terça-feira, dezembro 26, 2006

A professora martelava as nossas mentes com as baboseiras de sempre e nos ameaçava com notas fracas nas provas futuras. Ameaças tolas, eu só tirava notas baixas.
Meu cérebro esperava o recreio: Eu tinha um acerto de contas e mentalmente calculava os meus golpes. Apalpei meu bolso, um canivete enferrujado me garantiria a vitória.
Agora o famoso som estremeceu o mundo e nós éramos livres outra vez, tínhamos a nossa vida em nossas mãos.
O meu adversário sorrindo me acertou vários golpes, não tive como usar o canivete. E depois da luta que durou dois minutos, fomos para o baba, onde jogávamos no mesmo time.
Éramos amigos, e alem da dor no rosto e na barriga, eu estava feliz. Brigar me fazia bem: Bater; Apanhar. Era uma sensação de dono do meu próprio destino. Eu sempre apanhava mais, mas a vida era isso mesmo, outro dia eu o pegaria. Já era a quinta briga contra o J. um dia eu o venceria. O J me disse - R você estar recebendo os meus golpes cada vez melhor - É isso aí J, eu estou treinando, batendo nos menores, sua vez vai chegar. Eu acreditava no J, ele era um cara legal, colocava a gente pra brigar e nos ensinava a dar e receber os golpes. Ele tinha 14 anos eu 11, eu chegaria lá.
A segunda parte da tortura, na sala de aula, foi melhor engolida, eu tinha recebido um elogio do J e ele não elogiava de graça, eu estava melhorando.
A senhora P gritou bem no meu ouvido - Me fale do sujeito oculto - A senhora P era professora de português e sempre queria saber: do sujeito oculto; do verbo; e do predicado. Eu estava sempre salvo, eu não ligava para aquelas bobagens.
E fui pra casa feliz, e recebi os cumprimentos de todos da minha idade, que me achavam um herói. Eles corriam do J e achavam que eu era louco e comentavam - O R é duro, apanhou bem e já aumentou o tempo, ficou em pé dois minutos – Eles contavam o tempo e eu era o recordista em briga com o J, os outros meninos de minha idade, ficavam de pé, até receber o primeiro golpe. Eu recebera nove e me esquivei de outros. A dor era um balsamo, pois eu via como as meninas me olhavam.

Ronaldo braga
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Um comentário:

Anônimo disse...

Eu estudei dois anos no velho Landulfo Alves, e ainda sonho com os "babs" no gramado da frente do prédio, e as meninas de saias coloridas nas festas de São João....