma passagem de ida e volta para me apresentar nesse Festival com um poema chamado a Lenda Nagô dos Afoxés, que já foi publicado neste abxz.O cd são dez faixas com poemas que os amigos recitam e três poemas que viraram música através de meus parceiros João Bá, Amenom Mascelani, Tomé Barreto e que o público grapiúna poderá conhecer em breve.

quinta-feira, agosto 30, 2007

AUSÊNCIAS

Ausências. Desde criança.
Ao olhar para qualquer lado,
tudo o que eu via e sentia? Ausências.
Como a voz de um sonho, eu sempre ouvia
alguém falar: - Catorze hora e quinze minutos.
Eu nem mesmo sabia o que era aquilo:
= Catorze horas e quinze minutos.
Eu não sei o que essa moça dizia.
Era como um sonho, era um
sonho mesmo e eu fiquei
sabendo e, eu fiquei
sabendo que se
podia
dizer:
- Catorze horas e quinze minutos.
Repeti isso muitas vezes.
Eu tenho certeza que repeti
- Catorze horas e quinze minutos,
por umas catorze horas e quinze minutos,
não sei porque. Só acertei parar de repetir quando
alguém gritou para outro que eu não conheço, nem alguém
e nem o outro. Mas gritou: Catorze horas e quinze minutos.Nessa hora
eu ouvi o grito. Olhei direto para o lado esquerdo. Uma mulher,
acredite, sem um olho e nenhum dente na boca me disse às gargalhadas
- Você tá fudi... Ela não disse a ultima silaba e eu fiquei feliz,
como se fosse a possibilidade de uma mundança em
meu destino. Essa mulher, ainda aos sorrisos
profundos, agora me pede um real,
e eu via de e na sua boca
sem dentes:
Sapos,
homens velhos em miniaturas
muito zangados, e que cantavam
"metamorfose ambulante' de Raul Seixas e
muito mais saía e entrava por sua boca:
grilos e formigas e baratas. Muitas
baratas saiam daquela imunda
boca. O meu mundo agora
é essa boca sem dentes.
Hoje aqui fixei
residência.
Nessa imunda e imensa boca eu moro:
Injúrias, blasfêmias, ofensas, palavrões. Esses
sãos os meus vizinhos constantes. A mulher sem um
olho e nenhum dente, traz na boca eu e mais outras criaturas.
Os dias aqui são normais como em qualquer boca sem
dentes. Quando eu não estou na boca sem dentes,
eu sou só ausencias,
ausências antes e
ausências depois de
ausências.
Aqui na boca a primeira tarefa é a procura dos dentes.
E eu sempre trago essas fantasias em minha mente.
E aí eu lembro o meu pai.

ronaldo braga

amo

Amo tudo aquilo que deve ser odiado. E isso eu guardava pra mim e então eu podia repetir com
e como os outros:
Oh! como ficou bonito!!
Mas eu sabia.
Eu amava o que não prestava, o inutil, o sem valor.
Toda vez que eu encontrava algo disforme, doente, como odores fortes e
principalmente ruim, podre,
eu logo dizia e digo se for uma pessoa:
boa pessoa.
Pra mim foi tudo, sempre, muito claro:
Eu gosto das piores pessoas,
das mais perversas, mais mentirosas e
de alguma forma renegada pela maioria.
Sempre soube que destruir
sempre foi a melhor forma de contribuir com a humanidade.
Como é bom destruir.

Ronaldo braga

segunda-feira, agosto 20, 2007

cruz das almas city blues,

dilacerantemente escura
pela tarde fustigavam meus olhos a mesa
de jantar
a mesma mesa de flores esverdeadas
espreitando meigamente meus seios
pela tua loucurainexplorados.
sua essência amar
ga como losna-maior
esta ampulheta mede uma fração
de artemísias...
ao lado do beliche furtivamente
A Lua e os animais, de Jorn
dilacerantemente escura
agitando inefável faca insetos ilimitados
que não acontecem habitualmente
na investigação do espanto.
tenho poder sobre os bichos da tarde.


Nelson Magalhães Filho

o sexo negado

O amontoado de dores espantava as moscas e seduzia os horrores numa fria madrugada de um inverno longo e cruel, eu, taciturno, observava o desfilar das horas e bebericava minha solidão em um copo sujo e amarelo e olhava aquelas mulheres e seus falsos sorrisos e pensava na minha vida covarde a ouvir súplicas e desejar olhares. A noite morria e ao longe uma luz prateada enfeitava a janela de uma eternidade sombria e irritante. Eu ali, sem nem mesmo saber o por quê e o pra que, era isso mesmo a minha vida? Só o tédio a acalentar esperanças em um vazio que insistente dinamitava a minha existência.
Ali, naquela casa, mais uma vez eu sentia o peso da inutilidade e eu podia ver, ouvir e sentir o ambiente torto, triste e covarde, e naquela noite, entediado, eu ouvia indiferente por toda a sala: suspiros, gritos, brigas e rápidas trepadas. Ali as pessoas queriam vencer o tédio, derrotar o medo.

Homens velhos e moços despejavam suas míseras existências naquela casa de tolerância, onde meninas brincavam de sexo e agarravam os jogos eletrônicos num desesperado ato de resignação e fuga, suas mentes entorpecidas faziam perguntas para sempre infantis. Eu apenas olhava e bebia e não me decidia por nenhuma delas, meu triste olhar percorria o salão em busca da vida nem que por um segundo, mas, nas mesas vizinhas, somente terríveis sorrisos sustentavam aquele comércio nauseabundo, e tudo era apenas trepar e pagar, sorrir e fingir, e era tanta carcaça perfumada, tantas vidas perdidas que eu, zangado, sabia da dor de estar ali e impotente escolhia a mais menina de todas e, em suas coxas, minhas sedentas carícias expunham as crueldades impostas numa latente e cadavérica trepada. Minutos depois nem moscas e nem sorrisos, mas uma dura derrota a soletrar amparos e chorar surras inesquecíveis e inimagináveis.

A noite morria na madrugada fria e os casais bebiam suas urinas e riam suas dores em medidas padronizadas e eram todos iguais em um tempo dinheiro e eu me sabia morto, me sabia entregue nos desprezos de um amor moralista.

Das ruas, apenas silêncio e medo e poucos transeuntes a olhar para todos os lados com seus passos apressados. Eu voltava o meu olhar vago das ruas até o salão e olhava aquelas meninas, ainda crianças, perdidas em brincadeiras insolentes e sem fim, meninas ainda a chorarem as ausências dos pais e ali naquele salão eu podia reexaminar a vida como uma punição e me senti como um cristão pronto para o meu abate, e nesse examinar a vida meu olhar chorava uma tristeza ontológica e intrincado observava os insetos e eles pareciam que se envergonhavam nas aborrecidas entre pernas sem abc. Eu sabia das histórias de violência, sabia das bonecas espancadas, sabia que as dores eram, no cotidiano das meninas, mais que um acontecimento e também sabia que os carinhos corriam das mãos pequeninas e choravam o esquecimento dos bebês, e eu, entediado e irritado, cantava a canção da morte nos abraços e beijos, numa tentativa senil de povoar ausências e vazios com ocos sorrisos e brigas de herói.

Um pálido sol ainda não preenchia as faltas e uma luz vermelha igualava as caras de sorrisos roubados, e o comum brilhava e sumia entre as folhas do passado, onde uma esperança mantinha as almas vibrantes nas dores que como remédios traduziam perdição nos beijos truncados dos pesados e sujos corpos, onde amores passados transitavam as alegrias compradas, e eram malditos os suspiros e falsas as promessas, sempre esquecidas e lembradas nas caçadas salvadoras de uma solidão medrosa.

Ao fundo do salão um olhar vigilante contabilizava as paixões em entradas e saídas, atentos às perdas e então eu sorria, estava ali um fluxo amoroso verdadeiro e borbulhava direto nos bolsos da cafetina.

Com o aproximar do dia, um desfilar de cortes inundava os olhares atarraxando os sabores e desabrochando do fundo de cada um os seus esquecidos abortos e toda uma gama de revolta e um sentimento que suas vidas não passava de pastos desérticos e lamurientos, impotência emanava por toda as caras e as almas tristes sorriam bílis e rins e praguejavam passados, pais, e mães e falavam mudas transformações de suas mortas existências catalogadas nas esperanças arrogantes. Ali naquele salão, todos nós estávamos presos em armadilhas e florestas de dores. E eu, cansado e derrotado, cantava a canção da morte em goles frios nos amontoados de ausências, e a noite era a salvação de mortos, e trepar as putas meninas era a saída dos caras sem caras.

A luz vermelha distorcia o chegar do dia, e nos olhos escuros brincava sofrimentos e desejava o nada, enquanto as moscas sorriam esquecimentos e roubavam copos e corpos numa longa e fria espera, as mesas vazias cantavam o amanhecer e as meninas cansadas dormiam sonhos e eu na rua encontrava luzes em uma Cachoeira fervilhante, com seu rio manso e morto e suas folhas espalhadas em um por vir agonizante, meu azedo sorriso apagava esperanças e a rua era um teatro vazio a insistir aromas, bichos, gentes e beijos sonolentos a disputarem um lugar lúgubre e sorrir ausências.
E naquele momento eu sabia que aquele mundo era tudo o que eu tinha.

O dia raiava nos passos medrosos dos pobres trabalhadores e sons e cores e dentes dançavam na solidão das mesas tristes e das paredes frias e seus sorrisos cautelosos brigavam canções sem poesia numa interminável fila de suicidas felizes com suas tristezas desencontradas e para sempre companheiras.

A felicidade sofria na luz do amanhecer e morria nas luzes mentirosas e cruéis dos braços suspirantes dos insetos.
E em todos os momentos eu sempre soube que aquele mundo era tudo o que eu tinha.

RONALDO BRAGA

quarta-feira, agosto 08, 2007

sob a perspectivas das Chilenas

Sob a égide silenciosa
do precipício mais absurdo
desenterro palavras
para que encontrem no pêndulo
da meia luz
formas elétricas
para escoarem
claras,
mutiladas palavras...
Ó! Encanto de pistola
dispara agora
o silêncio de bala
38 no peito
do cordeiro-de-deus
aloja os pecados do mundo
tão vulneráveis
quanto teus olhos de fera
chapada
ante a rebelião da presa
fácil
não é conluiar
em túmulos de deuses
com crise de asma
embargados,
sob efeito das tais palavras...
Afinal o que te agrada?
O penhasco das meninas?
O rebuliço do coito
no cortiço?
A fé jogada nas poltronas
sobre fraldas mijadas?
O Livro aberto de Allen
no primeiro capítulo?
De Kaddish:
"...mais nada para ser dito
e mais nada para ser chorado...
Só seres vendendo pedaços
de fantasma..."
Não sou tão piedoso.
Como pensas?
Ando forrando meus jardins
contra- ataques
de afiadas fuligens.
Quando o assoalho brilhar
intenso
nos melhores momentos,
não sou eu quem vai
lustrar teus sapatos...

Luciano Fraga

quarta-feira, agosto 01, 2007

É só mais uma noite.
Entre espasmos lastimosos
esvaecem resíduos de tédio.
Não há mais liames
entre coisas submersas apenas sobras,
memórias e perdas.
Estamos longe,
ainda solto pedaços de nervos
gelados pelas estradas.



poesia do aniversariante
Nelson Magalhães Filho

O poeta Nelson Magalhães Filho


Nelson, artista, antes de mais nada completo: Grande artista plástico, cineasta, ator, escritor.
Esse genio fez aniversário no dia 30/07/2007 e esperamos que continue a fazer aniversários por pelos menos mais 50 anos. Nelson desejamos força para suportar o peso da criação e a dor de saber o que só os artistas sabem.

absolvição

Estava escrito
no meu caminho
de feto
atemporal.
Um húmus liquido
alimentava
o manancial
de vingança endêmica
que dormia
como um gancho
tenso
ligado ao meu cordão
umbilical.
Hidras
interpelavam o canto
das sereias
emoldurando o universo
dos batráquios
que nadavam velozes
fugindo
como espermatozóides
em direção ao ventre
mortal
numa acirrada corrida
espremida
pela vida
que escorre entre os dedos
e desce pelo ralo...

Luciano Fraga

flor de qualquer menina

Sou caatingueira
Cerejeira forte
Mulher sem norte
Flor e assombração
Abacateiro, oração e morte
Sou idioma da nova paixão
Sou como cacto, flor de Umburana
Sabor de cana
Água e aguardente
Amor sacana, escovando os dentes
Sou a semente da nova manhã
Sou rapadura, doce flor do engenho
Flor seresteira, na ronda da noite
Sou preto velho, escravo sob açoite
Sou verso antigo
Com sabor amigo
Sou sombra fresca onde reinam as manhãs
São tantas setas, tantas descobertas
Quase ninguém sabendo a direção
Abismo certo, porta entreaberta
Uma esperança pela contramão
Copo de Leite, flor de Pimenteira
O Urucum dourando a pele inteira
Sou plenamente
O sol que a pele sente
Fruta, sement, flor do amanhã
Amor que abala a alma da gente
Saudade quente, sabor de Romã
Gata arisca na beira da porta
Verdade em horta, bala de hortelã
Caboclo, flexa, rima e cansansão
Semiótica, Orixá, canção
Amor aberto, rede na varanda
Minas, Luanda, Quito e Japão
Aventureira, flor de Arueira
Doce em compota, ponte e ribanceira
A Gameleira, o peixe e o arpão
Amor contido em plena primavera
Amor doído em qualquer estação
Risos, peneiras, desenhados em painel
Porto no céu, medo de furacão
Flor do sereno, estrela da noite
Comboio, missa, padre e procissão
Avesso de um cordel que rabiscava a cor da dança
Velho, criança, Alecrim e mel
Sou mesmo eu
A fruta derradeira
A sementeira
Seu corpo e o meu
Sou alicerse de um novo tempo
O firmamento sobre o verso ateu
Nossa Senhora, Rosa de Hiroshima
A velha rima e um poema feneceu
Água da bica
Sou pá de pedreiro
A construir a ponte sobre o mal
Flor de inocência
Desafio e irreverência
Eu sou imã pra qualquer clemência
A noite cobre e o dia me acolhe
Lua descobre o manto do nobre
A armadura olvidando o não
Acácia terna, sou flor de Algodão
Sou tantas dúvidas
Sou a Padroeira
Fruta do mato
Flor de cachoeira
Um medo santo
Minha proteção
Sou coisa rara
Sou água de pote
Forró, sou xote
Cancã e animação
Um conta-gotas
Flor pra vida inteira
Chuva, poeira
Oásis e irrigação
Que coisa livre
Nadar na Ribeira
Olhar o sol
E ser ave matutina
Que abraça a flor, envolve a menina
E depõe segredos sob a nuvem cristalina.

Alyne Costa
Ssa, maio de 2007

por acaso, o ocaso

A tarde que cai tem, assim, uma cor de incerteza. Uma chuva de dúvidas desaba e o coração da gente fica quietinho como se houvesse um espinho ou um caquinho de vidro moendo por dentro.
Dá vontade de ouvir canto de lavadeira voltando da bica. Trouxa alva na cabeça, no bolso um pedacinho de anil e na alma uma amendoeira frondosa que faz sombra sobre suas dores.
O menino sobe as escadas e acorda a mãe do devaneio num grito:
"- Mãe! Ô, mãe, vem ver Deus!"
"- Que Deus, menino?"
"- Deus, nosso Deus..."
Os olhos da mãe espreitam para ver melhor o sol a se deitar em róseos tons. O horizonte não tem mar. Ao longe um morro que não sabe o nome. Batiza de "Morro de Nosso Deus". E o morro, o sol, o horizonte, a cor do rosa que reveste o céu são inundados dos sonhos de mãe e filho. Na caatinga é assim. Cor-de-rosa é a cor do sol se pondo. Como se jatos de esperança varressem com anjos as dores que só se sabe de ouvir falar. A caatinga não sai no jornal da capital. A flor da caatinga não sai no jornal da capital. A dor da caatinga não sai no jornal. A fibra do povo da caatinga não sai em jornal. A caatinga não sai. E uma nuvem alva rasga o ocaso como se a miragem do menino desanuviasse a melancolia da mãe que cisma sobre sabedoria e imaginação, terreno fértil em terras de coração inocente. A mãe volta a seu novelo de poesia, querendo dar-se por conta do que perdeu. Entre cética e orgulhosa pensa na cria e julga ouvir aboios alados. Deus a livre de alma penada. O menino volta pra bola e pro jogo de botão. A meninada faz volta na sala, quase obediente. E a noite chega devorando as valas do abismo entre o que podia ter sido e o que será."
A noite galopa em açoites angustias e medos. A noite assombra o inaudito. Uma quase volúpia da madrugada, a noite palita os dentes. Exaustos do feito e do por fazer, mãe e filho adormecem... Dos sonhos, Deus, nosso Deus toma conta. E uma procissão de candeeiros invadem a lua.

Alyne Costa

terça-feira, julho 17, 2007

tiro de misericórdia

Um sonho cálido
dependurado
num candelabro
avança prodigioso
contaminando
minha vida
adentro.
Bárbaros perfumes
grávidos de orvalho
anestesiam meu sonho
urbano
antes, por ser pedante
pelo odor que exala
após, repugnante
pelo ambiente
em que preparo
as balas
para a roleta
em que arrisco
na cabeça
um blues
tão tenso
quanto os punhos
de um caudilho
tão eterno
quanto o instante
de ferro
quando ponho as luvas
e aperto o gatilho...

Luciano Fraga

alforriado de mim

Passei minha vida
Aprendiz de Loja Maçônica
que sequer cheguei a freqüentar
esqueci de mim,
sem saber onde me encontrar.

Marcas de sofrimento pelo rosto
testemunhos das auroras que cruzei...
O cabelo prateado nas frontes
besteiras que eu próprio pratiquei...
Os pés embrutecidos de calos
caminhos que um dia alcancei...
A corcunda de que me apresento
porradas que da vida levei...
Pela retaguarda sempre fiquei
sem saber ao certo meu nome:
Basco, mouro,
cristão-novo, mulato
não questiono minha etnia,
sou como sou, de fato.
Fui apenas escravo de meu destino
que eu próprio tracei de compasso.
em Anoldo de Sacrifício me disfarço
para segurar com denodo
tudo aquilo que faço.

Não promovo querela de sapos
coaxando numa algazarra de amargura.
Vivo nessa eterna busca de ternura...

Meus inimigos a espreita
querendo sem custo a jugular
mas o carcás ainda trago a mão.
Sem jamais me importar
com tantos canalhas
e seus discursos de comiseração.

Miguel Carneiro

segunda-feira, julho 09, 2007

sobre o livro Borges e os Orangotangos

Escribe, y recordarás. Assim Vogelstein inicia o romance. Professor universitário e tradutor de inglês, Vogelstein, um jovem solitário cujas únicas companhias constantes são seus livros e seu gato Alef, é levado (força do destino?) a vivenciar um crime envolto por mistérios e teorias fantasiosas. As duas mortes que permeiam a história se mostram, através do discurso do narrador, como fios condutores, elementos que permitem o desenrolar do enredo. Nada mais apropriado, para a cena de um crime, do que um seminário internacional sobre Edgar Allan Poe, precursor do romance policial. Mais apropriado ainda, que o seminário acontecesse em Buenos Aires, abrigo de Jorge Luis Borges, escritor latino-americano de literatura fantástica. A fim de reconstruir a memória do episódio, e assim poder compartilhá-la com Borges, interlocutor direto de Vogelstein no enredo, este escreve a história, que começa como uma pretensa carta e que resulta num romance inacabado. Escrever é justamente a possibilidade de reviver o acontecimento. Mas o curioso é que o narrador, no ápice da história, no momento em que o mistério está para ser desvendado, sai de cena e cede seu lugar a outro personagem que, através do recurso da carta, elabora uma teoria que, de certa forma, deixa em aberto o desfecho da história. É no limite entre fantasia, ficção e real que Veríssimo escreve Borges e os Orangotangos Eternos.

Ruth Trindade Braga Santana

* Trecho de um ensaio escrito por Ruth Trindade sobre o livro Borges e os Orangotangos Eternos de Luís Fernando Verissimo
O LIVRO

Eu hoje queria escrever sobre um livro que eu não li e tenho certeza absoluta que ele nem mesmo chegou a ser publicado. E isso me inquieta, não o fato de eu não ter lido e sim de ele não ter sido publicado, por que, por que ele não foi publicado? Será que ele não foi nem sequer escrito? Ou se algum autor maluco o escreveu ele não foi aceito pelo mercado literário? O mercado determina a minha não-leitura desse livro ainda não publicado e provavelmente ainda não escrito.
Mas esse livro vem me fazendo pensar, primeiro na principal característica desse livro que é ser um não-livro e existir na sua não-existência, segundo o fato desse livro tratar de assuntos importantes para a minha vida e ainda o fato de ser de autoria, pelo menos para mim, desconhecida.
E assim hoje, eu resolvi que esse livro será amplamente discutido e para mim pouco importa o fato que ninguém leu ou mesmo viu o tal não-livro, mas eu já sei com certeza que ele não foi publicado.
Aí será o começo. Por que ele não foi publicado?

ronaldo braga

a todos os autores ainda inéditos, principalmente devido a escolha do mercado literário, que ninguém viu, ninguém conhece mais sabe demais o que ele quer:
vender verdades prontas.
Na primeira noite eles se aproximam
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Poesia de Maiakovski

quinta-feira, junho 28, 2007

A Barca Velha da Linha de Cachoeira

Felisberto Caldeira Brant Pontes,
não estamos mais em mil oitocentos e dezenove
e tua barca de vapor
não vai da Metrópole ao Sertão.
Não sobe mais Paraguaçu...
Dorme num banco de areia
perto da lancha "Albatroz"e seus instrumentos de navegação.
Os motores, que são ingleses,
lá no fundo da Baía naquela imensidão
de algas, sargaços, ferrugens
e o passear da arraia, e ferrão.
Mergulhadores procuram
em meio àquela marola, tempestade com trovão
por tua proa, teu convés
nas águas que vêm de Riachão.
O Jacuípe, porém, corre morto,
desaguando pouco a pouco,
pleno de poluição.
Felisberto Caldeira Brant Pontes,
meus olhos marejados de cegueira,
catarata e solidão...
buscando no porto, em vão,
o atracar da embarcação.
Felisberto Caldeira Brandt Pontes,
dez horas de uma manhã clara
cais do porto Conceição.
Turistas embarcam apressados
aos gritos dum capitão...
Não mais teu vapor velho
e o apito soa-me surdo:
Vou-me embora,
vou-me embora...
Vou-me embora pro Sertão...

Miguel Carneiro

quarta-feira, junho 27, 2007

OPUS - VIL

“...como se renovar sem primeiro se tornar cinzas...”
Assim Falou Zaratustra


Gentilmente
o desencanto
arrebatou-me
ao cair da tarde...
Eu caminhava
por uma impiedosa lacuna
vadia
nem percebi
a profunda anemia
no seus olhos
de nevoeiro...
Não sou de guardar
lembranças
por ser franco
atirador
disparo nervosamente
sorrateiras mentiras
simulo
fobias artificiais
antes que seja tragado
pelo amargo beijo
das tarântulas
radioativas
que pelejam
para escalar as paredes
de minha aorta
entupida...

Luciano Fraga

quinta-feira, junho 21, 2007

SONHO DE UMA MÃO ELÁSTICA

Quisera que minha mão alcançasse infinitos quilômetros…
Se,
Se minha mão tivesse essa elasticidade inexistente, me levaria até teu pelo.
Com a mesma ansiosa elasticidade,
te acariciaria os cabelos escuros, suaves e leves.
Aproveitaria a oportunidade de roçar-te na cara, de desenhar teu nariz e tapar-te os olhos cansados, de acalmar teus lábios silenciosos, fatigados.
Desejaria que minha elástica mão também tivesse olhos,
para não esquecer-te,
para recordar como dormes e para ver tua cara sentindo minha mão em teu pelo
(Ou teu pelo em minha mão).
Quisera também que minha flexível e elástica mão tivesse uma boca,
para sussurrar-te na pele, cara e pelo
para limpar-te de um sopro tudo o que não tenha passado desde que não te tenho
e tudo o que não passou enquanto te tive
e tudo o que sem ter-te passou…
e tudo…
Desejaria que minha plástica mão detivesse o relógio que te acompanha,
Que de um golpe freasse os segundos que enlouquecem teus minutos e
te carregasse um tempo mais longe …
enquanto eu faço esses minutos
espero as noticias que traz minha mão de teus segundos convexos
e não durmo…
Como gostaria!
Que as fibras elásticas de minha elástica mão pudessem fazer tudo aquilo,
Que não seja um vão pensamento, nem um recordar tua pele
Porém…
A elasticidade (real) de minhas mãos, se limita somente a escrever,
há barreiras no tempo, no espaço, no silêncio…
E se fosse a tua mão?
Viria buscar minha mão para que acalmasse teu pelo?


POESIA DE Piera Pallavicini
tradução para o português- ronaldo braga

terça-feira, junho 19, 2007

esquivos e ausentes beijos

Esquivos beijos reincidem momentos martelados em olhares surdos,
E cortejos imemoriais insistem desejos, antes tão secretos, tão desconhecidos.
E um vir teimoso nos chama. Pra onde?
Esquivos monstros persistem na carne tremula,
E arrogantes algas trancam sorrisos em beijos sofridos.
Você passado em ausentes segredos funestos e secretos,
E você presente em dispositivos legais.
E medos ocultos afloram inflexões agudas em imanentes remanências outonais,
E você futuro sorrindo rejeições de uma fatal fuga das flores,
Com suas noites irrefragáveis, e seus suores afogando peles e agitando sonhos,
E acordando meus pesadelos de águas cansadas,
Gritando e gritando saudades de afogados.
E você - você ali como um nada - tudo material e cisão de mundos.
Cisão de carne e dentes dantes sorrisos e livres.
Agora Esquivo tempo caução de tudo.
E cruel, nas nuvens pesadas de minhas noites lembranças,
Numa intensa dissimulada diminuição assintótica do condenável viver,
E sorrir condenável e ser condenável.
Bailado numa dança de mortos.
Realidade imposta nos corações outrora difratados em indiscretos beijos.
E você fragmentando calmas para sempre esquecidas
E você ausente em perigosas interrogações,
Jurando interditos amores passados – presentes e perdidos nos sentidos frívolos, Enquanto incessantes vazios e culpabilidades produzem cortes nos destemidos horrores matrimoniais.
E nas noites preconcebidas,
Deleitam sutis perversões
E povoam medos e traduzem certezas infelizes de transgressões.
E estratégia é fuga na homogeneidade formal de uma vida.
Principio e instancia:
Das luas;
E chuvas;
E sonhos;
E beijos buscados nos desesperos dos encontros inadvertidos e não censuráveis.
Você água, diluindo tempos e cantando gerânios em raios caiados.
Você musica ritmando um mundo de cores brutais em oscilantes precipícios.
Você pontes de caladas gerações.
Você, apenas, você.

Poesia de - Ronaldo Braga
Poesia traduzido para o francês por
Pedro Vianna e publicado em:
http://poesiepourtous.free.fr/
e clique em poème du mois

Des baisers farouches ( Esquivos e ausentes beijos)

Des baisers farouches ressassent des moments martelés dans des
regards sourds,
Et des cortèges immémoriaux réitèrent des désirs, avant si secrets,
si inconnus.
Et un venir têtu nous appelle. Vers où ?
Des monstres farouches persistent dans la chair tremblotante,
Et d'arrogantes algues bouclent des sourires dans des baisers
dolents.
Toi passé passé dans des secrets absents funestes et secrets,
Et toi présent dans des dispositifs légaux.
Et les peurs occultes affleurent les inflexions aigües dans
d' immanentes rémanences automnales,
Et toi futur dont le sourire sont les rejets d'une fuite fatale
des fleurs,
Avec ses nuits irréfragables, et ses sueurs noyant des peaux et
agitant des rêves,
Et réveillant mes cauchemars aux eaux fatiguées,
Criant et criant la présence de l'absence des noyés.
Et toi - toi là tel un néant - tout matériel et scission de mondes.
Scission de chairs et de dents jadis sourires et libres.
Maintenant temps Farouche tempo caution de tout.
Et cruel, dans les nuages lourds de mes nuits souvenirs,
Dans une intense et dissimulée diminution asymptotique du
vivre condamnable,
Et le sourire condamnable et être condamnable.
Ballet dans une danse des morts.
Réalité imposée aux cœurs auparavant diffractés dans des baisers
indiscrets.
Et toi qui fragmente des calmes à jamais oubliés
Et toi absent dans des interrogations périlleuses,
Invoquant des amours interdites passées - présentes et perdues
dans les sentiments frivoles,
Tandis que des vides incessants et des culpabilités produisent
des entailles dans les intrépides horreurs matrimoniales.
Et dans les nuits préconçues,
De subtiles perversions se délectent
Et peuplent les peurs et traduisent de malheureuses certitudes
de transgressions.
Et la stratégie est une fuite dans l'homogénéité formelle d'une vie.
Principe et instance :
Des lunes ;
Et des pluies ;
Et des rêves ;
Et des baisers cherchés dans le désespoir des rencontres
par inadvertance et non censurables.
Toi eau, qui dilues le temps et chantes des géraniums dans des
rayons chaulés.
Toi musique qui rythme un monde de couleurs brutales
dans des précipices oscillants.
Toi ponts de générations muettes.
Toi, rien que toi.

Poesia de - Ronaldo Braga
Tradução do português para o francês de- Pedro viana.
Publicado em:
http://poesiepourtous.free.fr/
e clique quando abrir o site em
poème du mois

BALADA DO VOLUNTÁRIO DA PATRIA

Quando a guerra,
mostrou a sua verdadeira face,
beijei minha mãe em despedida,
e fui embora pro “front”.
Minha mãe continuou chorando
na beira daquele cais.
Enquanto o navio singrava
por águas repletas de sais.
Durante três semanas
naveguei naquele oceano,
com um único plano,
de eu não vir a me ferir.
A guerra tem dessas coisas:
A única lógica é
Inevitavelmente sucumbir.
Desembarquei naquelas terras,
E dentre charcos, pântanos e a escuridão,
Eu tinha que me salvar
Levando a bandeira de minha nação.

MIGUEL CARNEIRO

segunda-feira, junho 18, 2007

RASURAS

Eu sorria e
estava pronto
para admitir
caso fosse persuadido
que
subtrair o ardor
do meu coração...
Eu aniquilei friamente
qualquer intenção
de uma boa ação.
Deliberadamente
conduzir minha alegria
para o exílio.
Mas eu era um inocente
sombrio
não percebia
a sua delicadeza
de mulher má...
Dentro do seu conteúdo
clandestino
um signo insípido
um crustáceo
fascinado
povoa sublimes
portos
ancorados por arpões
que escondem sacrifícios
suscitando meus sobressaltos
infiéis
que traem minha memória
Pagã....

Autor: Luciano Fraga

quinta-feira, junho 14, 2007

VERÃO DE 1966

VERÃO DE 1966


1966 era o ano dos meninos em Cruz das Almas, dos domingos sol ouro a invadir pulmões e desejos clareando sentidos e risos em babas corridos à povoar os tempos e nos intervalos a imaginação sexo a exigir punhetas. Nestor cansado cantava aos deuses e Agripino contava as novidades de meninas em nuas palavras.
Todos sorriam diabólicas transas imaginadas e em 1966 éramos belos e desejados em nossos sete anos de uma vida sonhadora de jardins eternos e flores galantes, tudo era permitido e até estimulado, catecismos circulavam e meninas jogavam saias aos ventos e era delícia olhar o tempo. Frestas e muros baixos e moças nuas embalavam nossas tardes de verão. Mas Julieta, a menina dos olhos azuis, e do sexo faminto, era a temeridade do grupo, com a realidade exposta e nua que nos amedrontava e pedia distâncias. Queríamos sonhos, e a menina a exigir corpos e um saber tudo, isso irritava nossos suspiros perfeitos, e postulavam segredos loquazes a fragmentar certezas e denunciar crianças. Corríamos e então de longe olhávamos a menina a cantar prazeres em homens barbudos no canavial. E de longe sorríamos felicidades e podíamos sonhar desejos e segredos de futuros. E a menina soltava uivos de dor e prazer e nos fazia tremer até os pés. E à tardinha dourada iluminava seios ausentes em uma menina precoce, bela e bruxa. A tarde ganhava cores da noite e pouco a pouco só nós e a menina nua a chorar alegrias e dormir cansada na noite de estrelas e pássaros verdes, e nós assustados e felizes olhávamos aquele corpo feminino e nos imaginávamos dentro dele e éramos reis numa terra distante e sabíamos a hora de casa e o caminho de volta era lamentações e silêncios.

Na casa da menina gritos e correria, a menina sumira. Nestor medroso e apressado contava tudo.

O erotismo da menina era visível a todos os cruéis sorrisos, e imanentes maldades desenhavam agruras florais, e odiavam a menina que sorria sempre, e de suas pernas, tremores acalentavam esperanças, enquanto nas camas, meninos imaginavam bundas, e lá fora a chuva amainava impulsos e a menina, com seus olhos azuis, era metodicamente cuidada. A mãe em infinitesimais passos implorava aos céus e permitia o exame em um desesperado alento: imergir devaneios e salvá-la do fogo carnal precoce. A menina sem entender, ouvia canções de dor e de limpeza.
Tudo nela era difração e sexo em seu olhar azul. O médico sorria desejos e anunciava receitas e recomendações.
Vizinhos em todas as frestas disputavam fofocas e falavam verdades, na rua, um corre-corre de sentenças, zumbiam rancores: a menina era o diabo de saia nas bocas de sapos.
A noite inelutável resguardava segredos de lençóis, e em tristes namoros, moças garantiam normalidades decoradas, em um repetir de tolas negativas constitutivas de vazios, e em tédios insistentes o povo festejava o corpo da menina em estranhos desejos perdidos em suspiros, que agigantavam pensamentos eróticos e irritavam seios e mãos numa cidade de cores mortas.

A covardia ensaiava a não-vida e saltava horrores nas mentes obscenas, e a menina, calada e distante, da janela, a olhar vazio um mundo abandonado de seus olhos, que outrora azuis, agora opacos fitavam o nada, enquanto excrementos escorriam de sua boca aberta, e puniam desejos infantis, numa tristeza que engendrava vidas e obliterava canções.
A menina era a noite perdida.
E as rezas agradeciam o calmo sorriso doente.

Ronaldo Braga

A COR

A cor da fita é o laço
A cor do tênis: passo
A cor da vida é o destino
A cor do homem: menino
A cor do dia é o apreço
A cor da morte: endereço
A cor do orgasmo é a fonte
A cor do sol: horizonte
A cor da meretriz é a rua
A cor da melodia: aleluia
A cor do vermelho é a maçã
A cor da cura: romã
A cor do sorriso é o bis
A cor da bailarina: atriz
A cor do desejo é o sexo
A cor do sentido: nexo
A cor da letra é a canção
A cor do acorde: violão
A cor do som é a certeza
A cor da mão: destreza
A cor da abelha é o mel
A cor do idioma: babel
A cor da lágrima é o sal
A cor da pele: sinal
A cor da razão é a verdade
A cor do carinho: amizade
A cor da tristeza é a dor
A cor do arco-íris: Amor.


ALYNE COSTA

terça-feira, junho 12, 2007

DIVERSOS-AFINS.BLOGSPOT.COM

Venha celebrar conosco nosso primeiro ano de caminhos pelas palavras.
A Décima Leva está no ar!
Abraços,

Fabrício--

www.diversos-afins.blogspot.com

segunda-feira, junho 11, 2007

canções para o desconforto

“...numa terra queimada de sol o inverno dorme com a cabeça cheia de neve...”
B. Dylan

Cada coisa agoniza
imprevisível.
Meus pensamentos
desnorteados
exalam seus odores acres
pelos labirintos
de meus miolos.
Acaso:Uma constelação violácea
os acolhe
no seu desalento
e eles com estilo
maldoso
ruminam soberbas...
Eu sou o tempo
que rema lerdo
indiferente às águas
dos contumazes caprichos
de destinos embriagados
raptados por vendavais
caducos
que rejeitam
despertar
para o receio
do velho caos...

Poesia de LUCIANO FRAGA

quinta-feira, junho 07, 2007

GRACIELA MALAGRIDA


Graciela Malagrida, poeta de Posadas, Misiones, Argentina.

quarta-feira, junho 06, 2007

NÃO OLHE A HORA

Vou ver-te a cada dia
e, "como ladrão na noite"
entrar nas pontas dos pés
para não despertar dos ninhos
as aves vizinhas.

Sou a primeira brisa
que te beija a fronte
sou
Quem descobre o véu
e o deixa no esquecimento.

Não contes os instantes,
não me indiques
porque sou somente uma seta
entre mil caminhos
que terminam sempre em aberturas.

Não digas a ninguém que te adoro
não entenderiam.
Poucos pretendem
"sabedoria de todas as coisas"
para ser digno aviamento das almas.

E se ver que já não ficam SALOMONES entendidos
porém te chovem faíscas como doações,
se em tua casa não cabe nem um alfinete
e continuas hospedando corações
não vejas fora, não olhes a hora.

Vou ver-te a cada dia
e "como ladrão na noite"
te levo.


SALOMONES- Referencia ao rei Salomão

poesia de GRACIELA MALAGRIDA
Trad. de ronaldo braga
Veja o blog de Graciela Malagrida:
http://uni-versovirtual.blogspot.com/

terça-feira, junho 05, 2007

DA SERIE: MULHERES

Pintura de Nelson Magalhães filho
Da serie MULHERES-2004
Mista s/ papel, 70X50 cm

www.anjobaldio.blogspot.com