terça-feira, dezembro 26, 2006

A fila e o silencio marcava um ritmo macabro àquela cena. O que será que tem ali? Todos na fila eram homens acima de 40 anos e tinham na mão um pequeno pote de sorvete, vários sabores. Caminhei então, até o inicio daquele aglomerado de homens taciturnos e então eu a vi, ela era uma menina de dois anos e segurada pelo pai, chupava avidamente o sorvete que cada um daqueles homens colocavam em seus pênis. Parei e fiquei a observar a cena e admirado estrangulei toda ontologia, e o meu ser era agora uma besta a observar uma profissional. Profissional? E percebi que não somente era o sorvete que ela chupava, com uma avidez e sem técnica, ela satisfazia cada um, e seus olhos revirados em latejantes espirros consumiam lagrimas em espôrros constantes, enquanto seu pai, sorridente, recebia quatro reais de mãos caladas e tremulas, que saiam parecendo de um inferno, com olhos tristes e atentos a vomitarem sorrisos em passados inumanos, e um andar cambaleante gritava uma insatisfação contraditória com o gozo. Fiz um rápido estudo da situação e resolvi ir embora, eu não seria um bom cliente, primeiro: gosto de conversar e me embriagar com as minhas parceiras; e depois um enojado sentimento assassino contorcia todo o meu corpo. Cansado e perdido em axiomas moralistas, caminhei e ao lado da casa, outras meninas maiores ofertavam bundas e resmungavam sofrimentos e despiam odores em flagrantes desesperos. Mais adiante um bar recebia os transeuntes e marcavam os pontos.
Ali de frente pra vida, eu lembrei de minha filha, e um vazio inexorável preencheu meus mundos. A vida era a vida, e pronto, não há salvadores e nem salvações. O mundo um imenso laboratório, e os descartáveis podiam sorrir dores em esperas macabras e buscarem na morte, uma possível recompensa. Saí dali a engoli guerras, e ruminar merda nos amores do mundo, que ainda me permitia surpresas e pesos. Desistências povoavam a minha cabeça e era um copo o que eu queria.
Entrei no primeiro bar ou o que parecia ser um. Bar da Creuza. E uma sorridente e baixa mulher me atendeu. Tomei alguns conhaques e uma cerveja e pude observar o macho da Creuza, um cara de bunda de viado recusado, teimava em afirmar que estava sendo traído - ele dizia - Você fede a cigarro, sua cama fede a cigarro e eu sinto cheiro de homem na cama – ela respondia - Não meu bem, eu não já lhe disse, um amigo meu fez um filme aqui e usou a minha cama – ele insistia – Filme? Eu sei qual filme - ela dizia – Não – ele dizia – Sim - e então ele zangado saio com passos pesados e cara de fuinha. A Crêuza era feia, mas o cara era realmente o seu par perfeito. Sai dali para mais um vomito e um bom sono de um sobrante bêbado solitário.

Ronaldo braga

2 comentários:

Nelson Magalhães Filho disse...

O Bar da Creuza é um lugar maravilhoso nas altas madrugadas da cidade das sombras, para umas cervejas geladas e tira-gosto de carne de sol.

luciano fraga disse...

Naquela noite em que Paulo e Dayse confundiam-se entre amor-ódio,desespero-loucura,traição-angústia,entre comprimidos,discos de Lou Reed,cigarros e intervalos para tomar a porra de um café misturado com rato,a cama de Creuza era queimada com incensos da Índia.No final coroamos com um MARAVILHOSO ABSINTO,diga-se de passagem verde e não azul...