quinta-feira, dezembro 28, 2006

ELEGIA PARA CHARLES BUKOWSKI

Ele dizia
que um poema
eram poetas
egoistas, amargurados
traduzidos
em loucos recados.

Nove de março
eu tomava um porre
saudando outros
que tomastes
em vida.

Vomitei luas impossiveis
fui de tudo
e fiquei sem nada
a madrugada crescia
na rua teus passos
desapareciam de nós.

Vários porres
pelo porre
enquanto
Bukowski
morre.

Zeca de Magalhães

SUPERMERCADO

Quando ele entrou no supermercado
e se viu olhando
o preço de uma roupa
não acreditou
e aquela vontade louca a invadir o sexo
vai até o açougue

o magarefe cortava
a sua
propria coxa e vendia
como carne de coxa
de magarefe
o ajudante recolhia o sangue
e vendia
como sangue recolhido
de magarefe
e aquela vontade louca
a invadir o sexo
desce as escadas
vai à gerencia

gerente e sub - gerente
amantes e
silenciosos
corre ao caixa
onde a moça exibe
no peito
um enorme buraco
sai ás ruas
e
abobalhado
descobre que está
morto

ronaldo braga

UM DEZEMBRO

NÃO SEI ATÉ QUANDO ESPERAR,
COISAS DO TEMPO...
ESPERARVEJO-ME SENTADO EM DEZEMBRO
E OUTROS DEZEMBROS SE FORAM
E DA JANELA DA MINHA CASA EMPOEIRADA
ADMIRO A CRIAÇÃO DIVINA
AS ARANHAS A TECEREM SUAS TEIAS ENFEITADAS
ENQUANTO AS CRIANÇAS DORMEM...
BEM DISTANTE,
CONVERSO COM UM JOVEM SONHADOR QUE PASSA NA MINHA RUA,
ESTÁ FICANDO DISTANTE,
DIFERENTE
A PELE NUA
O SOL A PINO,
NA MINHA BOCA, O GOSTO DE CARNE CRUA,
UM SENHOR COM CARA DE TRISTE SE APROXIMA,
PÁRA, E ME DESEJA BOA TARDE,
RECLAMA DAS DORES,
VAI EMBORA insosso,
ACHO QUE É O OCASO,
O DIA IMITA A VIDA,POR ACASO...
E O QUE DIZER DA NOITE?
JÁ É NOITE EM DEZEMBRO,
FECHAM-SE AS CORTINAS
ACABA O ESPETÁCULO,
ESPERO PELOS APLAUSOS,
MAS...
VEJO SOMENTE UM A ME IMITAR
NÃO HÁ MAIS NINGUÉM
SOMENTE EU A ME MIRAR
NO ESPELHO QUE REFLETE,
ESTÁ AMANHECENDO,
ABRO A JANELA,
MAIS EMPOEIRADA QUE ONTEM,
E O TEMPO ME DIZ UMA NOVIDADE
COM A AUTORIDADE CELESTE,
QUE O SOL DE JANEIRO
ESTÁ COM A ROUPA DE ONTEM,
SINTO OUTRA VEZ O GOSTO DE CARNE CRUA
ENQUANTO UMA ARANHA,
SERENAMENTE TECE

Vinicius Benevides

CANGAÇO

Para João Bá

Para quem pensa
que o cangaço acabou
vive parado na história
O cangaço continua
silencioso na memória
sem volantes, cangaceiros
ou Lampiões
matando muito mais gente
pelas cidades e pelos sertões
Quem imaginou
que no tempo do Capitão
houve mais mortandade
enganados todos estão
o cangaço anda solto
com a anuência do grande cão
agora dando gravatas
em insuspeitos cidadãos
matando muito mais gente
pelas cidades e pelos sertões
o nordestino morrendo de fome
e o preto pobre metralhado na invasão
Lampião foi um santo
besta é aquele que difama o capitão
diga-me se o cangaço
não aí agora, não
sem clavinote, fuzil ou mosquetão
silencioso na capital federal
em pleno coração de minha nação.

Miguel Carneiro.

terça-feira, dezembro 26, 2006

A professora martelava as nossas mentes com as baboseiras de sempre e nos ameaçava com notas fracas nas provas futuras. Ameaças tolas, eu só tirava notas baixas.
Meu cérebro esperava o recreio: Eu tinha um acerto de contas e mentalmente calculava os meus golpes. Apalpei meu bolso, um canivete enferrujado me garantiria a vitória.
Agora o famoso som estremeceu o mundo e nós éramos livres outra vez, tínhamos a nossa vida em nossas mãos.
O meu adversário sorrindo me acertou vários golpes, não tive como usar o canivete. E depois da luta que durou dois minutos, fomos para o baba, onde jogávamos no mesmo time.
Éramos amigos, e alem da dor no rosto e na barriga, eu estava feliz. Brigar me fazia bem: Bater; Apanhar. Era uma sensação de dono do meu próprio destino. Eu sempre apanhava mais, mas a vida era isso mesmo, outro dia eu o pegaria. Já era a quinta briga contra o J. um dia eu o venceria. O J me disse - R você estar recebendo os meus golpes cada vez melhor - É isso aí J, eu estou treinando, batendo nos menores, sua vez vai chegar. Eu acreditava no J, ele era um cara legal, colocava a gente pra brigar e nos ensinava a dar e receber os golpes. Ele tinha 14 anos eu 11, eu chegaria lá.
A segunda parte da tortura, na sala de aula, foi melhor engolida, eu tinha recebido um elogio do J e ele não elogiava de graça, eu estava melhorando.
A senhora P gritou bem no meu ouvido - Me fale do sujeito oculto - A senhora P era professora de português e sempre queria saber: do sujeito oculto; do verbo; e do predicado. Eu estava sempre salvo, eu não ligava para aquelas bobagens.
E fui pra casa feliz, e recebi os cumprimentos de todos da minha idade, que me achavam um herói. Eles corriam do J e achavam que eu era louco e comentavam - O R é duro, apanhou bem e já aumentou o tempo, ficou em pé dois minutos – Eles contavam o tempo e eu era o recordista em briga com o J, os outros meninos de minha idade, ficavam de pé, até receber o primeiro golpe. Eu recebera nove e me esquivei de outros. A dor era um balsamo, pois eu via como as meninas me olhavam.

Ronaldo braga
.
A pior coisa para um artista, eram conversas antes, ou depois de uma apresentação. E bem pior se por ali estivessem esses falsos artistas, sorriso acre - doce e vestidos, tipo artistas marginais, que buscam fama e dinheiro e estarem bem com o publico, com qualquer publico.
Homens e mulheres passeavam agonias em cores cômicas de domingos e eu pressentia que essa seria uma daquelas noites de Baco e de Hitler. Eu teria que combater cada fala cada pensamento e teria que sambar no ringue, senão iria a nocaute naquele desfilar de caras funestas e pesadas e bêbadas.
Eu não mais bebia e teria que ter o absinto, como companheiro vizinho ao lado de meninas passantes, em desesperadas compensações, e só nas lembranças de ousadas caricias, alerta, interrogando tragédias legais: Pedofilia crime capital.
E eu bebia água, obrigado Henry Miller, você me salvou, com sua técnica de se embebedar com água. Eu bebi dois litros antes do debate e podia sentir minhas narinas entraves cansarem sorrisos, enquanto as flores cansavam jardins.
E aí a luta começou: Eu fui duro: E dei de esquerda; De direita; Dei nos rins; E no estomago. No fim eles desistiram, e como se fossem donos da noite, os artistas de boutique encerraram o debate, numa fuga desenfreada e agonizante, para um confortante encontro de comadres, com palavras cuspidas a contra gosto no ritual de educados rapazes e moças. Vendilhões de almas e perdidos nas prostituições sistêmicas e aceitas.
Homens e mulheres sorriam ódios e fumaças escapavam de suas latrinas. Água e mais água suspiravam meus encontros, e então a melhor parte apareceu: Uma mulher: Sensacional fez o resumo da peleja com uma maestria e sensualidade que me provocou ondas por todo o meu corpo, ela me deu um longo e apertado abraço e me agradeceu por aquela noite: Valera a pena.
Meus amigos L.F. e N.M.F. que dera bons golpes e usara muito bem as pernas, também eram sorrisos, e sorrisos para ela, a fêmea da noite, que nos dera a garantia da vitória. Vitória? Sairmos dali com uma sensação de estarmos vivos. E um bar era o nosso objetivo imediato. E nos largados momentos de charutos e entregas, as conversas resumiam egoísmos e grandezas escapavam de nossas veias e o rio corria mansamente em nossa direção.
Crianças verdes nos sorriam distancias e a poesia martelava nossos desejos e ela ocupava pensamentos, e cheiros emanavam em uma cachoeira cativante e serena. A noite foi de Baco.
Ronaldo braga
A fila e o silencio marcava um ritmo macabro àquela cena. O que será que tem ali? Todos na fila eram homens acima de 40 anos e tinham na mão um pequeno pote de sorvete, vários sabores. Caminhei então, até o inicio daquele aglomerado de homens taciturnos e então eu a vi, ela era uma menina de dois anos e segurada pelo pai, chupava avidamente o sorvete que cada um daqueles homens colocavam em seus pênis. Parei e fiquei a observar a cena e admirado estrangulei toda ontologia, e o meu ser era agora uma besta a observar uma profissional. Profissional? E percebi que não somente era o sorvete que ela chupava, com uma avidez e sem técnica, ela satisfazia cada um, e seus olhos revirados em latejantes espirros consumiam lagrimas em espôrros constantes, enquanto seu pai, sorridente, recebia quatro reais de mãos caladas e tremulas, que saiam parecendo de um inferno, com olhos tristes e atentos a vomitarem sorrisos em passados inumanos, e um andar cambaleante gritava uma insatisfação contraditória com o gozo. Fiz um rápido estudo da situação e resolvi ir embora, eu não seria um bom cliente, primeiro: gosto de conversar e me embriagar com as minhas parceiras; e depois um enojado sentimento assassino contorcia todo o meu corpo. Cansado e perdido em axiomas moralistas, caminhei e ao lado da casa, outras meninas maiores ofertavam bundas e resmungavam sofrimentos e despiam odores em flagrantes desesperos. Mais adiante um bar recebia os transeuntes e marcavam os pontos.
Ali de frente pra vida, eu lembrei de minha filha, e um vazio inexorável preencheu meus mundos. A vida era a vida, e pronto, não há salvadores e nem salvações. O mundo um imenso laboratório, e os descartáveis podiam sorrir dores em esperas macabras e buscarem na morte, uma possível recompensa. Saí dali a engoli guerras, e ruminar merda nos amores do mundo, que ainda me permitia surpresas e pesos. Desistências povoavam a minha cabeça e era um copo o que eu queria.
Entrei no primeiro bar ou o que parecia ser um. Bar da Creuza. E uma sorridente e baixa mulher me atendeu. Tomei alguns conhaques e uma cerveja e pude observar o macho da Creuza, um cara de bunda de viado recusado, teimava em afirmar que estava sendo traído - ele dizia - Você fede a cigarro, sua cama fede a cigarro e eu sinto cheiro de homem na cama – ela respondia - Não meu bem, eu não já lhe disse, um amigo meu fez um filme aqui e usou a minha cama – ele insistia – Filme? Eu sei qual filme - ela dizia – Não – ele dizia – Sim - e então ele zangado saio com passos pesados e cara de fuinha. A Crêuza era feia, mas o cara era realmente o seu par perfeito. Sai dali para mais um vomito e um bom sono de um sobrante bêbado solitário.

Ronaldo braga

quinta-feira, dezembro 21, 2006

cara de escorpião

20 paus era tudo o que eu tinha no bolso. fui a um sebo e ataquei o vendedor de primeira. ator e método de eugênio kusnet? não,não temos. aí um cara que eu fingi que não vira na entrada. e aí cara como vai! me deixa, disse eu, não gosto de canalhas fidalgos, puxa saco de político, defensor de corrupto. eu gosto de você. não falo com falso cara de escorpião. você é injusto, eu lhe tratei muito bem quando nos conhecemos. o cara fizera parte do movimento poetas da praça em 1979 e eu também. o medíocre movimento acabara. o cara dera entrevista para jornais e esquecera de citar o meu nome na relação de poetas. os merdas me esqueceram, eu fiquei feliz. eu sou o mesmo, eu gosto de você. aí eu perdi a paciência e já com o diabo na mente retruquei. aqui eu não parto a tua cara, mas lá fora eu posso conversar. o dono do sebo me olhou como dizendo quebra a cara dele. eu não brigo,sou poeta. então eu senti um nojo danado daquele falso poeta cara de jesus e olhei em frente e vi notas de um velho safado, era novo. o velho buk. respondi irado e determinado. me deixa em paz senão eu vou te dar uma surra. o cara rapidamente foi para a sua mesa e eu para o vendedor. quanto custa.18 paus. o onibus 2 paus. comprei e aí me lembrei que eu estava esperando uma jovem gostosa atriz. ela teria que pagar os cafés, eu não bebia mais álcool. de primeira li a primeira página era sobre um jogo de cartas e terminava com o buk levando uma tremenda surra e acordando vomitado e de ressaca. eu quase levara uma surra. ela chegou. apertei seu corpo ao meu. ela prolongou o aperto. eu estava feliz e esquecera o imbecil cara de jesus. infelizmente papel não recusa palavras. o mundo está cheio de merdas que se autodenominam poetas. uns boçais com discurso bonito para as meninas caras de cú enraivados e abandonados. elas adoram merda no papel e copiam frases e repetem por aí. eu estava ali com uma garota de 23 anos gostosa bonita que cheira a mulher que gostava. o mundo agora era uma merda boa e confortante. ela falou de seu namorado. de seus projetos e acertamos fazer juntos uma peça do bergaman. cenas de um casamento sueco. eu com 47 anos casado e fiel. no palco com ela meu pensamento poderia ser mais ousado mais ousado ainda. lembrei de maria branco uma grande amiga e voltei a me ocupar da bela mulher que eu ao meu modo gostava muito. eu sou fiel e casado com uma bela mulher senão. nem quis pensar o que ela achava de mim. vai me complicar. tomamos um café. o meu sem açúcar. depois outro e outro. o cara de bosta de político e de jesus disse de lá da sua mesa para mim. vc já foi visitar senhor X. eu nada falei e tive que explicar todo o acontecimento para rita. fiquei zangado de novo. senhor X um reles poeta medíocre estava morrendo que morra mas eu respeito a morte não tenho piedade nem pra babacas. não iria lá e dizer. aí senhor X morra porra. ficava de longe e nem pensava na porra da morte dele. voltei a bukowski. falei de melodia de agosto e de um grande poeta que eu descobrira, o luciano fraga, e fiquei feliz de novo. ela me deu um presente o livro de bergaman e um beijo. eu estava nas nuvens. babacas podem existir à vontade. como é bom estar na merda desse mundo. o cara de jesus foi embora. o cheiro do lugar melhorou e o cheiro de rita a jovem atriz inteligente e gostosa dominou meu nariz e todo o meu existir eu era a porra de um homen safado. hein buk. sabemos viver. decidimos ir visitar senhor K um poeta de verdade. um cara que dava um duro danado pra pagar as contas. não entregava os pontos. um poeta que escrevia a melodia das ruas. do submundo de toda a sinceridade da merda do viver e tinha beleza e ritmo. ele desloca a bobagem do significado a sua poesia cheira a vida. garra e coragem. senhor K é casado com uma grande poetisa e contista de qualidade acima da média. eu adoro ler senhora M. ele demorou e chegou baforido é assim com o senhor K ele sempre chega baforido. chegou esbravejando e pregando o voto nulo. é isso aí senhor K bata forte nesses canalhas de esquerda e direita. parasitas e sugadores da vida. a morte é o que eles amam a morte e a doença. eu gosto da porra da vida. uma boa merda. eu gosto. a vida com tudo o que tem de perigoso e de merda e de bom. eu sou um forte. um cara de escorpião. rita me levou e esperou o meu ônibus chegar. fui pra casa e no ônibus pensei em kerouac um viajante nem sempre solitario. em nietzsche muita além do bem e do mal. foucault e sua vontade de saber. em heráclito e sua capacidade fenomenal. em bergman e sua maldita mãe. em zinaldo e sua música que eu adorei ouvir em alice. em pablo um médico que sabia das coisas e no bom e surpreendente poeta luciano fraga. no bom poema de patrícia mendes e no meu especial amigo nelson magalhães. nos meus filhos na minha bela mulher. em uma boa música clássica e no meu sobrinho caio um músico para ouvidos refinados.pensei e pensei que eu não estava morrendo. era somente a confirmação de que nos meus infernos preferidos cruz das almas e salvador existiam além das desgraças que se intitulam poetas, professor de filosofia e outras bostas de político. existia gente que me dizia. ronaldo viver é bom. a merda do mundo cheira a merda e a vida que bom. eu sou um cara de escorpião e amigo de lakarus sei descobrir um bom sorriso em um cú. eu não sou a porra de um homem oco e nem empalhado. eu tenho o que ler, amigos para uma conversa e os porras empalhados que se fodam ou não. cheguei em casa e beijei minha linda mulher. o mundo pode ser uma grande merda mas essa mulher é minha.

conto oferecido a buk e a nelson magalhães.
ronaldo braga.

baixinha da vitória

A chuva desabava e goteiras acordavam os sonos, eu tentava escapar e panelas e baldes aparavam águas de um soluço interminável, lembranças terríveis assolavam da noite e estrelas sumidas insistiam sofrimentos.
- Levanta preguiçoso - Bradou meu pai e toda sua estupidez.
- Já? Ainda não deu cinco horas. Eu quero dormir mais um pouco.

- Dormir o que? Imprestável. Levanta, vai comprar o pão e coloca água pra ferver. Nem com tantas goteiras na cama esse maldito levanta. - Meu pai agora era cólera e vertia ameaças em gestos e palavras e de sua mão uma vara impunha respeito.
- Tá bom. Já vou, já vou. Que merda.
- O que você disse moleque?
- Nada, eu não disse nada.
A rua, era silêncio e madrugada, e a lua emanava tristezas de antes, e insetos sobrevoavam meu andar em uma insistente orquestra fantasmagórica, em frente a minha casa, Pedrinho Bicho Doido acordava os músculos, em exercícios marciais, e cantava canções de heróis em sua mudez arrogante. A chuva era trégua e cores prateavam o mundo em difrações infinitesimais. Louro Bicho sonhava copos e de sua casa, sujeiras espalhavam nojos. Eu caminhava uma rua deserta e pessoas surgiam em seus afazeres. A venda fechada irritava clientes e conversas medrosas informavam fofocas e exigiam o meu acordar, e entre dentes o povo falava:
- Hoje vai ter briga aqui na rua, vou dormir cedo, eles marcaram para as 18 horas - era seu Venâncio olhando pra todos os lados.
- Quem vai brigar?- atônita indagou dona Flor.
- A senhora não sabe? Compadre, ela não sabe.
- É compadre Venâncio, eu ouvi, não precisa gritar - resmungou seu Agripino sempre azedo.
- Dona flor, o Borraxa chegou, na caída da noitinha, junto com aquela chuva fininha e o Diabo Louro chegou logo depois, e para completar o Pedrinho Bicho doido acabou de chegar, e faz exercícios na porta, e vestido só de cueca. - Seu Venâncio lamuriava em uma monótona canção de medo e terror.
- Mas isso é o diabo meu Deus. E Tonzinha? E Zefa? E Bastião? Eles não fazem nada?
- Fazer o que? Dona Flor, o que, que a pobre da Tonzinha vai fazer para impedir o Diabo Louro? Ele faz o que quer e pronto, ela disse que pediu a dona Zefa, pra avisar da vinda do Borraxa. Mas eles são o que são, matam gente. Dona Flor, são filhos do cão danado. - seu Venâncio se entusiasmava e tagarelava com desenvoltura, e todos cabisbaixos adentravam a venda entreaberta e triste. No balcão Giane avisava:
- Vamos fechar às cinco da tarde, não quero ter prejuízos.
Todos concordaram e iam falar quando Pedrinho Bicho Doido sorriu venda adentro e com sua voz feminina brincou facas nas mentes covardes:
- É hoje seus machos retados que a baixinha tem festa, há anos que eu não encontro o tal do Borraxa e vou acertar contas com ele, é bom irem pra cama cedo, não quero ver ninguém na rua depois das cinco. Nem as crianças. Ouviram? E o senhor. Seu Venâncio da língua grande. Pode espalhar. Eu quero a baixinha da vitória livre. Ouviu? Livre. Hoje essa rua é o meu salão.
- Sim senhor seu Pedro – resmungou quase inaudível seu Venâncio acariciando a face esquerda, onde uma lembrança do Pedrinho Bicho Doido marcava território e prolongava medos. De volta pra casa, tomei um café com pão seco e engolindo injúrias e promessas de surras, me sonhava Diabo Louro com sua Tonzinha louca e descarada, enquanto caminhava pra escola. A rua misteriosa vagava na noite por vir, e deixava quietas as contendas menores: Era dia de homens, e os fantoches se sabiam nada e cochichavam rumores de meganhas da capital, em tímidas esperanças natimortas, encolhiam ombros e eram bondosos. A escola era só alegria em batalhas de verdade, a impor futuros, nas peles em fogo de punhetas esquecidas, e nas salas as torcidas se dividiam:
- O Borraxa vai acabar com o viado e com aquele sinistro Diabo Louro - apostava Mané liberando raivas antigas e revelando dores impotentes;
- Tu tá é com raiva, Diabo Louro deu uma surra em teu pai e só não o matou porque disse que não matava morto - desafiou todo orgulhoso Juca que temido, era amigo tanto de Diabo Louro quanto do Pedrinho;
- Eu não tenho medo de você não, quando seus amigos forem embora a gente acerta.
As meninas colhiam flores em espinhos comoventes, e sorriam guerras em batalhas queridas, e as garotas esquecidas buscavam refúgios em gritinhos e promessas de beijos Eu insistia meus medos em coragens ausentes e desafiava céus, e músicas gigantes invadiam nossas cabeças de medusas. E valentia era a constante do dia. As professoras falavam de amor e ameaçavam zeros, funcionários agitados, alarmavam noticias. E a escola em desordem era férula, numa festa macabra de esperanças totais, e verdades quebradas. Todos sorriam de medo ou de felicidade, e desejos ocultos afloravam peles, e meninas esfregavam vestidos, e seios buscavam mãos, e éramos belos e eretos, éramos da rua de heróis, temida e mal falada por toda Bahia, a minha querida baixinha da vitória, com seus loucos, seus monstros e seus homens de verdade.

ronaldo braga