quinta-feira, dezembro 21, 2006

baixinha da vitória

A chuva desabava e goteiras acordavam os sonos, eu tentava escapar e panelas e baldes aparavam águas de um soluço interminável, lembranças terríveis assolavam da noite e estrelas sumidas insistiam sofrimentos.
- Levanta preguiçoso - Bradou meu pai e toda sua estupidez.
- Já? Ainda não deu cinco horas. Eu quero dormir mais um pouco.

- Dormir o que? Imprestável. Levanta, vai comprar o pão e coloca água pra ferver. Nem com tantas goteiras na cama esse maldito levanta. - Meu pai agora era cólera e vertia ameaças em gestos e palavras e de sua mão uma vara impunha respeito.
- Tá bom. Já vou, já vou. Que merda.
- O que você disse moleque?
- Nada, eu não disse nada.
A rua, era silêncio e madrugada, e a lua emanava tristezas de antes, e insetos sobrevoavam meu andar em uma insistente orquestra fantasmagórica, em frente a minha casa, Pedrinho Bicho Doido acordava os músculos, em exercícios marciais, e cantava canções de heróis em sua mudez arrogante. A chuva era trégua e cores prateavam o mundo em difrações infinitesimais. Louro Bicho sonhava copos e de sua casa, sujeiras espalhavam nojos. Eu caminhava uma rua deserta e pessoas surgiam em seus afazeres. A venda fechada irritava clientes e conversas medrosas informavam fofocas e exigiam o meu acordar, e entre dentes o povo falava:
- Hoje vai ter briga aqui na rua, vou dormir cedo, eles marcaram para as 18 horas - era seu Venâncio olhando pra todos os lados.
- Quem vai brigar?- atônita indagou dona Flor.
- A senhora não sabe? Compadre, ela não sabe.
- É compadre Venâncio, eu ouvi, não precisa gritar - resmungou seu Agripino sempre azedo.
- Dona flor, o Borraxa chegou, na caída da noitinha, junto com aquela chuva fininha e o Diabo Louro chegou logo depois, e para completar o Pedrinho Bicho doido acabou de chegar, e faz exercícios na porta, e vestido só de cueca. - Seu Venâncio lamuriava em uma monótona canção de medo e terror.
- Mas isso é o diabo meu Deus. E Tonzinha? E Zefa? E Bastião? Eles não fazem nada?
- Fazer o que? Dona Flor, o que, que a pobre da Tonzinha vai fazer para impedir o Diabo Louro? Ele faz o que quer e pronto, ela disse que pediu a dona Zefa, pra avisar da vinda do Borraxa. Mas eles são o que são, matam gente. Dona Flor, são filhos do cão danado. - seu Venâncio se entusiasmava e tagarelava com desenvoltura, e todos cabisbaixos adentravam a venda entreaberta e triste. No balcão Giane avisava:
- Vamos fechar às cinco da tarde, não quero ter prejuízos.
Todos concordaram e iam falar quando Pedrinho Bicho Doido sorriu venda adentro e com sua voz feminina brincou facas nas mentes covardes:
- É hoje seus machos retados que a baixinha tem festa, há anos que eu não encontro o tal do Borraxa e vou acertar contas com ele, é bom irem pra cama cedo, não quero ver ninguém na rua depois das cinco. Nem as crianças. Ouviram? E o senhor. Seu Venâncio da língua grande. Pode espalhar. Eu quero a baixinha da vitória livre. Ouviu? Livre. Hoje essa rua é o meu salão.
- Sim senhor seu Pedro – resmungou quase inaudível seu Venâncio acariciando a face esquerda, onde uma lembrança do Pedrinho Bicho Doido marcava território e prolongava medos. De volta pra casa, tomei um café com pão seco e engolindo injúrias e promessas de surras, me sonhava Diabo Louro com sua Tonzinha louca e descarada, enquanto caminhava pra escola. A rua misteriosa vagava na noite por vir, e deixava quietas as contendas menores: Era dia de homens, e os fantoches se sabiam nada e cochichavam rumores de meganhas da capital, em tímidas esperanças natimortas, encolhiam ombros e eram bondosos. A escola era só alegria em batalhas de verdade, a impor futuros, nas peles em fogo de punhetas esquecidas, e nas salas as torcidas se dividiam:
- O Borraxa vai acabar com o viado e com aquele sinistro Diabo Louro - apostava Mané liberando raivas antigas e revelando dores impotentes;
- Tu tá é com raiva, Diabo Louro deu uma surra em teu pai e só não o matou porque disse que não matava morto - desafiou todo orgulhoso Juca que temido, era amigo tanto de Diabo Louro quanto do Pedrinho;
- Eu não tenho medo de você não, quando seus amigos forem embora a gente acerta.
As meninas colhiam flores em espinhos comoventes, e sorriam guerras em batalhas queridas, e as garotas esquecidas buscavam refúgios em gritinhos e promessas de beijos Eu insistia meus medos em coragens ausentes e desafiava céus, e músicas gigantes invadiam nossas cabeças de medusas. E valentia era a constante do dia. As professoras falavam de amor e ameaçavam zeros, funcionários agitados, alarmavam noticias. E a escola em desordem era férula, numa festa macabra de esperanças totais, e verdades quebradas. Todos sorriam de medo ou de felicidade, e desejos ocultos afloravam peles, e meninas esfregavam vestidos, e seios buscavam mãos, e éramos belos e eretos, éramos da rua de heróis, temida e mal falada por toda Bahia, a minha querida baixinha da vitória, com seus loucos, seus monstros e seus homens de verdade.

ronaldo braga

7 comentários:

Rutinha disse...

Gostei do espaço. E os textos, estão cada vez melhores. Conte comigo!

Anônimo disse...

Parabens, mais um novo espaço para execitarmos a cultura, bons textos. Abraços,Paulo Jackson

Nelson Magalhães Filho disse...

Rua da Vitória (indo em direção ao velho Estádio Alberto Passos), Baixinha da Vitória, Suzana... quanta beleza na infância querida! Quem foi que disse que a beleza não é cruel? Grande abraço.

ronaldo braga disse...

pessoas que talvez só vejam beleza nas aparencias primeiras,na verdade as aparencias nem sempre são aparentes.é isso nelson no seu blog tem um comentário que diz algo sobre a beleza da crueldade.

luciano fraga disse...

Ronaldo,você resgatou os tempos em que íamos para o CEAT no inverno,com água na altura dos tornozelos,felizes.Lembrou de Chocha,a cega que sabia de tudo,Bitela,Viriato e suas cambalhotas no meio da rua da Vitória,Louro Bicho,engolindo pregos e vidros de lâmpadas,nos metendo medo...Saudades do velho Estádio e dos loucos de Cruz...

ronaldo braga disse...

luciano lembrar chocha, viriato queno, mundim, louro bicho joão mole que é o pai de chofrer é reviver tempos de outros tempos e inocencias de olhar meninas em buraco de fechaduras e contar para os amigos a façanha.a vida continua e opassado não nos assombra mas nos ilumina com suas realidades para sempre fixadas em nós,revelando outros-nós nos mesmo-nós.

Anônimo disse...

Velhos tempos influenciados pela lua negra que teima em beijar nossa face crua e desesperada.......................................